Wednesday, December 09, 2009

Coming Soon



Tuesday, December 01, 2009

a primeira dose

E lá estava eu. Finalmente eu ia saber de tudo. E ela também estava lá. Eu tinha medo. Eu tomaria a primeira dose. E não sabia qual seria o resultado.
Era cor de terra. Coisa de dois dedos. O cheiro não era bom. Bebi feito quem bebe remédio. Não senti o gosto. Sentei.
Demorei um pouco para sentir alguma coisa. Olhava para a cara daquelas pessoas e tudo me pareceu tão estranho, tão sem sentido...
Mas então uma música de outra dimensão rasgou o ar, apunhalando o mais transcendental e profundo eu. Perfurou.
E eu vi.
Vi arabescos indianos se descortinando na minha frente. Ouvi. Aquela voz dizendo "aí está tudo que você queria ver e saber". E o filme da minha vida começou a passar. Desde antes de eu nascer. Quando meu pai e minha ainda esperavam para saber se eu seria menino ou menina. Vi o amor deles por mim, quando nasci. Senti. Lembrei também de como eu amava aquela professorinha de olhos verdes que me levava para a casa dela depois das aulas, de tarde. Eu era muito pequeno, devia ter uns quatro anos.
Tia Viviane. Fui guarda de honra no casamento dela. Lembrei das minhas brincadeiras, das musiquinhas, dos meus amigos. Reais e imaginários. Vi que os imaginários não eram tão imaginários assim. Lembrei de cada momento. Cada gesto, cada cheiro. Cada sorriso de menino. Cada lágrima. E chorei.
Chorei muito. Chorei alegrias. Chorei tristezas. Chorei minha alma. Aquela era a minha vida, a voz dizia no fundo da minha cabeça. A consciência. Tive medo. Fiquei tonto. Tive medo daquela força estranha.
Levantei da cadeira meio cambaleante e fui até um canto para vomitar. Vomitei minha vida e morri.
Desmaiei por alguns segundos. Pelo tempo de algumas encarnações. O suficiente para olhar nos olhos daquele índio boliviano de cabelos brancos, que me observava de cima com aquela cara de pajé, e, ainda deitado no chão dizer: "Já entedi. É tudo uma coisa só!". Então toda aquela gente se dispersou e ele sorriu. E eu também. Tudo uma coisa só.
Que estranho. Que louco. Que mágico!
Todos aqueles conceitos filosóficos, místicos e religiosos, que antes eram só conceitos vazios de percepção e díspares entre si, se fundiram numa só compreensão. Sim. Eu já sabia.
Lembrei de tudo.
Lembrei do amor de minha mãe. De como tantas vezes eu fui um filho muito difícil. Que lhe causou alguns sofrimentos. E chorei. Como eu amo minha mãe, constatava a voz da minha cabeça. Chorei de alegria por ter uma mãe. Por ter a minha mãe. A minha mãe que eu quero tão bem. Que tem tanto amor. Amor. Mãe.
Lembrei do meu avô. Sempre tão puro de coração. Tão ingênuo e tão carente. Senti que nem sempre tinha sido tão bom com ele quanto ele sempre foi comigo. E chorei. Meu vovô. Te amo meu vovô, eu chorava. De saudades, de tristeza, de alegria, de amor. Minha vó e meu vô.
Meu pai. Meu melhor, meu grande amigo. Meu ídolo. Meu herói. Meu exemplo em muitas coisas daquela vida que eu tinha vivido até então, naquela tarde azul de domingo de lua cheia de abril de 2002.
Te amo meu pai, pensava eu sorrindo feliz.
Meus irmãos. Meus amigos. Minhas namoradas. Meus primos. Meus colegas...
Um amor profundo e incondicional por todos eles. Meu coração fluía sangue e derramava todo o seu amor de cima daquele galpão. E impregnava a terra, subia pelas árvores, exalando nas plantas, nas folhas e frutos. Meu coração fluía todo o AMOR do universo. Um. Universo.
Tudo era tão vivo, tão pedaço desse AMOR, quanto aquela bonita mangueira que eu olhava sentado no chão daquela tarde. Os pássaros cantavam as mais belas melodias do céu.
Ainda era jovem. Com mais uma vida inteira pela frente. Uma tinha ido embora. Tinha mais umas seis novinhas em folha.
E o filme ainda rodava. Tinha um charme de musical dos anos 30. Uma nostalgia de Carlitos. E a cor da atmosfera era azul, quase lilás.
Então ela apareceu para mim pela última vez. Ela, a primeira das que vieram e virão, aparecia na minha frente pra se despedir. Ela me dava um beijo no rosto, saltava do carro e subia as escadas, me dando tchau com aquele sorriso de menina. Sua alma me dizia que estava tudo bem. Cada um de nós seguiria seu caminho. E dizia pela consciência que tínhamos sido gotas do AMOR universal um para o outro.
E por toda vida continuaríamos sendo gotas, rios e marés, até voltarmos a ser mar.
O AMOR. Ela disse adeus. Há Deus. E eu sorria, livre da prisão. Mais leve. Feliz.
E como não sentia mais o peso da saudade no coração perguntei para a rezadeira o que era apagar. Ela pensou, pensou e disse:
- Meu filho, nessa vida a gente nunca apaga nada. Tá tudo escrito no tempo e nas estrelas.
Sim. Eu sabia. E o filme continuava rodando. Agora eu lembrava de uma outra vez que eu tinha morrido.
Naquela vez eu estava deitado em cima de uma mesa, numa casa pequena e humilde do interior. Um lençol cobria meu corpo. E havia velas. E gente. Muita gente.
As pretas velhas, rezadeiras, cantavam encomendando a alma daquele outro preto surrado da vida que ia subindo ao puleiro das almas. E aquela cantoria, que não tinha tempo nem espaço, também estava ali. Naquela tarde tão azul. Em que eu olhava para a mangueira e pensava no que John Lennon tinha feito pela compreensão da paz pelo insconsciente coletivo mundial. A paz. A vida. As vidas. Um amor. Uma vida.
E o filme a la cinema paradiso ia descendo na bobina. Agora eu me via ali. Anos depois.
Numa tarde ensolarada. Um pouco mais velho. Com cabelos grisalhos, de óculos, camisa de manga amerela e um sorriso senhor de uma certa confiança e maturidade. Mais sabido. E me dizia muitas coisas.
Ele. A voz. Eu.
E aquilo tudo era muito mágico.
E a mágica ia se apagando com o pôr-do-sol. Ia ficando mais branda. O mar de AMOR ia se diluindo no oceano do mundo real.
Mas qual seria a realidade? Que nova pessoa era eu? Quem era aquele homem que nascia dentro dos olhos de um menino, recém saído da adolescência? Eu ainda não sabia. E continuo não sabendo. Ele nunca me disse.
Às vezes descubro alguma coisa nova quando não pergunto demais.
A noite caia em cima do sol, manto de AMOR. E a lua, resplandecia toda a prata astral.
As cigarras cantavam ao horizonte de aquarela, que ninguém jamais pintou. E o enxame de estrelas dizia que o dia terminou. A tarde terminou. Aquela vida terminou.
Agora era outra. Eu tive medo.
Mas estava salvo. Pelo menos por enquanto.

Monday, November 30, 2009

Abro pra você a porta de casa. Convidaria-te a entrar na minha vida. Se eu soubesse nela onde fica a porta, a janela, o pé direito e o prumo.
Um capitão pirata, aventureiro sem rumo. Um barco a deriva, um porta-aviões esperando alguém pousar. Um mata borrão sem moscas, muriçocas ou prazo de validade.
Te contaria a história do meu pé esquerdo e de todas as sortes de venturas e ventos que já passaram pela minha cara. De moto, de avião ou caindo de algum lugar de dentro de mim. A montanha e a roleta na Rússia seriam o nosso destino predileto.
Nas estepes daqui a coisa fica preta, mas a gente não passa frio. Somos corações de portas de casas abertas, da gente da nossa terra, da lama e do caos do Brasil.

Wednesday, November 18, 2009

Cuidado comigo

Cuidado comigo
Não sou flor que se cheire
Sou desses botões frágeis e invisíveis
Pequeninos e raros, instáveis no campo depois
Da chuva em poucos instantes abro o peito ao sol
Duro o dourado sorriso de veludo da abelha, murcho e me ponho
contigo na memória das cores, formas e perfume.
Das pequenas flores
e dos amores.

Amor de retrovisor



Na minha cara há lentes oblíquas, por vezes obtusas,
Daqui vendo distorcidos os botões da sua blusa
Abrindo-se aos seios do infinito circular
Mas não voltam atrás os beijos que um dia te dei
Bonitas são agora as nossas sombras passeando
Na rua de mãos dadas sobre os cacos de vidro.

Thursday, March 26, 2009

Palavra (en)cantada

Encantarei com a palavra.
Nem mais, nem menos.
Um tanto. Só.
Cantarei o verbo, plantarei o canto.
Findarei no princípio de tudo. O encanto.

Pelo dito que passeia no ar.
Pelo nome que não há língua que o possa pronunciar.
No sol acende o som antes de se fazer, ser
palavra que a lua mingua no pôr
e a língua lava em pranto na cantiga de entardecer.

Me encantando com a palavra.
Sem mais nem menos, enquanto só.
Cantando o verbo, plantando o canto.
Buscando no princípio de tudo o encanto.
Infinito tempo circular.

Passado o presente do futuro,
imperativo se faz conjugar
o surdo silêncio que retumba dentro do peito.
Fala todo o tempo sem chamar fora,
calado pelo princípio, encantado pelo efeito.

Encantei-me com a palavra.
Já não há mais, nem há menos
Há um tanto. Um só.
Cantei o verbo, plantei o canto.
Encontrei no princípio de tudo o encanto.

Friday, March 20, 2009

All we need is love!

Navegando nessa maré de redes sociais, encontrei uma novidade que parece interessante.
É o http://www.yubliss.com/
A proposta parece ser a de um divã coletivo, onde as pessoas podem usar condinomes e compartilhar suas histórias - reais ou não - relacionando-as a mitos gregos, troianos, velhos ou “mudernos”.
Não sei se a proposta cola, nem quais são os fins comerciais. Mas, como curioso antropológico, dei uma checada.
Achei nos mitos do site uma definição interessante - apropriada para esses dias em que cada vez mais a união entre as pessoas é convocada - do mito romântico pelo filósofo Sam Keen.
Fiquei pensando a respeito do número cada vez maior dessas comunidades (facebooks, orkuts, twitters…) que conclamam as pessoas a uma certa união, quase organicamente necessária nesses tempos de incertezas.
Como se fossemos peixinhos, unidos num cardume que fica mais forte e ágil na fuga contra uma baleia… ou abelhas em redes sociais…
Ou como sociedade agindo contra e a favor de todas essas marcas e organizações.

Enfim…
Como diria John: “all you need is love… love is all you need”.

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O mito do amor romântico - por Sam Keen


Descrição
No mito romântico, o amor é a força misteriosa que surge do nada e nos traz felicidade. A incrível porcentagem de 95% de todas as referências ao amor feitas pela mídia moderna baseia-se na promessa de relacionamentos românticos e nos problemas deles derivados. Na visão de Hollywood, os apaixonados são jovens, lindos e predestinados uns aos outros, apesar de precisarem passar por muitas adversidades antes de conseguirem a feliz realização de seu amor.

Origem
A obsessão moderna pelo amor romântico pode nos levar a crer que as coisas essenciais da vida sempre foram um beijo, um suspiro e um toque da “velha magia chamada amor”. Mas o mundo nem sempre reverenciou dois amantes dessa maneira cinematográfica. O amor romântico tem sido a exceção, e não a regra. Na maioria das sociedades pré-modernas, os casamentos foram “arranjados” por motivos práticos e políticos. Foram os cavaleiros e trovadores da Idade Média que inventaram o código medieval de conduta para namorados e idealizaram o romance, mas exclusivamente para a elite. O romance para as grandes massas surgiu com o nascimento do capitalismo e do individualismo, alcançando um nível febril entre consumidores modernos de novelas e revistas que versam sobre o amor falso e verdadeiro, cheias de receitas rápidas para a intimidade e conselhos para os perdidamente apaixonados. A necessidade de novidades relacionadas ao reino de Afrodite é constante e insaciável. Pesquisas de opinião, questionários e indagações intermináveis sobre nossos hábitos eróticos estimulam a crença questionável que temos de estar aprendendo novas técnicas e progredindo no jogo do amor.

Impacto
Nossa fixação míope por romance e sexo encoraja uma teoria de “atração fatal”, que nos transforma em vítimas que “se apaixonam” e “se desapaixonam” em razão de química ou que não conseguem se apaixonar em virtude de má sorte, abuso sofrido na infância ou famílias desestruturadas. Isso estimula a crença vã de que um relâmpago erótico vai nos atingir diretamente vindo dos céus e, espontaneamente, enriquecer e dar sentido às nossas vidas.
Apesar do profundamente enraizado desejo ardente por romance, quase toda a nossa energia é devotada no sentido de conseguir sucesso, prestígio, dinheiro e poder, e quase nenhuma no de aprender a arte de amar. Quando limitamos nossa busca por amor a uma ligação de somente duas pessoas negligenciamos o âmbito maior no qual precisamos praticar o amor – a família, a vizinhança, o meio-ambiente, a natureza, a comunidade de seres não-humanos sensíveis que incluem pássaros e feras.
O erro das teorias modernas sobre o amor é se dedicar exclusivamente a dois seres individuais solitários que se unem para formar uma ilha em um mar hostil povoado de outros seres anônimos e de vizinhos desconhecidos. A maioria das teorias pré-modernas considera o amor como um elixir que gradualmente dissolve as fronteiras que erigimos entre nosso próprio ser e os outros, progressivamente impulsionando o ego para além do individualismo e do santuário da intimidade, na direção de uma comunidade cada vez mais inclusiva.
A conseqüência mais séria gerada por nossas preocupações com o jogo de achar nossos pares é nos mantermos sempre voltados especificamente para a pergunta errada. Se eu perguntar “como posso encontrar meu amor verdadeiro” antes de perguntar “como posso me tornar uma pessoa carinhosa?” não vou conseguir adquirir as qualificações necessárias para me tornar um ser humano carinhoso – capacidade de ouvir, de ter empatia, de sentir compaixão, de cuidar do próximo, de ter comprometimento, etc. O amor é uma arte que precisa ser desenvolvida e praticada por toda a vida.

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Fiquei achando que faltava uma definição mais precisa sobre a inteligência “amorosa” da união coletiva. Já li em algum lugar que existem teorias de físicos para explicar melhor o funcionamento desse sistema que é chamado de multiagente:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_multiagente

Penso que a relação entre os sistemas multiagentes e o mito do amor romântico é de oposição bem inversa mesmo, como diz o texto do Sam Keen. Na verdade, temos participado na web de uma mudança de paradigma e de convivência. Se já não abrimos as portas das nossas casas como antigamente, estamos abrindo mais as nossas janelas…virtuais!

Então, como os enxames, cardumes e pixels randômicos pré-programados pelo media player, todos nós - enquanto seres humanos interconectados em redes sociais - reagimos a estímulos, ameaças, sons e etc.Reagimos também como consumidores, dando crédito ou descrédito a uma marca…Enfim, interligados, somos multiagentes. Espécie de formação ergonômica que, unida, defende-se melhor. Os generais romanos e suas formações de escudos já dominavam bem essa ciência…Essa idéia é bem diversa do mito do amor romântico um-a-um e nada mais.Passa mais perto de uma compreensão mais universal, de junção quase funcional e, talvez, amorosa da sociedade.Existem teorias funcionalistas e darwinistas de sóciologos como Herbert Spencer e Piotr Kropotkin, que no começo do século já enxergavam que a sobrevivência social depende de uma espécie de mutualismo num organismo coletivo.


Então é por aí…
Posso ter feito uma viagem longa, e penso que esse seja provavelmente o caminho…Uma sociedade digital amorosa e multiagente… hehehhe

E a propósito desse assunto:







Thursday, January 24, 2008

a reação do ipê.