Thursday, January 24, 2008

Monday, January 21, 2008

Segundas intenções para terceiros.

por Marcos Siqueira

As Farc são classificadas como um grupo terrorista pelos governos da Colômbia, Estados Unidos e União Européia.

Na semana passada a Casa Branca reforçou na OEA sua decisão de manter as Farc na lista de grupos terroristas.

Na mesma semana, em pleno auge das declarações do conflito diplomático entre Colômbia e Venezuela, Hugo Chávez disse estar sendo ameaçado de morte pelo governo norte-americano e colombiano.

Há muitos anos, quando Fidel dizia que estava sendo ameaçado de morte, também era tudo bobagem, maluquice e demagogia...Recentemente, com a divulgação de arquivos da CIA, foi provada a veracidade da fala do cubano e muitos dos planos esquizofrênicos do governo norte-americano agora já não podem mais ser considerados mitos...

Em "As Veias Abertas da América Latina" Eduardo Galeano nos mostra como nossa história se repete em ciclos há séculos.

Evo “Imorales”, ex-plantador de coca e primeiro presidente indígena da Bolívia, diz que sua nova Constituição vai ajudar a compensar os séculos de dominação da elite branca. Vem, naturalmente, enfrentando cada vez mais resistência por parte dos governadores das províncias ricas do país, que por sua vez estão altamente associadas às forças armadas. Estas, por sua parte, estão associadas a regimes ainda mais fortes. No caso, a Bolívia é vassala da Venezuela.

Mas e no caso da Colômbia? Seriam os Estados Unidos? A União Européia?Quem intermediará esse conflito? A ONU, com seus pareceres fundados em "laudos" alimentados pela CIA? A rede de inteligência - ou seria esperteza? - hoje culpa a Al-Qaeda ( que nos anos 80 eram os heróis, “os cavaleiros do deserto” que combatiam os soviéticos em Rambo III ) e aliados de um líder tribal paquistanês pelo assassinato de Benazir Bhutto. Afinal com o preço internacional do barril de petróleo batendo picos de U$ 100 é preciso mesmo abrir novas frentes de negócio...

Grande parte dos colombianos temem as Farc, muitos destes por terem parentes sequestrados pela organização ou simplesmente por considerá-la um perigoso "grupo terrorista". A menção do fato proporciona estabilidade e uma certa popularidade ao presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, que usa e abusa da política de combate à guerrilha. Qualquer semelhança com a popularidade obtida por Bush depois do nine eleven não terá sido mera coincidência.

Nesta semana, Uribe esteve na França para pedir apoio ao presidente ex-militar Sarkozy para o combate ao “terrorismo”.

Assim não parece tão absurdo quando o nosso histriônico Hugo Chávez abre a boca cavalar dizendo que "... lo mayor terrorista del mondo se llama Zorze Dóbliu Bussi..."

A realidade dentro dos feudos das Farc é ainda mais dura. Além da grande população mantida há anos como refém, estima-se que cerca de 20% dos combatentes tenham menos de 21 anos. Mais ou menos 3.500 combatentes adolescentes.

Por que começar a vida na guerrilha e bem no meio da selva?Uma escolha ou uma contingência? O que isso tem em comum com o problema daqui do Rio de Janeiro? Ou Angola? Ou Afeganistão, Paquistão, Timor-Leste...

E Israel? Onde Bush, um dos seus maiores aliados, enfim pisou como presidente?
O maior giro do Buschinho pelo Oriente Médio incluiu seis países e os territórios palestinos. Debaixo do braço, um plano de paz para israelenses e palestinos. Uma oportunidade de limpar o nome para entrar para a História?

Não mesmo! Nem pensar!
A viagem virou piada por todos os EUA e em vários outros países. As gracinhas refletem o jeito Bush de ser. Gafes, situações constrangedoras e inusitadas (como ficar brincando de cavaleiro Jedi com a espada dos emires) e um certo olhar vesgo e idiota de "o que estou fazendo aqui mesmo?".

E se ele sequer sabe o que está fazendo em Israel, como saberá o que está sendo feito dentro das fronteiras mais vigiadas do mundo? Os belos e concretos muros de Roma permanecem espreitados pelos bárbaros do terceiro mundo. Os terceiros.

Lá dentro as pesquisas têm demonstrado uma ampla frente de preferência pelos democratas Hillary Clinton e Barack Obama.Duas opções. Uma mulher que além de ser uma buarquiana mulher de Atenas, declare-se herdeira intelectual de Simone Beauvoir.O outro, Obama (sem trocadilhos com Osama ) um bonachão no estilo Clinton de ser, não toca o saxofone, mas tira uns grooves no baixo.

Por que será que eles são mais populares? Talvez o público pós protocolo de Kyoto rejeite os republicanos. Num vídeo que circula pelo youtube, o candidato republicano Mike Huckabee compara a prática homossexual à bestialidade...

Também a recessão de lá parece que não veio para brincar. "Quem casa quer casa", já dizia minha avó. E no final da história quem levou o calote foram os banqueiros americanos. De onde é que eles vão tirar esse prejuízo? Que tal de um lugar muito grande, com muita mata, muita água e bem barato?

E enquanto isso, no terceiro mundo...

Hoje, na Amazônia, a posse de terras é dos grileiros. Cerca de 90% dos desmatamentos é feito por grileiros... Os corte de madeiras ilegais, as toras que descem, ou sobem rios, atravessando fronteiras d´além mar guardam surdos segredos a respeito dos seus compradores. E para combater esse mal, a cada dia criam-se novas ONGs internacionais de responsabilidade sócio-ambiental cheias de boas intenções que não param de estudar as plantas e os insetos para o "bem da humanidade".

Quando o presidente Lula criou um ministério de Ações de Longo Prazo, ninguém levou muito a sério. Mas o estabanado ministro Mangabeira Unger está se mostrando muito empertigado na função e, também na fatídica semana passada falou sobre a elaboração do Plano Estratégico Nacional de Defesa e da sua proposta para promover o desenvolvimento econômico da Amazônia. Com idéias dos anos 70 - nada em comum com a América Latina dos caudilhos - Unger pretende salvar a Amazônia com a atividade de mineração - seria outra Serra Pelada? - e pecuária para subsistência familiar. A pecuária em grande escala é apontada por ele como um dos maiores vilões da floresta. Sério? Que descoberta!

No Pará, com uma comitiva de 40 pessoas, lembrando a excursão de férias promovida por deputados amazonenses para um "estudo de viabilidade econômica" de exploração turística do rio Negro, Unger reiterou que o governo está comprometido com a "reafirmação inequívoca da soberania brasileira na Amazônia". Segundo ele, além de despertar a atenção e a pressão mundial, a Amazônia deve ser encarada como um laboratório para que o país desenvolva estratégias inéditas de desenvolvimento.

Talvez um grande e inédito laboratório seja transpor as águas da bacia amazônica para a região do semi-árido, salvando o rio São Francisco, como deseja o nosso ministro de Ações de Longo Prazo...

Para não sermos a bola da vez do terrorista "Zórze Dóbliu Bussi" precisamos abolir duas idéias muito erradas a respeito da Amazônia. A primeira é mantê-la como um parque, uma disneilândia de terceiro mundo com ingressos promocionais para a humanidade. A segunda é permitir sua exploração indiscriminada. ONGs, ONU, CIA e NASA poderão nos salvar da obtusidade?

E cá estamos nós. Brasil. Bola da vez ou possível alvo? Sujeitos às crises da bolsa e do bolso. Nós, o motivo da "crise diplomática" entre Colômbia e Venezuela, na mira das bombas vesgas do "Bussi".
E agora? Quem poderá nos salvar?
O Chapolim Colorado ou o Chavéz?

bens de consumo.



Que bem será que isso faz?


"Nós sofremos porque o nosso querer particular entra em choque com o querer do mundo. "


Arthur Schopenhauer.

Tuesday, January 08, 2008

cárcere do tempo.

Dentro de uma prisão toda e qualquer aflição torna-se urgente.
Urgente como cada momento em que alguém morre.
Morre alguém a cada momento.
E também nasce.

No cárcere das horas, o tempo escorre devagar como um líquido denso.
Um mel adstringente, contaminado de fel, vertido por um cantil de bico muito fino.
Mais difícil do que um camelo passar pela ponta de uma agulha. Ou tão óbvio quanto um rico que não entra nos reinos dos céus. Porque lá já está.

Tempo sobre tempo. No tilintar das moedas acumuladas.

Num escritório, com a cabeça apoiada sobre os braços cruzados na mesa, dá pra ouvir.
Toda a eletricidade que nos rodeia em monitores, teclados e ar-condicionados .
O imenso campo de força magnético do tempo e do espaço.
Os elétrons e o tempo não param. E vêm de longe. Lá dos confins do além.
Uma casa de força central e poderosa que nos prende e nos curva às suas leis da física e continuidade.

Um rompimento na barreira faz-se necessário.

Thursday, January 03, 2008

Na Bahia nada se perde. Tudo se transforma.

Nesse fim de 2007, lá em Salvador, num domingo de sol, quando estava indo pro caruru de aniversário de Gustavo, fiz uma contra-mão lá na Barra e Canela pra buscar Pedro e Graciano.
Na volta pra a Pituba, Pedrão veio contando que foi dar uma corrida de manhã e passando pela praia internacional do Porto da Barra viu uma cena pra fechar o ano e resumir o espírito de mais pura baianidade. Disse que tinha cruzado com um guardador de carros olhando pro chão e resmungando:
- Pórra, véi! Tá foda! Tem uma cara que eu não encontro nada. Não encontro porra nenhuma nesse chão... Tá foda! Nenhum objeto... Nem uma moeda...

O incrível é que, de verdade, isso resume um forte aspecto psico-cultural da baianidade.
É um traço muito marcante no nosso povo o jeito de viver "cada dia a seu tempo"... Cada azar a cada azar... e cada sorte a cada objeto no chão. Nada a perder.

À noite, não tinha ninguém livre ou disponível para sair com um pseudo-turista caribano ou baianoca. Então, entrei no carro e fui dar um rolé pela orla. Olhar a lua, que tava bem cheia.
Fui olhando as praias, matando a saudade do mar da Bahia, e quando cheguei lá em Itapuã vi umas pessoas de branco com velas na praia, aí pensei:
- Oxe, que é isso? Ainda nem é natal e já tão comemorando o reveillon?

Desci para olhar. Era um povo de candomblé.
Resolvi chegar mais perto para decifrar aquilo, que nunca tinha visto antes, assim tão de perto.
Vi umas mulheres abaixadas, de branco, cantando pontos, chamando cavalinhos e pomba-giras.
No meio, um pai de santo embriagado, dançando cambaleante.
De repente, do nada, ele saía correndo e se jogava no mar. Aí vinha uma das mulheres de branco tira-lo de lá e recebia os cumprimentos do grande Ogum, senhor dos mares.

A noite estava linda! Muitas estrelas no céu. O luar resplandecente iluminava tudo, para além das chamas das velas. Aquele auto de natal parecia coisa de filme. Uma cena bíblica talvez.
Mas senti ali uma energia muito forte. Estranhei.

No sábado, na praia, comendo um caranguejo (quanto tempo sem comer caranguejo!) tinha comprado um “contregum” com um artesão de rua, um velho de barbas brancas. O “contregum” é uma espécie de amuleto, feito com um cordão, pedrinhas e um búzio para espantar os espíritos, os “eguns”. Daí vem o contra - egum.
O velho, apesar dos poucos dentes tinha um sorriso contagiante.
Mostrou uma pasta com alguns desenhos seus e disse que havia estudado no museu de arte moderna.
Sonhava em um dia fazer uma exposição. O nome dele, curiosamente, era Carlos Chagas.
O nome é o mesmo do epidemologista brasileiro que caracterizou a doença que ataca o coração e o sistema nervoso.
O velho disse que quando fizesse sucesso mudaria seu nome para "Carlos Da Vinci".
Ele era bem velho, mas acreditava nos seus sonhos juvenis e tinha um brilho no olhar quando falava disso. Aquele brilho que só as crianças e os loucos têm.
Um santo remédio para os males do sistema nervoso e do coração.

Então, no meio daquele auto de candomblé, com meu contregum no pé, saí no contratempo, gingando capoeira, sem dar as costas. Afinal, nunca se sabe... Para o desconhecido, é melhor fechar o corpo.
Não quero eguns andando atrás de mim.

Continuei meu passeio noturno e fui parar na frente de um parquinho de diversões de Itapuã.
Resolvi descer pra tomar um caldo de cana.
Parei pra ver os brinquedos e dois molequinhos me pediram pra pagar um ingresso pra eles.
Falei que só pagava se eles brincassem no bate-bate comigo.
Me diverti muito. Enquanto descia a porrada no carrinho dos meninos, me desviava que era uma beleza dos outros. Depois, ainda fomos na roda gigante. Não consegui parar de olhar a lua.
Depois paguei um acarajé da Cira para eles.

Aí, daqui a pouco, o mais esperto, um neguinho de seus 12 anos, vira pra mim e fala assim:
- Eu queria pedir um favor pro senhor, Daqui a pouco tenho que levar dinheiro pra casa e hoje não consegui nada, por que fiquei brincando e não guardei carro.

Fiquei meio mordido com aquilo... Mas não ia dar dinheiro. Aí falei, rindo pra ele:
- Se saia, rapaz! Não sou nem senhor, nem sou seu pai! Não vou te dar dinheiro zorra nenhuma! Vai estudar pra trabalhar e ganhar o seu!

Continuamos brincando e conversando. Eles me contando que queriam ir no festival de verão pra ver Ivete e Chiclete. O menorzinho disse que tinha um tabuleiro de doces que os pivetes de Itapuã bateram nele e tomaram tudo. Mas aí veio o "Se Liga Bocão" (um desses programas sensacionalistas, tipo Ratinho) e deram outro pra ele. Disse que agora tava jogando capoeira e não mais “comer reggae” de malandro nenhum.
Mas a malandragem com a qual ele precisava lidar, era a dele mesmo...

Uma noite divertida... Dessas que só se vê na Bahia.
Fiquei aqui pensando em como é importante para qualquer criança poder brincar e ser ela mesma.
Não só as crianças. Mas também os velhos. E os adultos.
Bom pra o coração e sistema nervoso.

Cada um com seus sonhos, à sua maneira baiana de ser. Cada tempo a seu tempo. Cada sorte a cada sorte.
Um menino, que apesar da dureza, não deixa de ser criança e querer brincar. Que pode mudar tudo, com todo o tempo pela frente e nada a perder.
Um guardador de carros, para quem o que vier é lucro. Tudo para achar e nada a perder.
E um velho, sem tanto tempo assim, e, também, com nada a perder. Inclusive o tempo.