Friday, December 29, 2006

Ano novo. Eu Rio em lágrimas.



Engraçado é que isso tudo ainda assuste todo mundo. Parece besteira quando a gente toma susto em filme de suspense. Afinal, se no filme você já sabe que alguma coisa muito feia vai acontecer de repente, e por mais que você já soubesse que algo seco, frio, brusco e mortal estava para acontecer... Ainda assim você não devia se assustar!
A gente nem devia mais se assustar se as coisas já andam mesmo tão doidas. E já faz muito tempo.

Tempo que nem mesmo a própria história ensinou o homem a digerir. A olhar pra trás e aprender com os próprios erros. Tempo que passa todos os dias, com gente nascendo e gente morrendo. Gente morrendo. Gente sofrendo. E gente que ainda continua insistindo em nascer nesse mundo tão inexplicável e misterioso.
Pelo menos para nós mortais.
Talvez a eternidade, que ninguém consegue conceber, resida no segredo de aprender com o tempo. Aprender a conviver e tirar proveito dele. Lembrei agora de um verso que um dia alguém me disse, de uma música de Luiz Gonzaga: “o fruto bom dá no tempo, no pé pra gente tirar. Quem colhe fora do tempo não sabe o que o tempo dá”.
E o tempo não para de passar, e a chuva nunca para de descer, o sol nunca para de queimar, o Rio nunca para de correr e o fruto e o Brasil nunca amadurecem. Os tiros nunca param de matar e o rio nunca para de sangrar.

Sangue da nascente de lá do alto das cordilheiras do tempo. De um sol poente, vermelho da cor do natal. Tempo que a gente não entende. Como nessa mesma terra brasileira há séculos atrás, num tempo que a gente continua sem entender, o índio também não entendeu nada. Não entendeu que a brancura reluzente das caravelas no oceano era um sinal do fim dos tempos – pelo menos o dele. Não entendeu que, daquela cruz, nem mesmo aquele homem que todos chamam de filho de Deus conseguiu escapar. A cruz das grandes navegações, das bandeiras, dos escudos, das cruzadas e das espadas. A cruz dos nazistas. A cruz que foi inventada como instrumento de tortura e pena de morte para os mais vis criminosos da antiguidade.
A cruz que continua machucando depois do carnaval e semana santa.
O sinal da cruz que a gente costuma fazer, se benzendo, para se proteger do mal. Assim como quem vai viajar de avião faz, quando fica com medo e se benze. Ou então quando se faz o sinal da cruz para ver se ajuda a conseguir embarcar e chegar a tempo, voando, para ver a família e os amigos na ceia de natal.

Tem também o sinal da cruz que todo mundo faz quando alguém que a gente conhece morre e a gente diz “que Deus o tenha”. Ontem foi um colega meu lá da Petrobras. Foi embora desse mundo louco na correnteza misteriosa do tempo.
Bira era muito gente boa, não merecia viver toda essa loucura do dia de hoje e dos dias que virão. Dias de novas brancuras reluzentes no horizonte do mar de mais um reveillon. Quem sabe? Vai ver que foi por isso que Deus tocou o dedo forte demais no coração dele e o levou para perto. Para ajudá-lo a ouvir as tantas preces, pedidos e promessas que evaporam do calor lá debaixo, do Rio de lágrimas.

Bira era um sujeito alegre. Tinha entre 50 e 60 anos e parecia estar sempre bem disposto, pronto para ajudar. Trabalhava na reprografia do Cenpes e cuidava do material gráfico e das impressões de lá. Era magrinho, tinha os cabelos encaracolados, usava uns óculos engraçados de aros grossos e tinha um sorriso no rosto que mostravam sua alegria de viver e gentileza entre uns poucos dentes estragados. Gentileza. Era um poeta.

“Apagaram tudo. Pintaram tudo de cinza”. Cantarolei um trecho da música de Marisa Monte para o taxista que me trouxe de volta para casa hoje. O gerente-executivo do Cenpes deu ordens expressas para que ninguém ficasse lá depois das quatro e meia da tarde. Eu desobedeci. Morrendo de medo. Mas precisei desobedecer e ficar até mais tarde para concluir um trabalho urgente. Estava cheio de cálculos para fazer. Calcular a área em centímetros quadrados a qual cada marca, dos parceiros de um projeto da empresa, terá direito a aplicar na envelopagem promocional de pick-ups de acordo com sua participação financeira percentual. É incrível como nessas horas a adrenalina dispara o cérebro. Eu, que quase fui pra a recuperação de matemática, consegui terminar o trabalho um pouco antes das seis.
Chamei o táxi e tinha um voucher da empresa para voltar para casa. O taxista era um cara jovem, chamado Alexandre. Quando estávamos saindo pela linha vermelha para entrar na avenida Brasil, Alexandre ainda estava falando no celular com sua mãe, sua ex-mulher e seu filho pequeno, tentando combinar o seu fim de semana de fim de ano. Quando desligou pude finalmente perguntar para ele se tinha notícias sobre os tiroteios que estavam acontecendo. Ele estava meio por fora. Comentou algo sobre as milícias. Depois a mulher dele ligou novamente para dizer que a cachorra deles tinha furado a bolsa e não conseguia parir. Estava passando mal e precisava de um veterinário. Alexandre ligou para outra pessoa, pedindo que chamasse o veterinário da favela. Eu também tive que deixar minha cachorrinha sujando a casa da minha tia mais um dia, lá em Niterói. Atravessar a ponte hoje seria loucura.
Foi quando estávamos passando pelos viadutos em São Cristóvão, perto do colégio Pedro II – eu ainda não conheço bem a cidade e ele pegou um outro caminho para minha casa em Santa Teresa. Lá estavam as mensagens do profeta Gentileza. Novinhas em folha. Atuais. Parecia até que tinham sido pintadas esses dias. Aí perguntei a Alexandre, que estava meio distraído:
- Será que essas mensagens de Gentileza ninguém conseguiu apagar?
- Apagaram? Não sei.
- Apagaram tudo. Pintaram tudo de cinza... - cantarolei um trecho da canção para ele.
- É... talvez tenham restaurado...
- Pode ser. Mas já tem um tempo que estão apagando a poesia dessa cidade e Gentileza já morreu.
- Ele já morreu? Não sabia... Toda hora eu via ele passando por aqui – disse Alexandre, meio distraído.
- Já morreu. Você sabe a história dele? Dizem que perdeu toda sua família num acidente ou numa tragédia. Ficou sozinho, virou mendigo, saiu da roda do tempo e conseguiu entender tudo. Escrevia por aqui essas coisas, pintando com essas letras bonitas e coloridas o cinza da cidade.
- É, mermão... Quando o cara não consegue agüentar, pira né?

É, Alexandre. Quando a gente não consegue agüentar a gente pira. Ou prefere não ver o que está acontecendo bem na nossa frente. Fica distraído.

No caminho eu já tinha passado o número do meu voucher a Alexandre, para o pagamento da corrida pela empresa. Peguei de volta para preencher os meus dados. Estava comigo. Eu preenchi. Quando o táxi parou na frente aqui do prédio e eu fui saltar, cadê o voucher?
Cadê? Revirei o carro todo. Vasculhei toda a minha bolsa. Olhei debaixo dos bancos e dos tapetes, meus bolsos, entre as páginas de “As veias abertas da América Latina” - que estou lendo tardiamente - e nada. Só achei uns papéis antigos. As janelas vieram o tempo todo fechadas. Menos a do motorista. Não entendi e, sinceramente não quero nem pensar em desconfiar dele. Ele parecia ser uma boa pessoa. E, em 2007 e em todos os anos do resto da minha vida, ainda quero poder continuar acreditando nas pessoas.
O voucher sumiu. Possivelmente achou algum portal do tempo misterioso que a gente desconhece e está sendo recebido por outro taxista por algum outro eu no bairro de Santa Teresa no Rio de Janeiro de outra dimensão. Ou outra possibilidade quântica. Pedi para ele esperar, vim ao apartamento, peguei um cheque meu, preenchi e paguei. Trinta e sete reais. Ele me deu o recibo e pegou meu telefone para o caso do taxista da outra dimensão não aceitar o pagamento em voucher.Mistério.

“Ai que saudade eu tenho da Bahia. Ai se eu escutasse o que mamãe dizia.” E mamãe dizia que não agüenta mais brigas. Disse para mim e para minha irmã, que chegou hoje no Rio – logo hoje! - e que não veio direto aqui pra casa, foi para a casa da minha tia e de uma amiga, por que discutimos por besteiras de irmãos e por acusações infundadas de plágio literário por ambas as partes. Não me pediu desculpas. Nem eu pedi. A gente nunca pede. Ela me ligou antes de eu começar a escrever, me chamando para ir no Cobal em Botafogo tomar uma cerveja com ela e sua amiga. Disse que não ia.
E aconselhei-a a também não se arriscar.
Está perdoada. Mesmo não tendo pedido desculpas. E pode vir ficar aqui em casa, se quiser.
A poeira já baixou. Sempre baixa rápido.
Temos que manter a irmandade, levar na esportiva. O Rio de Janeiro também tenta levar na esportiva. Mas quem sabe o que será do Pan 2007 depois de toda essa confusão?
Que baixa a poeira. Na santa paz de Deus. No mais perfeito caos.

Mas se pra mim a poeira já baixou, as estrelas caíram do céu e as parcas continuam conspirando. Nas luzinhas da árvore de natal que é o Morro dos Prazeres, minha paisagem da janela da sala, ao lado do sovaco esquerdo do Corcovado, no coração do Cristo, o foguetório do reveillon já começou. Estranhos prazeres. Podres poderes.
Enquanto isso o Jornal Nacional mostrava os estragos do dia de hoje.
Um estranho fim de ano. Deve ser por causa da época do Natal, hoje todo mundo me ligou querendo saber notícias.
Sinceramente. Hoje eu não entendi nada. Ou acho que estou ficando distraído.

Marcos Siqueira. 28/12/2006.

Sunday, December 10, 2006

homens de família.



por Marcos Siqueira.

Sou um homem de família. De família grande. Grande mesmo.
De sangue, tenho meu pai, minha mãe, duas irmãs e um irmão. E uns 21 primos, pelo que consegui contar agora de cabeça. Tenho sete tios emprestados e só um de verdade. E tenho oito tias, sendo que seis delas são irmãs da minha mãe – da casa das sete mulheres - e que a minha tia por parte de pai é também minha dinda. Ainda tem também vovô Geraldo e vovó Yayá (vovô Eraldo e vovó Lourdes já foram embora...). E os agregados também estão no mesmo barco. Os namorados(as) e os maridos(as) das minhas primas(os) – e os que estão para chegar, né Silvinha? Os ex-namorados de minha irmã (ps1. não foram muitos... dois só, que eu saiba... ps2. me refiro a minha irmã mais velha, a mais nova – eu que sou o dindo dela – tem só doze anos... pode esquecer essa história de juventude precoce...), a namorada do meu irmão e ... Ah! Ainda tem as duas filhas da mulher do meu pai! E também os três filhos do marido da minha mãe. E, claro, minha boadrasta e meu brodastro!
(Abro esses parênteses por que esqueci de dizer que meus pais se separam quando eu tinha uns nove anos e que cada um casou de novo e que minha irmãzinha é só por parte de pai. Fecho parênteses.)
E aí, é claro, eu não posso deixar de mencionar os irmãos de coração. Por que eles também são verdadeiros irmãos mesmo. Não importa se são ou não são filhos do mesmo pai e da mesma mãe. Irmãos com quem a gente cresce junto, com quem rimos e com quem choramos. Os irmãos que a gente vem escolhendo nessa vida por ai afora, nesse mundão de meu Deus. Os amigos. A galera. Os broders. Irmãos, companheiros de todo dia.
E já que esse mundão de meu Deus é tão grande e meu Deus não é só meu, é nosso, e Ele tem tantos filhos, que eu tenho também todos esses irmãos de alma.
Irmãos de humanidade. Irmãos em Deus.
Os irmãos do cotidiano. O irmão a quem eu dou bom dia de manhã cedinho, quase de madrugada, quando eu subo no ônibus e é ele quem está lá sorrindo, ou até mal-humorado, pilotando o caminho do começo do dia de um monte de gente.
Gente de dentro do ônibus. Irmãos de segunda-feira. Irmãos de engarrafamentos. De violência urbana, de superpopulação. De solidariedade, de cidadania, de respeito. De união. Todo mundo no mesmo barco. Ou barca furada. Ou não.
Os irmãos do trabalho. Que além de serem irmãos, jogam no mesmo time. Pra eles é que a gente mata a bola no peito e dá aquele passe na medida e deixa o parceiro de cara pra um golaço de placa! E quem ganha é o time todo! Nós. A grande família de todos os dias úteis. E dos inúteis também!
A família do horário de verão. A família nordestina. A família da roça. A família espalhada pelo mundo. Os amigos e irmãos, os estrangeiros e os brasileiros dos Estados Unidos, do Canadá (abraço pra meu primo Hugão, grande broder), da República dos Camarões, da Holanda, França e Suíça. Índia, Paquistão, Papua Nova-Guiné, Japão. Luanda, Peru, Egito e Pólo Norte.
Amazônia, pulmão do planeta. Brasil, coração do mundo.
A humanidade tão brasileira, quanto chinesa ou européia. Os irmãos virtuais.
Os irmãos WWW. Os trigêmeos DDD. Os XXY e os XXX, triplo X.
E até os fresquinhos irmãos KLB. É todo mundo irmão.
É. Sou mesmo um homem de família grande. Uma família com uns seis bilhões de irmãos. De pais, mães, tios, tias, primos, avós e afins.
Até lembrei agora daquele romance de Maria José Dupré que tinha na série vaga-lume – quem nunca leu? – e que até virou novela do SBT, “Éramos seis”... Me dá medo que isso seja um mau augúrio.
Tenho medo dos efeitos do aquecimento global. Medo da falta de água. De comida. Da falta de educação. Da falta de consciência. Da falta de limites. Da falta de respeito. Medo do bicho homem. Abel com medo de Caim. Medo da ciência usada para o mal. Medo das bombas.
Medo das palavras mal colocadas. Ou bem colocadas, na mira, para ferir o coração de algum outro irmão. Medo da escravidão física. Medo da escravidão mental.
De Caim matar Abel.
Medo da guerra.
Aí estava eu aqui, hoje à noite, em pleno sábado à noite, com tantos irmãos – e irmãs! – me esperando por aí, pensando numa frase de uma música do Araketu, “tambores pela paz mundial, é normal no carnaval, eu sou araketu na avenida...”
Tava pensando numa dessas geralmente bobas mensagens de fim de ano da rede globo. Só que essa, apesar de simples não era boba. E de quantas idéias muito simples já não construímos, nós mesmos dessa família humana, civilizações e impérios? A simplicidade do fogo e da roda. A invenção da matemática e da escrita. Do papiro.
Tudo muito simples. Muito revolucionário.
E a revolucionária idéia do comercial de fim de ano da globo – que inclusive já teve bons momentos do tipo “Esse ano eu quero paz no meu coração. Quem quiser ser meu amigo, que me dê a mão...” – dizia mais ou menos assim num diálogo que tinha também Edson Celulari e Cláudia Raia:
- E se todo mundo, todo dia se tratasse como irmãos?
-Bom dia, meu irmão!
- Bom dia, irmãzinha!
O mundo não seria bem melhor assim? Vamos precisar muito contar com nossos irmãos para enfrentar as barras que vem por aí. Nos dar as mãos. E vamos aproveitar ao máximo para aprender tudo o que ainda possamos aprender com a nossa maravilhosa diversidade cultural. Vamos aproveitar a geografia, os pontos históricos, turísticos e o avião. Enquanto ainda temos celular e internet. Vamos aproveitar enquanto ainda somos todos nós. Vamos nos conhecer. Aproveitar e vencer as nossas barreiras. Para que o amanhã seja melhor. Para saber a maravilha que aflora entre o raiar e o crepúsculo de uma vida. Entre o primeiro choro e o último suspiro. Vamos aprender a olhar nos olhos. A sorrir. A chorar. Vamos nos unir, enquanto ainda é tempo, para que a humanidade vença e supere todos os obstáculos. Que ainda seja humanidade.
Para nos tornarmos melhores.
Para sermos mais irmãos. Homens de família.

Friday, December 01, 2006

trilhas do universo ou caminhos do coração.



























por Marcos Siqueira.

O fim ou o recomeço? E se já se tinha tudo revirado ao avesso, que fazer agora?
E então? Olhar no chão ou mirar estrelas? Aqui abaixo do manto do firmamento só poucas faíscas, fracas centelhas. E pouca resposta.
O tempo pára e a mata cerra. Trilhas e milhas a abrir. Caminhos de luz e vento. Onde vai o pensamento. Pelas artérias, veias e capilares, desenhando os caminhos do coração. Em quentes fagulhas e respingos de uma pulsação febril, de formas expressionistas e cores surreais.
Lá de cima, constelações rezam pelas luzinhas das casas de toda gente, dos barracos nas cidades, dos morros cheios de vida. Das árvores de mais um Natal qualquer. Apagando e acendendo estrelas. Nascendo e morrendo gente. Pisca piscando. Pulsação. Latente bate-bate de TUM, TUM, TUM.
Mais forte o coração pergunta ao universo: e agora? E então?

ilustração: www.gettyimages.com