Friday, December 29, 2006

Ano novo. Eu Rio em lágrimas.



Engraçado é que isso tudo ainda assuste todo mundo. Parece besteira quando a gente toma susto em filme de suspense. Afinal, se no filme você já sabe que alguma coisa muito feia vai acontecer de repente, e por mais que você já soubesse que algo seco, frio, brusco e mortal estava para acontecer... Ainda assim você não devia se assustar!
A gente nem devia mais se assustar se as coisas já andam mesmo tão doidas. E já faz muito tempo.

Tempo que nem mesmo a própria história ensinou o homem a digerir. A olhar pra trás e aprender com os próprios erros. Tempo que passa todos os dias, com gente nascendo e gente morrendo. Gente morrendo. Gente sofrendo. E gente que ainda continua insistindo em nascer nesse mundo tão inexplicável e misterioso.
Pelo menos para nós mortais.
Talvez a eternidade, que ninguém consegue conceber, resida no segredo de aprender com o tempo. Aprender a conviver e tirar proveito dele. Lembrei agora de um verso que um dia alguém me disse, de uma música de Luiz Gonzaga: “o fruto bom dá no tempo, no pé pra gente tirar. Quem colhe fora do tempo não sabe o que o tempo dá”.
E o tempo não para de passar, e a chuva nunca para de descer, o sol nunca para de queimar, o Rio nunca para de correr e o fruto e o Brasil nunca amadurecem. Os tiros nunca param de matar e o rio nunca para de sangrar.

Sangue da nascente de lá do alto das cordilheiras do tempo. De um sol poente, vermelho da cor do natal. Tempo que a gente não entende. Como nessa mesma terra brasileira há séculos atrás, num tempo que a gente continua sem entender, o índio também não entendeu nada. Não entendeu que a brancura reluzente das caravelas no oceano era um sinal do fim dos tempos – pelo menos o dele. Não entendeu que, daquela cruz, nem mesmo aquele homem que todos chamam de filho de Deus conseguiu escapar. A cruz das grandes navegações, das bandeiras, dos escudos, das cruzadas e das espadas. A cruz dos nazistas. A cruz que foi inventada como instrumento de tortura e pena de morte para os mais vis criminosos da antiguidade.
A cruz que continua machucando depois do carnaval e semana santa.
O sinal da cruz que a gente costuma fazer, se benzendo, para se proteger do mal. Assim como quem vai viajar de avião faz, quando fica com medo e se benze. Ou então quando se faz o sinal da cruz para ver se ajuda a conseguir embarcar e chegar a tempo, voando, para ver a família e os amigos na ceia de natal.

Tem também o sinal da cruz que todo mundo faz quando alguém que a gente conhece morre e a gente diz “que Deus o tenha”. Ontem foi um colega meu lá da Petrobras. Foi embora desse mundo louco na correnteza misteriosa do tempo.
Bira era muito gente boa, não merecia viver toda essa loucura do dia de hoje e dos dias que virão. Dias de novas brancuras reluzentes no horizonte do mar de mais um reveillon. Quem sabe? Vai ver que foi por isso que Deus tocou o dedo forte demais no coração dele e o levou para perto. Para ajudá-lo a ouvir as tantas preces, pedidos e promessas que evaporam do calor lá debaixo, do Rio de lágrimas.

Bira era um sujeito alegre. Tinha entre 50 e 60 anos e parecia estar sempre bem disposto, pronto para ajudar. Trabalhava na reprografia do Cenpes e cuidava do material gráfico e das impressões de lá. Era magrinho, tinha os cabelos encaracolados, usava uns óculos engraçados de aros grossos e tinha um sorriso no rosto que mostravam sua alegria de viver e gentileza entre uns poucos dentes estragados. Gentileza. Era um poeta.

“Apagaram tudo. Pintaram tudo de cinza”. Cantarolei um trecho da música de Marisa Monte para o taxista que me trouxe de volta para casa hoje. O gerente-executivo do Cenpes deu ordens expressas para que ninguém ficasse lá depois das quatro e meia da tarde. Eu desobedeci. Morrendo de medo. Mas precisei desobedecer e ficar até mais tarde para concluir um trabalho urgente. Estava cheio de cálculos para fazer. Calcular a área em centímetros quadrados a qual cada marca, dos parceiros de um projeto da empresa, terá direito a aplicar na envelopagem promocional de pick-ups de acordo com sua participação financeira percentual. É incrível como nessas horas a adrenalina dispara o cérebro. Eu, que quase fui pra a recuperação de matemática, consegui terminar o trabalho um pouco antes das seis.
Chamei o táxi e tinha um voucher da empresa para voltar para casa. O taxista era um cara jovem, chamado Alexandre. Quando estávamos saindo pela linha vermelha para entrar na avenida Brasil, Alexandre ainda estava falando no celular com sua mãe, sua ex-mulher e seu filho pequeno, tentando combinar o seu fim de semana de fim de ano. Quando desligou pude finalmente perguntar para ele se tinha notícias sobre os tiroteios que estavam acontecendo. Ele estava meio por fora. Comentou algo sobre as milícias. Depois a mulher dele ligou novamente para dizer que a cachorra deles tinha furado a bolsa e não conseguia parir. Estava passando mal e precisava de um veterinário. Alexandre ligou para outra pessoa, pedindo que chamasse o veterinário da favela. Eu também tive que deixar minha cachorrinha sujando a casa da minha tia mais um dia, lá em Niterói. Atravessar a ponte hoje seria loucura.
Foi quando estávamos passando pelos viadutos em São Cristóvão, perto do colégio Pedro II – eu ainda não conheço bem a cidade e ele pegou um outro caminho para minha casa em Santa Teresa. Lá estavam as mensagens do profeta Gentileza. Novinhas em folha. Atuais. Parecia até que tinham sido pintadas esses dias. Aí perguntei a Alexandre, que estava meio distraído:
- Será que essas mensagens de Gentileza ninguém conseguiu apagar?
- Apagaram? Não sei.
- Apagaram tudo. Pintaram tudo de cinza... - cantarolei um trecho da canção para ele.
- É... talvez tenham restaurado...
- Pode ser. Mas já tem um tempo que estão apagando a poesia dessa cidade e Gentileza já morreu.
- Ele já morreu? Não sabia... Toda hora eu via ele passando por aqui – disse Alexandre, meio distraído.
- Já morreu. Você sabe a história dele? Dizem que perdeu toda sua família num acidente ou numa tragédia. Ficou sozinho, virou mendigo, saiu da roda do tempo e conseguiu entender tudo. Escrevia por aqui essas coisas, pintando com essas letras bonitas e coloridas o cinza da cidade.
- É, mermão... Quando o cara não consegue agüentar, pira né?

É, Alexandre. Quando a gente não consegue agüentar a gente pira. Ou prefere não ver o que está acontecendo bem na nossa frente. Fica distraído.

No caminho eu já tinha passado o número do meu voucher a Alexandre, para o pagamento da corrida pela empresa. Peguei de volta para preencher os meus dados. Estava comigo. Eu preenchi. Quando o táxi parou na frente aqui do prédio e eu fui saltar, cadê o voucher?
Cadê? Revirei o carro todo. Vasculhei toda a minha bolsa. Olhei debaixo dos bancos e dos tapetes, meus bolsos, entre as páginas de “As veias abertas da América Latina” - que estou lendo tardiamente - e nada. Só achei uns papéis antigos. As janelas vieram o tempo todo fechadas. Menos a do motorista. Não entendi e, sinceramente não quero nem pensar em desconfiar dele. Ele parecia ser uma boa pessoa. E, em 2007 e em todos os anos do resto da minha vida, ainda quero poder continuar acreditando nas pessoas.
O voucher sumiu. Possivelmente achou algum portal do tempo misterioso que a gente desconhece e está sendo recebido por outro taxista por algum outro eu no bairro de Santa Teresa no Rio de Janeiro de outra dimensão. Ou outra possibilidade quântica. Pedi para ele esperar, vim ao apartamento, peguei um cheque meu, preenchi e paguei. Trinta e sete reais. Ele me deu o recibo e pegou meu telefone para o caso do taxista da outra dimensão não aceitar o pagamento em voucher.Mistério.

“Ai que saudade eu tenho da Bahia. Ai se eu escutasse o que mamãe dizia.” E mamãe dizia que não agüenta mais brigas. Disse para mim e para minha irmã, que chegou hoje no Rio – logo hoje! - e que não veio direto aqui pra casa, foi para a casa da minha tia e de uma amiga, por que discutimos por besteiras de irmãos e por acusações infundadas de plágio literário por ambas as partes. Não me pediu desculpas. Nem eu pedi. A gente nunca pede. Ela me ligou antes de eu começar a escrever, me chamando para ir no Cobal em Botafogo tomar uma cerveja com ela e sua amiga. Disse que não ia.
E aconselhei-a a também não se arriscar.
Está perdoada. Mesmo não tendo pedido desculpas. E pode vir ficar aqui em casa, se quiser.
A poeira já baixou. Sempre baixa rápido.
Temos que manter a irmandade, levar na esportiva. O Rio de Janeiro também tenta levar na esportiva. Mas quem sabe o que será do Pan 2007 depois de toda essa confusão?
Que baixa a poeira. Na santa paz de Deus. No mais perfeito caos.

Mas se pra mim a poeira já baixou, as estrelas caíram do céu e as parcas continuam conspirando. Nas luzinhas da árvore de natal que é o Morro dos Prazeres, minha paisagem da janela da sala, ao lado do sovaco esquerdo do Corcovado, no coração do Cristo, o foguetório do reveillon já começou. Estranhos prazeres. Podres poderes.
Enquanto isso o Jornal Nacional mostrava os estragos do dia de hoje.
Um estranho fim de ano. Deve ser por causa da época do Natal, hoje todo mundo me ligou querendo saber notícias.
Sinceramente. Hoje eu não entendi nada. Ou acho que estou ficando distraído.

Marcos Siqueira. 28/12/2006.

Sunday, December 10, 2006

homens de família.



por Marcos Siqueira.

Sou um homem de família. De família grande. Grande mesmo.
De sangue, tenho meu pai, minha mãe, duas irmãs e um irmão. E uns 21 primos, pelo que consegui contar agora de cabeça. Tenho sete tios emprestados e só um de verdade. E tenho oito tias, sendo que seis delas são irmãs da minha mãe – da casa das sete mulheres - e que a minha tia por parte de pai é também minha dinda. Ainda tem também vovô Geraldo e vovó Yayá (vovô Eraldo e vovó Lourdes já foram embora...). E os agregados também estão no mesmo barco. Os namorados(as) e os maridos(as) das minhas primas(os) – e os que estão para chegar, né Silvinha? Os ex-namorados de minha irmã (ps1. não foram muitos... dois só, que eu saiba... ps2. me refiro a minha irmã mais velha, a mais nova – eu que sou o dindo dela – tem só doze anos... pode esquecer essa história de juventude precoce...), a namorada do meu irmão e ... Ah! Ainda tem as duas filhas da mulher do meu pai! E também os três filhos do marido da minha mãe. E, claro, minha boadrasta e meu brodastro!
(Abro esses parênteses por que esqueci de dizer que meus pais se separam quando eu tinha uns nove anos e que cada um casou de novo e que minha irmãzinha é só por parte de pai. Fecho parênteses.)
E aí, é claro, eu não posso deixar de mencionar os irmãos de coração. Por que eles também são verdadeiros irmãos mesmo. Não importa se são ou não são filhos do mesmo pai e da mesma mãe. Irmãos com quem a gente cresce junto, com quem rimos e com quem choramos. Os irmãos que a gente vem escolhendo nessa vida por ai afora, nesse mundão de meu Deus. Os amigos. A galera. Os broders. Irmãos, companheiros de todo dia.
E já que esse mundão de meu Deus é tão grande e meu Deus não é só meu, é nosso, e Ele tem tantos filhos, que eu tenho também todos esses irmãos de alma.
Irmãos de humanidade. Irmãos em Deus.
Os irmãos do cotidiano. O irmão a quem eu dou bom dia de manhã cedinho, quase de madrugada, quando eu subo no ônibus e é ele quem está lá sorrindo, ou até mal-humorado, pilotando o caminho do começo do dia de um monte de gente.
Gente de dentro do ônibus. Irmãos de segunda-feira. Irmãos de engarrafamentos. De violência urbana, de superpopulação. De solidariedade, de cidadania, de respeito. De união. Todo mundo no mesmo barco. Ou barca furada. Ou não.
Os irmãos do trabalho. Que além de serem irmãos, jogam no mesmo time. Pra eles é que a gente mata a bola no peito e dá aquele passe na medida e deixa o parceiro de cara pra um golaço de placa! E quem ganha é o time todo! Nós. A grande família de todos os dias úteis. E dos inúteis também!
A família do horário de verão. A família nordestina. A família da roça. A família espalhada pelo mundo. Os amigos e irmãos, os estrangeiros e os brasileiros dos Estados Unidos, do Canadá (abraço pra meu primo Hugão, grande broder), da República dos Camarões, da Holanda, França e Suíça. Índia, Paquistão, Papua Nova-Guiné, Japão. Luanda, Peru, Egito e Pólo Norte.
Amazônia, pulmão do planeta. Brasil, coração do mundo.
A humanidade tão brasileira, quanto chinesa ou européia. Os irmãos virtuais.
Os irmãos WWW. Os trigêmeos DDD. Os XXY e os XXX, triplo X.
E até os fresquinhos irmãos KLB. É todo mundo irmão.
É. Sou mesmo um homem de família grande. Uma família com uns seis bilhões de irmãos. De pais, mães, tios, tias, primos, avós e afins.
Até lembrei agora daquele romance de Maria José Dupré que tinha na série vaga-lume – quem nunca leu? – e que até virou novela do SBT, “Éramos seis”... Me dá medo que isso seja um mau augúrio.
Tenho medo dos efeitos do aquecimento global. Medo da falta de água. De comida. Da falta de educação. Da falta de consciência. Da falta de limites. Da falta de respeito. Medo do bicho homem. Abel com medo de Caim. Medo da ciência usada para o mal. Medo das bombas.
Medo das palavras mal colocadas. Ou bem colocadas, na mira, para ferir o coração de algum outro irmão. Medo da escravidão física. Medo da escravidão mental.
De Caim matar Abel.
Medo da guerra.
Aí estava eu aqui, hoje à noite, em pleno sábado à noite, com tantos irmãos – e irmãs! – me esperando por aí, pensando numa frase de uma música do Araketu, “tambores pela paz mundial, é normal no carnaval, eu sou araketu na avenida...”
Tava pensando numa dessas geralmente bobas mensagens de fim de ano da rede globo. Só que essa, apesar de simples não era boba. E de quantas idéias muito simples já não construímos, nós mesmos dessa família humana, civilizações e impérios? A simplicidade do fogo e da roda. A invenção da matemática e da escrita. Do papiro.
Tudo muito simples. Muito revolucionário.
E a revolucionária idéia do comercial de fim de ano da globo – que inclusive já teve bons momentos do tipo “Esse ano eu quero paz no meu coração. Quem quiser ser meu amigo, que me dê a mão...” – dizia mais ou menos assim num diálogo que tinha também Edson Celulari e Cláudia Raia:
- E se todo mundo, todo dia se tratasse como irmãos?
-Bom dia, meu irmão!
- Bom dia, irmãzinha!
O mundo não seria bem melhor assim? Vamos precisar muito contar com nossos irmãos para enfrentar as barras que vem por aí. Nos dar as mãos. E vamos aproveitar ao máximo para aprender tudo o que ainda possamos aprender com a nossa maravilhosa diversidade cultural. Vamos aproveitar a geografia, os pontos históricos, turísticos e o avião. Enquanto ainda temos celular e internet. Vamos aproveitar enquanto ainda somos todos nós. Vamos nos conhecer. Aproveitar e vencer as nossas barreiras. Para que o amanhã seja melhor. Para saber a maravilha que aflora entre o raiar e o crepúsculo de uma vida. Entre o primeiro choro e o último suspiro. Vamos aprender a olhar nos olhos. A sorrir. A chorar. Vamos nos unir, enquanto ainda é tempo, para que a humanidade vença e supere todos os obstáculos. Que ainda seja humanidade.
Para nos tornarmos melhores.
Para sermos mais irmãos. Homens de família.

Friday, December 01, 2006

trilhas do universo ou caminhos do coração.



























por Marcos Siqueira.

O fim ou o recomeço? E se já se tinha tudo revirado ao avesso, que fazer agora?
E então? Olhar no chão ou mirar estrelas? Aqui abaixo do manto do firmamento só poucas faíscas, fracas centelhas. E pouca resposta.
O tempo pára e a mata cerra. Trilhas e milhas a abrir. Caminhos de luz e vento. Onde vai o pensamento. Pelas artérias, veias e capilares, desenhando os caminhos do coração. Em quentes fagulhas e respingos de uma pulsação febril, de formas expressionistas e cores surreais.
Lá de cima, constelações rezam pelas luzinhas das casas de toda gente, dos barracos nas cidades, dos morros cheios de vida. Das árvores de mais um Natal qualquer. Apagando e acendendo estrelas. Nascendo e morrendo gente. Pisca piscando. Pulsação. Latente bate-bate de TUM, TUM, TUM.
Mais forte o coração pergunta ao universo: e agora? E então?

ilustração: www.gettyimages.com

Sunday, November 19, 2006

flores astrais.























Nessa semana escrevi um pouco mais. Acho que fiz uns 5 textos. A maioria vou deixar no estoque pra quando faltar tempo. Agora tenho mais uma coisa aqui pra dedicar um tempo e estudar. Realizei uma vontade antiga.
Comprei um baixo! Preto. Bonitão! Tô praticando.
Bem, mas esses dois escritos aí de baixo tem um tema bem parecido.
Ou talvez na verdade, seja um TEXTO só. A diferença foi a trilha da vida no universo paralelo por qual cada um tomou rumo.
Aqui, diferente da vida, a gente pode escolher o final da história.
Quase sempre.

Paisagem da Alma
Marcos Siqueira

E essa é mais uma maneira qualquer de ficar longe de você. Pelo menos em pensamento.
Ia ser bom. E a qualquer momento poder te olhar sem te querer. Que seja!
Tirar da cabeça qualquer pensamento romântico-psicodélico. Qualquer neurose ou compulsão por sua voz. Qualquer boba idéia de nós. Qualquer tesão incontido.
No vermelho do seu sorriso. De vergonha. De falta de vergonha.
No vermelho do seu sexo. No calor das palavras e das línguas, me calando ao açoite da noite.
Qualquer hora que eu te tenha só minha. Sozinha. Deixo dentro de você a marca quente de minha alma. Minha paisagem. De verão e inverno, outono e primavera. Que não pode ser dita a ninguém. Não em palavras.
E quanto mais fundo se entra na paisagem da alma, mais calados ficamos.
Estamos sós no universo. As borboletas voando pela highway. Ou pela estrada de tijolos amarelos. Os deuses dão as cartas e o resto é com você. Adeus. Há Deus.
Vou vivo pro céu. Vou viver outra prisão pra não lembrar você.

Sobreviventes
Marcos Siqueira

Como se já fosse minha velha amiga, ela insistia em aparecer.
Costumava aparecer quando eu andava sozinho pela noite. Quando a dor me apertava fundo no peito. Quando em minha voz não caberia a amplidão do meu grito.
Ela vinha assim, sem avisar. Chegava à noite ao som de alguma melodia da minha cabeça. Vinha e tomava comigo algumas doses. Me abraçava e inebriava meus sentidos. O ar ficava mais pesado. Os sons mais altos, os sentimentos mais agudos.
E lá estava ela. Insistia em aparecer mais uma vez aos meus olhos e coração.
E ela sabia mesmo me atingir. Despedaçando-se daquele jeito em minha frente.
Chorando todas as pétalas das minhas vinte e poucas primaveras. Ali na minha frente. Desmanchando-se em desilusão. Derretendo como a tinta impregnante e radiotiva de um quadro psico-surreal. Tão cheia de cores, dos roxos das dores aos vermelhos das flores. E amores. Vão. Tingindo em aquarelas o profundo coração. Pintado em castelo de corais. Em estrelas do céu do interior. Em verde de canaviais. Em azul de maresia. E a nuvem atrás dos seus olhos.
Vem a chuva. Detrás dos seus olhos. Os pingos bombardeiam e respingam desbaratando a dança das cores. O céu derrete. O sol desbota. E a manhã daquele dia.
O vazio que fica. Na manhã daquele dia. Um mundo inteiro. Com árvores fáceis de achar. Prontas para o coração que eu desenhei com o nome do meu amor. O meu amor. Só meu. A flor.
Que nasce. Cresce. Brota. Fulôra. Resplandece. Gira ao sol. E se deita com a lua. Nua. Sua. Some. Murcha. Vai embora.
Quanto mais pisada em qualquer jardim mal cuidado, mais exótica e bela. Flor de aquarela. Borrada, derretida em água. Que teima em criar novos desenhos, linhas, traços e arabescos. E novas flores insistem em nascer. Em multiplicar-se. Em explodir pelo universo parindo novas flores e estrelas.
E no final, vem o outono e vai a primavera. No jardim voam os passarinhos. Com um canto melancólico qualquer. Não há flores. As folhas secas no chão. E, de outra escuridão qualquer , nascem flores e o sol de um novo dia.

textos escritos por mim, Marcos Siqueira.
ilustração da www.gettyimages.com

Tuesday, November 14, 2006

perdão pelo coração que eu desenhei em você com o nome do meu amor.



Estive em Salvador nesse último fim de semana. Foi muito bom. Revi pessoas queridas. Tive momentos e encontros muito legais. Passei no meu antigo trabalho, na Codesal, e aproveitando que estava com o pen driver na mão, pedi a Teixeira para gravar umas mp3 para mim.
Aí ele mandou escolher. Escolhi algumas coisas e pedi que ele me sugerisse umas novidades. Ele sugeriu Arnaldo Antunes e eu meio que torci o bico. Eu gosto dos conceitos de Arnaldo Antunes. Mas achava ele cabeção demais. Tinha uma idéia de que faltava algum "funky style" no som dele. Então, para encher a capacidade do pen driver, copiamos "Um Som", de 1998. Segundo Teixeira esse é o melhor albúm dele.
Cheguei aqui no Rio e já senti saudades de tudos e todos. Especialmente de um coração que eu desenhei...
Aí estava em casa curtindo lembranças e o barato da música e resolvi colocar essa letra aqui. Que é uma poesia. Perdão pelo coração!

As Árvores
Arnaldo Antunes

As árvores são fáceis de achar / Ficam plantadas no chão / Mamam do céu pelas folhas / E pela terra / Também bebem água / Cantam no vento / E recebem a chuva de galhos abertos / Há as que dão frutas / E as que dão frutos / As de copa larga / E as que habitam esquilos / As que chovem depois da chuva / As cabeludas, as mais jovens mudas / As árvores ficam paradas /Uma a uma enfileiradas / Na alameda / Crescem pra cima como as pessoas / Mas nunca se deitam / O céu aceitam / Crescem como as pessoas / Mas não são soltas nos passos / São maiores, mas / Ocupam menos espaço /
Árvore da vida / Árvore querida /
Perdão pelo coração / Que eu desenhei em você / Com o nome do meu amor.

Wednesday, November 01, 2006

epíteto ao brilho apagado das estrelas ancestrais.

Aqueles olhos vidrados já sabiam de tudo muito antes daquele tempo do fim chegar. Da sua boca brotava o amargo do sangue, de terra e de dor. Era como se, de dentro do peito, a alma lhe quisesse deixar vazio o coração. E todas as suas entranhas contorciam-se com aquela agonia de ecos infinitos. Era dor da maior profundeza, das que vêm de dentro dos mais escuros abismos do ser. Humano.
Humano. Que nasceu de uma mãe e um pai. Que foi amado, que cresceu, que brincou, que caçou, que nadou, que pescou, que guerreou, que fluiu e que agora estava ali. Tão humano, tão mortal e tão finito quanto os estranhos senhores da morte. Estranhas divindades mortais. Que chegavam de longe. Que tinham a pele branca, que também tinham pai e mãe, que se cobriam de panos e que queriam o ouro. Humano.
Agora também sabia o que era o tesouro. O verdadeiro tesouro. Sabia o que era a força do amor e sabia também da outra força, vendo a humanidade, como então até ali conhecera, morrer amarga e seca. Como ele. Ali debaixo de um lindo céu azul. Em cima da sedenta terra marrom e seca, que agora bebia suas últimas gotas, tingida de sangue. Dos céus asas brancas e douradas cruzavam-se em danças do epíteto. Formavam desenhos, contando numa valsa o fim da inocência. De longe o carcará tecia com as parcas o seu tinido, cortando o ar carregado de morte.
E à profunda agonia finalmente cedeu. As cortinas se abriram. E ele pode lembrar-se de tudo mais uma vez, como se lembrava às vezes. Como naquelas vezes quando sentia a alma sair-lhe de dentro do coração com a fumaça que soprava pela boca, desenhando flores e formas no escuro do céu pontilhado pelas estrelas de seus ancestrais. Como quando já sabia ser tão fumaça quanto aquela fumaça da fogueira. E subia aos céus levando a consciência da terra dos mais profundos cantos do ser às mais distantes e altas constelações. Ia aos mais longínquos reinos do outro lado da grande mãe d´água. E sabia que eles chegariam. Que o fim chegaria. Que derramariam sangue em sacrifícios de consagração a si próprios, como se a todas aquelas vidas a oferta fosse compulsória. O sorriso se apagava no rosto das mais pequenas crianças. Os velhos entregavam-se à morte. Às mulheres era violado o templo do corpo para que se lhes sujassem a pureza de dentro. As almas dos guerreiros acendiam cada vez mais estrelas no céu, com a mesma velocidade e fogo com que saiam pelos furos das pedras mortais, rajadas do trovão das carabinas.
Ele sabia que aqueles grandes e estranhos pássaros brancos, que vinham em esquadras lá detrás da última linha de mar, eram um prenúncio de paz. Uma paz diferente. Resignada. A paz do espírito que chegava à mais clara e profunda compreensão do divino. Da sabedoria e da ciência. Que via seu corpo, seu povo e seu tempo ficando para trás de maneira tão violenta. Esmagados e singelos como uma pequena flor na beira da estrada do tempo. Humano. Parte da natureza. Onde nada se cria. Nada se perde. Onde tudo se transforma. Em fogo, água, lágrima, fumaça, sangue, terra e consciência. E paz. Pela consciência. Divina e eterna paz. Com ciência. Compreensão do astral superior.
Paz.
E daquele tempo que já não era mais, pouco ficou. De lá ainda dá para ouvir o fluir das águas do tempo do universo. As batidas profundas de consciência do princípio de tudo, do coração sagrado universal. Das estrelas dos nossos antepassados. E do coração de Tupã, a força da natureza.
E, um dia qualquer, hão de se lembrar de tudo que mataram da memória junto com aquele povo alegre, guerreiro, belo e tão natural. E aquilo que nesse momento se revelará aos povos, surpreenderá a todos não por ser exótico. Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto quando terá sido o óbvio.

* A sugestão musical já está bem explícita no texto. Cordel do Fogo Encantado e música andina também caem bem.
Foto:
www.gettyimages.com
Texto escrito por mim, Marcos Siqueira.

Wednesday, October 18, 2006

um conto para acordar ou dormir.

De repente ela acordou. Não sabia onde estava, que horas eram e sentia-se assustada, como se algo muito grave tivesse acontecido. Levantou-se, abriu a cortina e o sol do meio dia feriu seus olhos com a realidade do que acontecia. Agora ela começava a lembrar aos poucos. Olhava no rosto daquele homem que dormia sereno naquela cama de hotel. Cada marca do seu rosto contava um pedaço de toda a história. Um sorriso de quem está sonhando com a mais profunda paz fez que ela se arrepiasse e sentisse medo daquela confirmação. Foi à bolsa e tirou um cigarro do maço amarrotado. Sentou no outro lado da cabeceira e fumava perguntando-se se era mesmo ele. Ele, de repente assim, daquele jeito tão misterioso tinha aparecido. Como se o véu do sonho tivesse sido levantado e agora ela soubesse. Tinha medo de ter certezas como aquela. Como poderia afinal saber se era mesmo ELE o homem de sua vida.
Nunca tinha acreditado em almas-gêmeas. E todas as pessoas com um pouco mais de maturidade àquela altura, até mesmo ele, já sabiam que isso era coisa de conto de fadas.
Lembrou de uma conversa qualquer, no restaurante com o pessoal do escritório em que alguém disse que isso não existe mais por que a vida moderna acostumou todo mundo muito mal. Tudo agora ficou fácil, rápido e descartável. Inclusive os relacionamentos humanos e os sentimentos. Fazia sentido agora... Continuava pensando em como continuava sem acreditar em almas-gêmeas e por isso tinha medo de olhar para aquele homem que dormia feliz de barriga para cima. Deus meu, pensava, mas será possível?
Pensou em como ele sempre fora uma pessoa singular. Atencioso, bem-humorado, romântico, bom e muito bom de cama. Bonito. Chamava atenção.
Mas ela não tinha ciúmes, ou pelo menos fingia bem até para ela mesma. Volta e meia perdia a paciência com ele. Ele sempre tão espontâneo e livre às vezes parecia ingênuo aos olhos dela. Agora, ali, sentada, de calcinha, com a velha blusa de rock´n roll dele, tragava o segundo cigarro e com os olhos bem abertos pensava em quanto tempo tinha perdido e quanto tempo ainda lhes restava. Agora ela sabia.
Ele estava ali deitado. A qualquer momento acordaria, olharia para ela e eles provavelmente se beijariam, como muitas vezes fizeram antes. Anos atrás essa história havia começado. E então, muito tempo depois, eles tinham se encontrado assim, de repente. Agora ela percebia quem ele era de verdade. Será que depois daquela noite, será que depois daquele tempo, daquelas mudanças, daquela vida vivida, ele ainda seria o mesmo? Não sabia o que seria deles dali pra frente.
Mas sabia que aquele era o homem que ela finalmente queria. Que era tão especial e singular como toda a pessoa nesse mundo é. Que tem seus defeitos como todos e qualquer pessoa tem. Mas foi ele que seu amor escolheu para amar. Ela o escolheu.
Ele era a sua alma-gêmea. E a cada novo dia, só por hoje e todo dia, ela o escolhe mais uma vez.

texto escrito por mim, Marcos Siqueira.

Tuesday, October 17, 2006

minha pena.

E então lá estava eu. Sentenciado. Eu que naquela tarde azul-dourada de recomeço tinha voltado para casa meio macambúzio. Me perguntava o que é que faltava acontecer agora. Depois de tantas mudanças em tão pouco tempo, depois de já ter passado por tudo o que eu já tinha passado, me perguntava: e agora? Sentia como se tivesse me perdido na trilha do mato no meio de uma planície descampada. Numa bússola com meu norte, minha sorte e minha morte. Afinal, desde que eu era menino eu já sabia que cada dia a mais também é um dia a menos. E vivi até ali. Aos trancos e barrancos, tomando todas as porradas que tomei, sendo quem eu sempre fui. Aprendendo a viver melhor, a sorrir, a não perder a paciência facilmente e a não me levar
tão a sério.
Então, estava eu voltando pra casa no fim de tarde, com o céu claro ainda. Pensava: esse é o primeiro dia do resto da minha vida. Então, fui descendo a rua, devagar e fui sentindo o coração apertar cada vez mais. Então cheguei em casa e vi o sol descer atrás dos morros. As idéias sopravam com a chuva e ventania dentro da minha cabeça.
E então eu ouvi a sentença. Recebi minha pena.
Minha pena. Não pena de dó. Nem de quem vai para o cárcere.
Eu soube que seria escritor.
Isso era não menos que uma prisão e não mais que a liberdade. Refém dos meus pensamentos, do vento, dos anjos e demônios. Livre de toda a censura e hipocrisia. Livre de todas as formas claras e obscuras de poder.
Pronto para mais um dia da vida eterna.

texto escrito por mim, Marcos Siqueira.

Friday, October 13, 2006

lá de cima. lá da beira da piscina.

Até que tenho escrito algumas coisas esses dias. Mas fica tudo lá em cima. Lá em casa.
Ainda não tenho nem internet, nem telefone e nem TV a cabo... Aqui no Rio tem um pacote da NET chamado "combo", que disseram que vem com as três coisas por cem reais mensais. É uma... Vou ver isso essa semana. Agora, neste momento, estou aqui numa Lan House do centro da cidade, perto da estação de metrô e do largo da Carioca, onde fica o prédio do Citibank (lá é que eu estava tendo as aulas da Universidade Petrobras) e também o edifício sede da Petrobras - o EDISE. Já estava com uns créditos por aqui e, por acaso, peguei uma ponga no bonde, e aqui estou eu. Lembrei de escrever alguma coisa aqui pro blog.
Nesse feriado, e nos últimos três fins de semana, o céu continua nublado (durante a semana é um solzão punk... sacanagem... ). Ontem até que deu pra pegar uma praia meia boca lá no posto 9 com Pereira e uma galera da turma dos novos de engenharia.
No mais tenho curtido muito minha casa nova. Tá ficando tudo arrumado, bonito. Tá massa!
As cores dos pratos, copos, talheres e louça. Tudo combinando. Cores. Verde e laranja.
Azul e amarelo. Já comprei de jogo de panela a tapete e pano de mesa. Só falta agora um sofá. Só.
Até que não me sai mal cozinhando. O canal é fazer massas! Fácil! É só comprar molhos e temperos. Aí depois é só assar um desses peitos de frango da Sadia e abrir um vinho. Savoir!
Então, acordo eu hoje ao meio dia e ligo o boyler pra tomar meu banho de jacuzzi. Pela janela do banheiro deu pra ver que a mangueira hoje não estava tão dourada como nos dias de sol. Então curti meu banho, comi alguma coisa e fui fazer minha faxina. Depois toquei um pouco de violão, li uma revistinha do Asterix e fui dar minha corrida nas ladeiras de Santa Teresa.
Tô ficando empolgado mesmo com essa idéia de fazer corrida de aventura. Não parece assim tão difícil quando você desce morro abaixo, pulando de pedra em pedra, descendo em paralepípedos e trilhos de bondes, desviando de árvores e rochedos, por uns 5 quilômetros. Desci até o Catete hoje.Depois subi tudo de novo.
Aí então, por acaso, o bondinho estava ali no largo do Guimarães, ponguei e desci aqui até a Carioca. Essa ponga as vezes dá medo. Principalmente quando o bondinho passa por cima dos arcos da lapa (é quase uma ponte, um aqueduto romano, com uns 100 metros de altura) e meus pés, no estribo do bondinho, passam raspando pela cumieira de cimento dos arcos. Coisa de 3 a 5 centímetros. Rock´n Roll!!! Uhu!
Então é isso! Aproveito para dizer que estou com saudades de todos e que minha casa já está a disposição. São dois quartos. E estou à procura de um companheiro pra dividir o espaço comigo. Talvez um fox paulistinha, um beagle ou um basset, ou mesmo um vira lata esperto... Algum que se pareça comigo! Hehehehe! Quem sabe minha próxima visita já conheça meu novo amigo!?
Bom vou aproveitar minha vinda aqui no centro e comprar um outro jogo de roupa de cama e toalhas. Só comprei uma roupa de cama e uma toalha. E tem que lavar, né!?

texto escrito por mim, Marcos Siqueira.

Wednesday, October 04, 2006

o rodo cotidiano

Esses dias tenho andado com mil textos na cabeça e mais outras 2 mil coisas não textuais e um pouco mais prosaicas passeando também por ali.
Enfim, está tudo se arrumando e se ajeitando.
O velho e bom professor Pereira chegou na segunda-feira de noite! Fui buscá-lo no Galeão (ou aeroporto maestro Tom Jobim) com o carro de Rick emprestado. Levei ele pra uma volta pela zona sul também. Acho que ele ficou meio azuado com o excesso de informação, mas já se acostumando. Nos próximos dias ele vai saber onde vai ficar alocado.
Eu também já estou me assentando. Aluguei um bonito apartamento no bairro de Santa Teresa, o último bairro do Rio de Janeiro que ainda tem bondinho. O lugar é muito bonito, arborizado, com casas mais antigas, com eira, beira e rococós. Lá moram muitos artistas e estrangeiros. E, de duas janelas, todo dia de manhã o Cristo vai poder me dar bom-dia. Tô contente! E também no corre-corre para ajeitar essas coisas todas de documentos e etecetera...
Então, quando eu chegar ai em Salvador, quem quiser me dar umas coisas pra a casa nova, tá valendo!
Em breve vou escrever umas coisas aqui. As idéias não param. Mas eu preciso de um tempo pra parar... Pedi pra parar!

Tuesday, September 26, 2006

à palo seco



Se você vier me perguntar por onde andei
No tempo em que você sonhava
De olhos abertos lhe direi
Amigo eu me desesperava

Sei que assim falando pensas
Que esse desespero é moda em 76
Eu ando um pouco descontente
Desesperadamente eu canto em português
Mas ando mesmo descontente
Desesperadamente eu grito em português

Tenho 25 anos de sonho e de sangue
E de América do Sul
Mas por força do meu destino
Um tango argentino
Me cai bem melhor que o blues

Sei que assim falando pensas
Que esse desespero é moda em 76
Eu quero é que esse canto torto feito faca
Corte a carne de vocês
Eu quero é que esse canto torto feito faca
Corte a carne de vocês

ilustração feita por mim, Marcos Siqueira.
música de Belchior.

Monday, September 25, 2006

os pirata...

Visitem o blog do meu broder-irmão Paulinho. Vale a pena!
http://www.ascriacoes.com.br/blog

Sunday, September 24, 2006

palavra quando acesa não queima em vão

Dizem que depois das paixões fica o amor.
Que depois das tempestades, vem a calmaria.
Que quando passa a empolgação, vê-se as coisas com razão.
Às vezes a razão. Às vezes.
É quando a loucura dorme, a agonia descansa, o pensamento aquieta
e a vida acena com outras possibilidades.
A sanidade retorna, a realidade se reapresenta:
lua é lua, noite é noite, gente é gente e palavras são só palavras.
E nem todas elas são boas.

texto escrito por mim, Marcos Siqueira.

Saturday, September 23, 2006

no balanço das horas tudo pode mudar


ao tempo tudo se condensa, em poucos segundos.
como uma tempestade num lago, num aquário. num copo d´água.
todo o tempo da história. da agrafia. dos mouros. do espaço e do
universo. tudo em minhas mãos. meu reino num grão de mostarda.
que flua o tempo. que corra o rio. derretam-se as calotas polares.
abre-te sésamo!
os sinos dobram. os ponteiros giram no ventilador. a vida segue.
e o tempo, o tempo sempre parece parar.

texto escrito por mim, Marcos Siqueira.
"The Persistence of Memory": óleo sobre tela de Salvador Dalí, 1931.


Tuesday, September 19, 2006

o vírus do homem-vírus

virou ao avesso e dobrou a curva da incubação.
fugiu à boa esperança.
pululou no rosto de medo dos índios. não homens?
não vírus. de morte morrida:
aos jovens. de morte matada:
aos velhos, aos fetos e às bestas.

vírus dos tempos de pestes, pragas e guerras.
resistiu. mutou. evoluiu. aculturou. globalizou.
morreu nos cadáveres e transpirou aos céus.
ao ar. e choveu na terceira vida.
em nós, vírus com muitos homens dentro.

espirraremos nas caras.
ejacularemos nos peitos.
disseminaremos o mal.
cuspiremos seu nome.

texto escrito por mim, Marcos Siqueira.

Monday, September 18, 2006

a canção de amor do homem-tocha

Na semana passada estive ouvindo bastante "O Descobrimento do Brasil".
Para mim é o melhor album da Legião dentro de um conceito próprio de album. As músicas, em ordem, giram em torno de uma certa lei. Quase uma ópera, para quem quiser ver.
A crítica às mazelas da política do país estão muito evidentes. E não são berros descabidos. É crítica inteligente, contudente e de classe. Isso além das melodias simples e mais maduras da Legião em 1993, ressaqueada do porre Collor.
As músicas onde isso fica mais claro são "Perfeição" (que tem aquela linda mudança de estação: "venha, meu coração está com pressa, quando a esperança está dispersa...") e "A Fonte".
Vale a pena escutar para pensar um pouco no freak show de todo dia do horário eleitoral.
Fiz essa ilustração pensando em "A Fonte", com aquela melodia de teclados bem marcada na cabeça. Tem a ver principalmente com os últimos versos.
Nem toda canção de amor é para uma só pessoa.
Às vezes é para 170 milhões.

A Fonte
Legião Urbana

O que há de errado comigo? / Não consigo encontrar abrigo / Meu país é campo inimigo e você finge que vê, mas não vê /
Lave suas mãos porque é à sua porta que irão bater / Mas antes você verá seus pequenos filhos trazendo novidades /
Quantas crianças foram mortas dessa vez? / Não faça com os outros o que você não quer que seja feito com você. / Você finge não ver e isso da câncer /
Não sei mais do que sou capaz / Esperança, seus lençóis têm cheiro de doença / e veja que da fonte sou os quilômetros adiante / Celebro todo dia minha vida e meus amigos / Eu acredito em mim e continuo limpo /
Você acha que sabe mas não vê que a maldade é prejuízo / O que há de errado comigo? / Eu não sei nada e continuo limpo /
Do lado do cipreste branco / à esquerda da entrada do inferno, / está a fonte do esquecimento / Vou mais além, não bebo dessa água / Chego ao lago da memória / Que tem água pura e fresca / E digo aos guardiões da entrada, sou filho da Terra e do Céu / Daí-me de beber que tenho uma sede sem fim / Olhe nos meus olhos, sou o homem-tocha /
Me tira essa vergonha, / Me liberta dessa culpa, / Me arranca esse ódio /Me livra desse medo /
Olhe nos meus olhos, sou o homem-tocha / e esta é uma canção de amor / e esta é uma canção de amor / e esta é uma canção de amor.

texto e ilustração feitos por mim, Marcos Siqueira.

o tempo das flores

Você não atende.
Nem entende.
E a chuva nunca para de cantar.

Prende entre os dentes a primavera.
Rolando águas salgadas, sagradas,
debaixo do sonho profundo.

Te brotando,
enraizando,
culminando.

E você não atende.
Ainda é inverno
e toda flor tem seu tempo.

texto escrito por mim, Marcos Siqueira.

Friday, September 15, 2006

Falling, yes I am falling and she keeps calling me back again...



Esse é uma música dos Beatles que entrou no HELP assim, por acaso.
Era 1965 e los cuatro amigos tinham ganhado a América. Isso foi um
pouco antes de John Lennon ter ficado mais famoso que Jesus e de ter
começado a querer parecer com ele. Peace and Love, John! You know
that sometimes, hapiness is a warm gun. E John não chegou a ficar tão
famoso quanto Jesus. Por um pouquinho... John gurudev ohm shanti...
Mas isso é outro assunto... Então, em 1965, os Beatles ganhavam as paradas
dos E.U.A. E adivinhem com que música? HELP me... Não! Drive My Car? Não.
Com uma música country com banjos e falsetes de John, a segunda voz
da dupla sertaneja Jãozinho & Pôu Macarrrrrti. Puro Folk!
Essa foi a manha da Capitol (a gravadora texana dos Beatles nos E.U.A)
para dar um twist and shout.
E os investimentos eram pesados. Era beatlemania na veia.
Foram feitos filmes de cinema, os primeiros videoclipes da história e até
um desenho animado. Por acaso encontrei ele no Youtube.
É uma historinha bem engraçada em que Ringo, todo sequelado,
se apaixona pela própria imagem.
É bem a cara de novas paixões que se aproximam com a primavera
no" trem do meu jovem coração" (veja lá embaixo "esperando o
trem passar"). Então vamo fazer o som da estação!
Hehehehheheh! Quanto rima furada... Beleza de Creuza!
Hoje de manhã peguei uma praia com um sol lindo em Icaraí e
dei uma boa corrida. Aos pouquinhos tô me recuperando da cirurgia.
E não é que andei de novo sentindo as dores de paixão?
Ando sentindo uma saudade... Uma vontade de ver e comprar aquele
fusquinha amarelo mango 1973, com aros brancos nos pneus, pintura
impecável que me contou que o nome dele é FIRE, que nem o da
música de Jimmi Hendrix.
Então um clipe bem legal, com desenho animado dos Beatles e tudo
para essa alegria solar! Falling, yes I am falling and she keeps calling
me back again ...

http://www.youtube.com/watch?v=aC7UFbdRg_0
(assista até o final. Vale a pena!)

I've Just Seen a Face
The Beatles


I've just seen a face I can't forget
The time or place where we just met
She's just the girl for me and I want
All the world to see we've met
Uh uh uh uh uh uh

Had it been another day
I might have looked the other way and
I'd have never been aware
But as it is I'll dream of her tonight
Da da da da da da

Refrão:
Falling yes I am falling and she keeps calling me back again

I have never known the likes of this
I've been alone and I have
Missed things and kept out of sight
For other girls we're never quite like this
Da da da da da da

Falling yes I am falling and she keeps calling me back again
Falling yes I am falling and she keeps calling me back again

I've just seen a face I can't forget
The time or place where we just met
She's just the girl for me and I want
All the world to see we've met
Uh uh uh na na na

Falling yes I am falling and she keeps calling me back again
Falling yes I am falling and she keeps calling me back again
Falling yes I am falling and she keeps calling me back again

texto escrito por mim, Marcos Siqueira.

Thursday, September 14, 2006

continuam apagando estrelas

vejo cada vez mais gente no chão e menos estrelas no céu.
ouço vozes demais numa psicodelia ensurdecedora, daquelas de deixar a gente tonto, fechando e abrindo os ouvidos ao "quá-quá-quá" desesperado. é muito barulho calando o silencioso
som do universo.
é a lei da selva devorando o povo. a lei da demanda e oferta. o mundo do deus mercado. monstro sisti retado, doido pra transar comigo. quanto menos, vale mais.
e a gente vai ficando cada vez mais valendo menos.

texto escrito por mim, Marcos Siqueira.

Tuesday, September 12, 2006

apagando as estrelas


O tema até que serviria pra poesia. Mas já anda passeando no juízo tem tanto tempo, que é melhor arrumar as coisas de outro jeito. Arrumar, pelo menos na minha cabeça. Pra mim.
Porque a ordem natural (nem tão natural) das coisas não permite arrumação. Ah! Isso não!
E já que o mundo não será como eu quero ver, vou tentar mudar meu jeito de ver pra ele então ser. E não to falando em botar lentes cor-de-rosa ou cabelo em casca de ovo. É como eu já ouvi alguém sabido dizer que a realidade é que nem um copo com água pela metade. O otimista vai dizer que é um copo meio cheio. O pessimista que é meio vazio. E o copo não é nem meio cheio nem meio vazio. O copo é copo. Com água pela metade e pronto!
Mas será que existe mesmo um copo? Ou seria só um fenômeno de física quântica no qual a ocorrência do copo só calhou de acontecer porque tinha um observador qualquer querendo ver um copo. Só um copo. Nem meio cheio, nem meio vazio.
Então, vou brincar de Deus e criar a minha realidade. Quântica... mas minha!
E no primeiro dia eu disse faça-se Caetano Veloso. Como diria o próprio catita: há seis mil anos Deus perde tempo fazendo flores e estrelas... E entre o céu e a terra, não nessa ordem necessariamente, eis que em algum momento surge o homem que tem vivido seis mil anos fazendo guerras e asneiras.
Então Caetano, solitário, juntaria as mãozinhas e com todo aquele jeitinho choramingaria: “ó mô pain ... a bahia é linda, o rio de janeiro continua lindo e paulinha ... vixe, paulinha... xô! Ô pain, mande ai uma mulé!” Ai então, eu tiraria um pedaço dos caracóis dos seus cabelos e criaria o sexo feminino. Por falar nisso outro dia me intriguei com uma questão num desses e-mails-de-quem-fica-mandando-trinta-e-mails-de-piada-por-dia ... Dizia: qual é o lugar onde as mulheres têm o cabelo mais enrolado?” Bem, desenrolando as coisas, dizem que o verdadeiro Éden era na África... Hum! DNA retado esse de catita, ou não!? Mas essa mulher “nas duas faces de eva, a bela e a fera, um certo sorriso de quem nada quer”, teria sofrido alterações a partir das clivagens do zigoto caetânico em função de barbitúricos usados com os Mutantes, Gil e Rogério Duprat nas gravações da Tropicália. Então, nosso catita, quase feliz pra sempre, cantaria às merdópoles modernas: “ainda não havia para mim Rita Lee, a tua mais completa tradução...”
Será que quando a primeira roqueira mulher abrisse seu sorriso de quem nada quer, ao nosso meloso catita, também abriria a caixa de pandora? E nosso catita (eva e adão, foneticamente) correria para o violão num lamento numa manhã nascendo azul, depois que a caixa de pandora e outras coisas foram abertas na segunda noite da criação. Ele olharia para as estrelas (afinal, EU, o todo poderoso deste meu mundo autista, já perdi seis mil anos nessa história...) e, choramingando profeticamente, balbuciaria seu medo da feia fumaça que sobe apagando as estrelas. Ê rapaz... parece que esse negócio de fumaça foi Rita Lee quem inventou na terceira noite de criação, deixando catita muito doido.
Essa história é muito doida mesmo. Pense ai! A gente tá apagando as estrelas. E é todo dia. Ninguém nunca soube falar esperanto. And we won´t. Mas olhar estrelas... Isso é desde o Egito, antes até, passando inclusive pelos maias, astecas e nazcas. E esquecemos tudo! E se nós somos deuses quânticos, criadores da nossa realidade, meu Deus! Apagamos as estrelas.
As estrelas agoras são as luzinhas dos morros, placas de botequim de néon, postes de sódio e celebridades da mírdia. Que mírdia... Nossos padrões, criados por observadores quânticos da nossa realidade, por trás de people metters e institutos de pesquisa, fizeram de cada um de nós universos apagados de estrelas. Buracos negros. As estrelas estão lá fora. Mas só vê quem tem elas dentro de si, quem tem a utopia de estrela, pode vê-las. Quem olhou fora da caverna, viu que as estrelas lá fora não são o novo modelo de celular nem a linda barriguinha sarada. As estrelas são muito mais que isso. E nós também somos estrelas. Pelo menos EU (ainda sou o todo poderoso aqui!) fiz o homem para brilhar. E ver estrelas. Da Vinci sabia disso.
Mas não esqueci de catita e nem ele esqueceu Rita Lee. O cara tá devagar demais. “Gente é pra brilhar...” Ih! Emendou “... minha paixão há de brilhar na noite, no céu de uma cidade do interior.”
Como um objeto não identificado. É assim que as pessoas que buscam estrelas lá fora tratam uns aos outros nas grandes cidades. Estão todos esquecendo de ver as estrelas de dentro, e ao lado, em casa, na cara da mãe, do pai, do amigo. É muita gente. É muita cidade. Muita poluição. Muita luz elétrica. E menos estrelas.
Apagaram as estrelas na cidade maravilhosa e lá na cidade luz... Que chato!
Agora, falando sério, já que ainda tenho mais uns quatro dias para criar o universo, vou pegar o MP3 player cheio de MPB e vou à praia, porque daqui a seis mil anos o Pão-de-Açucar e outras montanhas vão dissolver e a Baía de Guanabara vai pegar fogo pra eu comer peixe frito. E, afinal, de dia não tem estrelas. Aliás, não faltam estrelas. É que elas ficam apagadas. Mas isso ai já é culpa do astro-rei.
Não. Sai daí! Que Roberto Carlos que porra nenhuma...

escrito por mim, Marcos Siqueira.

Monday, September 11, 2006

para o alto e avante

"Viver é simpleste um grande balão. Voar no céu azul é a missão."

Gilberto Gil.

Saturday, September 09, 2006

esperando o trem passar


eu aqui sentado em minha mala. numa estação. esperando o trem passar.
eu que sempre pego o bonde andando, tenho que esperar. pra não pegar
o bonde errado. o vapor barato. fumaça sem trem que não tem.

trem não tem mais. tem eu. e minha mala. pequena
pra tantos sonhos e planos. grande
pra um rapaz-latino-americano-vindo-do-interior.

meu interior. eu e meu querer-bem por todas as coisas e criaturas
desse mundo de meu Deus. tantos rostos, tantos nomes e histórias
passadas e mal-passadas, algumas até hoje sangrando, às vezes,
de vez em quando, cada vez menos. cicatrizando comigo e minha ferida
que me fez parar, esperando o trem. meu amor, meu coração.

como quando minha mãe me embalava cantando abacateiro, eu
o significado da palavra temporão
no meu tempo, meu dia, meu momento
de pegar o trem. não andando. na curva da estrada
da vida. eu e meu coração mais maduro, mais seguro,
e ainda jovem. ainda rindo e chorando, pulsando,
comtemplando, ali, sentado na mala, o milagre da vida.

eu e minha mala na estação. a manhã anunciando um dia dourado
desses que acabam numa tarde com um pôr do sol embriagado de lume,
quando toca a ave maria e eu me lembro do meu jovem coração.

fazendo rendas e aprendendo a namorar.
olhando as rodas, as engrenagens, o trem
e as trilhas da vida. sonoras e virgens,
no meio do matagal do mistério.
trilhas e trilhos. encontros no vagão.
vou seguindo a vida, de encontros e depedidas.
uns partem, outros ficam. e eu vou subindo.

eu aqui. sentado na mala da minha história.
eu aqui, com meu abacateiro, em tempo de estio e colheita.
eu aqui, com todo esse horizonte à minha frente, meu Deus, quanta gente,
quanta música, quantos poemas, bichos e mar, quanta floresta
quanta beleza... e eu. eu e meu jovem coração,
aqui, sozinho, esperando na estação.

texto escrito por mim, Marcos Siqueira.


* trilha sonora indicada nas sete cores astrais:

1. "Brandy" - Red Hot Chili Peppers. (ver)
2. "Smile" - Charles Chaplin. (ver)
3. "O passeio da boa vista" - Legião Urbana.
4. "Refazenda" - Gilberto Gil.
5. "Trenzinho caipira" - Heitor Villa-Lobos.
6. "Canto de Ossanha" - Baden Powell e Vinícius de Moraes (int. Elis Regina). (ver)
7. "Bachiana n. 5" - Bydú Sayão.

eu

sou o vento
sou o tempo
o coração ao sorriso e lágrima
da canção, a fé, inspiração
o sopro no barro, o sim e o não
filho do homem, adão, sou você,
seu marido, pai e irmão

sou sangue correndo avenidas
um rosto na turba
que quis chorar escondido
ao gosto amargo, bebeu
e riu de nada e falou ao calar
ouviu sem escutar
errou, começou e ficou por terminar
aprendendo em partir ao pulsar

meu pai é sol e minha mãe água
nasci do gozo, toque do alto,
do amor incendeia, me eleva a alma
balão, brinquedo junino
de nordestino que dança baião
a terra é minha sina
um dia me planto, semente
colho, broto em folha em fruta
e vôo de beija-flor dizendo
bem-te-vi ao amor zen
num beijo à boca cajuína

sou muitos
sou pouco
sou o vento

Friday, September 08, 2006

os escafandristas virão?

"Men are haunted by the vastness of eternity, and so, we ask ourselves: Will our actions echo across the centuries...? Will strangers hear our names long after we are gone... e wonder who we were... how bravely we fought... how fiercely we loved...?"

Homero (tirado do blog de Patinho*)
* com a autorização do supracitado,
não Homero, Patinho.

Thursday, September 07, 2006

minguante

Onde está você? Em que cidade você mora?
Quando você veio? Ou já foi embora?
Ou virá? Assim, entardecendo... virá

chegando, dissolvendo e ajuntando tudo,
revolvendo tudo embaixo do leito, do peito,
com as águas barrentas do rio caudaloso
que vai desaguar no mar, desaguar o mar.

Amar as estrelas num som... bom... ohm
nós na sua órbita comigo sem abrigo, correndo
da fera. Venha amigo, te ouvi dizer, vamos
derreter a atmosfera e seremos, no fim, um.

Onde está você? Em que luar você se esconde?
Em que quarto você está? Sob o mesmo sol apagar?
Como vou te encontrar? A luz dos olhos a minguar...

Mingua, Ana, tua natureza divina
que em sua língua eu te chamava.
Se veio, não soube, nem hei,
do anjo que me deu um copo d´água.
Paciência...

texto escrito por mim, Marcos Siqueira.

céu de Maria

lá de cima dava pra ver
quando eu lembrava
quando eu sabia

lá de cima era dia
que eu sabia todo dia
que de tarde eu havia

de saber não ser
ou ter que morrer um dia,
como não sabia

e o vento ia, o azul
fluia e a ave maria
voando eu ouvia

mãezinha do céu,
lá de cima, a poesia
há poesia quando eu sabia

sabia rezar
o azul do teu manto
branco o teu véu

sabia dizer
que quero te amar
dizer te amar

mãezinha, eu quero te ver
lá no céu
te ver lá no céu

texto escrito por mim, Marcos Siqueira.

areia de ampulheta

essa noite apagaram as estrelas
e a lua desceu atrás das montanhas.
nem o vento soprou, nem o cão uivou.
o amor, em todos corações, vazou.

a areia acre da ampulheta tomou peso
e o vidro do tempo trincou.
o mar se fez de céu e os peixes choraram.
milagre dos peixes. chovendo paz sobre as cabeças.

de manhã o galo repicou e a lua voltou.
mas como apagaram estrelas, se estrelas mais não há?
quanto tempo escorreu ao rachar?

o vazio das cidades encheu o sertão
a secura da noite no desertou bebeu
a lágrima. e subiram os créditos do fim.

texto escrito por mim, Marcos Siqueira.

grito na multidão

um grito na multidão
que ninguém ouviu,
ou que nunca saiu.
surdo na solidão.

um grito na solidão.
um pedido de socorro.
um furo no peito, morre
chorando a imensidão.

um grito na imensidão.
um pranto abafado na solidão.
uma mão pedinte na multidão.

um grito rasga o coração.
dói na multidão
alguém gritar de solidão.

texto escrito por mim, Marcos Siqueira.

gira sós

Quero te ver num dia bonito. Na primeira manhã dessa primavera.
Você vai brotar numa melodia que preenche o ar. Tudo vai se encaixar.
Perfeitamente harmônico. O cheiro do seu amor vai me abraçar e nos seus
olhos pretos e grandes você vai me deixar entrar. Penetrando sua alma
devagar. Te beijando, a vagar, os cabelos. Passando as costas da mão no
macio do seu sorriso. Meu nariz vai te emprestar o perfume que eu roubei
nos jardins de ontem.
Quatorze rosas roubadas para você sentir, com os meus arabescos de rosas
do vento. Que não são rosas. Azúis. Ou talvez nem sejam flores. E nem eu
morra de amores.
Nem de paixão. Ai de repente, como chumbo no céu, urubus. Em espiral. Voando
a tarde inteira entre os girassóis, e murchas rosas de ontem. Urubus.
Em espiral. Pergunto: ó céus, isso é real?
Ou ilusão, assustada de acordar de sonho vão nos lençois? Sós.
Passeando a tarde inteira entre os girassóis.

texto escrito por mim, Marcos Siqueira.

o núcleo

e a fissão nuclear aconteceu
dentro das minhas células. autofagia.

a fome do coração comeu as carnes
da minha cara. solidão.

andei nas ruas dormentes, grogue,
das minhas veias. anestesia.

cerrei os olhos e trinquei os dentes
quebrados nas britas de construção.
a máquina triturou o bravo
senhor do castelo da complicação.

então, o dragão carbonizou o guerreiro
a pó. varreu ao vento os restos.
solto no espaço vazio, pulsou
e voltou. e a fusão nuclear aconteceu.

texto escrito por mim, Marcos Siqueira.