Sunday, November 19, 2006

flores astrais.























Nessa semana escrevi um pouco mais. Acho que fiz uns 5 textos. A maioria vou deixar no estoque pra quando faltar tempo. Agora tenho mais uma coisa aqui pra dedicar um tempo e estudar. Realizei uma vontade antiga.
Comprei um baixo! Preto. Bonitão! Tô praticando.
Bem, mas esses dois escritos aí de baixo tem um tema bem parecido.
Ou talvez na verdade, seja um TEXTO só. A diferença foi a trilha da vida no universo paralelo por qual cada um tomou rumo.
Aqui, diferente da vida, a gente pode escolher o final da história.
Quase sempre.

Paisagem da Alma
Marcos Siqueira

E essa é mais uma maneira qualquer de ficar longe de você. Pelo menos em pensamento.
Ia ser bom. E a qualquer momento poder te olhar sem te querer. Que seja!
Tirar da cabeça qualquer pensamento romântico-psicodélico. Qualquer neurose ou compulsão por sua voz. Qualquer boba idéia de nós. Qualquer tesão incontido.
No vermelho do seu sorriso. De vergonha. De falta de vergonha.
No vermelho do seu sexo. No calor das palavras e das línguas, me calando ao açoite da noite.
Qualquer hora que eu te tenha só minha. Sozinha. Deixo dentro de você a marca quente de minha alma. Minha paisagem. De verão e inverno, outono e primavera. Que não pode ser dita a ninguém. Não em palavras.
E quanto mais fundo se entra na paisagem da alma, mais calados ficamos.
Estamos sós no universo. As borboletas voando pela highway. Ou pela estrada de tijolos amarelos. Os deuses dão as cartas e o resto é com você. Adeus. Há Deus.
Vou vivo pro céu. Vou viver outra prisão pra não lembrar você.

Sobreviventes
Marcos Siqueira

Como se já fosse minha velha amiga, ela insistia em aparecer.
Costumava aparecer quando eu andava sozinho pela noite. Quando a dor me apertava fundo no peito. Quando em minha voz não caberia a amplidão do meu grito.
Ela vinha assim, sem avisar. Chegava à noite ao som de alguma melodia da minha cabeça. Vinha e tomava comigo algumas doses. Me abraçava e inebriava meus sentidos. O ar ficava mais pesado. Os sons mais altos, os sentimentos mais agudos.
E lá estava ela. Insistia em aparecer mais uma vez aos meus olhos e coração.
E ela sabia mesmo me atingir. Despedaçando-se daquele jeito em minha frente.
Chorando todas as pétalas das minhas vinte e poucas primaveras. Ali na minha frente. Desmanchando-se em desilusão. Derretendo como a tinta impregnante e radiotiva de um quadro psico-surreal. Tão cheia de cores, dos roxos das dores aos vermelhos das flores. E amores. Vão. Tingindo em aquarelas o profundo coração. Pintado em castelo de corais. Em estrelas do céu do interior. Em verde de canaviais. Em azul de maresia. E a nuvem atrás dos seus olhos.
Vem a chuva. Detrás dos seus olhos. Os pingos bombardeiam e respingam desbaratando a dança das cores. O céu derrete. O sol desbota. E a manhã daquele dia.
O vazio que fica. Na manhã daquele dia. Um mundo inteiro. Com árvores fáceis de achar. Prontas para o coração que eu desenhei com o nome do meu amor. O meu amor. Só meu. A flor.
Que nasce. Cresce. Brota. Fulôra. Resplandece. Gira ao sol. E se deita com a lua. Nua. Sua. Some. Murcha. Vai embora.
Quanto mais pisada em qualquer jardim mal cuidado, mais exótica e bela. Flor de aquarela. Borrada, derretida em água. Que teima em criar novos desenhos, linhas, traços e arabescos. E novas flores insistem em nascer. Em multiplicar-se. Em explodir pelo universo parindo novas flores e estrelas.
E no final, vem o outono e vai a primavera. No jardim voam os passarinhos. Com um canto melancólico qualquer. Não há flores. As folhas secas no chão. E, de outra escuridão qualquer , nascem flores e o sol de um novo dia.

textos escritos por mim, Marcos Siqueira.
ilustração da www.gettyimages.com

Tuesday, November 14, 2006

perdão pelo coração que eu desenhei em você com o nome do meu amor.



Estive em Salvador nesse último fim de semana. Foi muito bom. Revi pessoas queridas. Tive momentos e encontros muito legais. Passei no meu antigo trabalho, na Codesal, e aproveitando que estava com o pen driver na mão, pedi a Teixeira para gravar umas mp3 para mim.
Aí ele mandou escolher. Escolhi algumas coisas e pedi que ele me sugerisse umas novidades. Ele sugeriu Arnaldo Antunes e eu meio que torci o bico. Eu gosto dos conceitos de Arnaldo Antunes. Mas achava ele cabeção demais. Tinha uma idéia de que faltava algum "funky style" no som dele. Então, para encher a capacidade do pen driver, copiamos "Um Som", de 1998. Segundo Teixeira esse é o melhor albúm dele.
Cheguei aqui no Rio e já senti saudades de tudos e todos. Especialmente de um coração que eu desenhei...
Aí estava em casa curtindo lembranças e o barato da música e resolvi colocar essa letra aqui. Que é uma poesia. Perdão pelo coração!

As Árvores
Arnaldo Antunes

As árvores são fáceis de achar / Ficam plantadas no chão / Mamam do céu pelas folhas / E pela terra / Também bebem água / Cantam no vento / E recebem a chuva de galhos abertos / Há as que dão frutas / E as que dão frutos / As de copa larga / E as que habitam esquilos / As que chovem depois da chuva / As cabeludas, as mais jovens mudas / As árvores ficam paradas /Uma a uma enfileiradas / Na alameda / Crescem pra cima como as pessoas / Mas nunca se deitam / O céu aceitam / Crescem como as pessoas / Mas não são soltas nos passos / São maiores, mas / Ocupam menos espaço /
Árvore da vida / Árvore querida /
Perdão pelo coração / Que eu desenhei em você / Com o nome do meu amor.

Wednesday, November 01, 2006

epíteto ao brilho apagado das estrelas ancestrais.

Aqueles olhos vidrados já sabiam de tudo muito antes daquele tempo do fim chegar. Da sua boca brotava o amargo do sangue, de terra e de dor. Era como se, de dentro do peito, a alma lhe quisesse deixar vazio o coração. E todas as suas entranhas contorciam-se com aquela agonia de ecos infinitos. Era dor da maior profundeza, das que vêm de dentro dos mais escuros abismos do ser. Humano.
Humano. Que nasceu de uma mãe e um pai. Que foi amado, que cresceu, que brincou, que caçou, que nadou, que pescou, que guerreou, que fluiu e que agora estava ali. Tão humano, tão mortal e tão finito quanto os estranhos senhores da morte. Estranhas divindades mortais. Que chegavam de longe. Que tinham a pele branca, que também tinham pai e mãe, que se cobriam de panos e que queriam o ouro. Humano.
Agora também sabia o que era o tesouro. O verdadeiro tesouro. Sabia o que era a força do amor e sabia também da outra força, vendo a humanidade, como então até ali conhecera, morrer amarga e seca. Como ele. Ali debaixo de um lindo céu azul. Em cima da sedenta terra marrom e seca, que agora bebia suas últimas gotas, tingida de sangue. Dos céus asas brancas e douradas cruzavam-se em danças do epíteto. Formavam desenhos, contando numa valsa o fim da inocência. De longe o carcará tecia com as parcas o seu tinido, cortando o ar carregado de morte.
E à profunda agonia finalmente cedeu. As cortinas se abriram. E ele pode lembrar-se de tudo mais uma vez, como se lembrava às vezes. Como naquelas vezes quando sentia a alma sair-lhe de dentro do coração com a fumaça que soprava pela boca, desenhando flores e formas no escuro do céu pontilhado pelas estrelas de seus ancestrais. Como quando já sabia ser tão fumaça quanto aquela fumaça da fogueira. E subia aos céus levando a consciência da terra dos mais profundos cantos do ser às mais distantes e altas constelações. Ia aos mais longínquos reinos do outro lado da grande mãe d´água. E sabia que eles chegariam. Que o fim chegaria. Que derramariam sangue em sacrifícios de consagração a si próprios, como se a todas aquelas vidas a oferta fosse compulsória. O sorriso se apagava no rosto das mais pequenas crianças. Os velhos entregavam-se à morte. Às mulheres era violado o templo do corpo para que se lhes sujassem a pureza de dentro. As almas dos guerreiros acendiam cada vez mais estrelas no céu, com a mesma velocidade e fogo com que saiam pelos furos das pedras mortais, rajadas do trovão das carabinas.
Ele sabia que aqueles grandes e estranhos pássaros brancos, que vinham em esquadras lá detrás da última linha de mar, eram um prenúncio de paz. Uma paz diferente. Resignada. A paz do espírito que chegava à mais clara e profunda compreensão do divino. Da sabedoria e da ciência. Que via seu corpo, seu povo e seu tempo ficando para trás de maneira tão violenta. Esmagados e singelos como uma pequena flor na beira da estrada do tempo. Humano. Parte da natureza. Onde nada se cria. Nada se perde. Onde tudo se transforma. Em fogo, água, lágrima, fumaça, sangue, terra e consciência. E paz. Pela consciência. Divina e eterna paz. Com ciência. Compreensão do astral superior.
Paz.
E daquele tempo que já não era mais, pouco ficou. De lá ainda dá para ouvir o fluir das águas do tempo do universo. As batidas profundas de consciência do princípio de tudo, do coração sagrado universal. Das estrelas dos nossos antepassados. E do coração de Tupã, a força da natureza.
E, um dia qualquer, hão de se lembrar de tudo que mataram da memória junto com aquele povo alegre, guerreiro, belo e tão natural. E aquilo que nesse momento se revelará aos povos, surpreenderá a todos não por ser exótico. Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto quando terá sido o óbvio.

* A sugestão musical já está bem explícita no texto. Cordel do Fogo Encantado e música andina também caem bem.
Foto:
www.gettyimages.com
Texto escrito por mim, Marcos Siqueira.