Tuesday, October 17, 2006

minha pena.

E então lá estava eu. Sentenciado. Eu que naquela tarde azul-dourada de recomeço tinha voltado para casa meio macambúzio. Me perguntava o que é que faltava acontecer agora. Depois de tantas mudanças em tão pouco tempo, depois de já ter passado por tudo o que eu já tinha passado, me perguntava: e agora? Sentia como se tivesse me perdido na trilha do mato no meio de uma planície descampada. Numa bússola com meu norte, minha sorte e minha morte. Afinal, desde que eu era menino eu já sabia que cada dia a mais também é um dia a menos. E vivi até ali. Aos trancos e barrancos, tomando todas as porradas que tomei, sendo quem eu sempre fui. Aprendendo a viver melhor, a sorrir, a não perder a paciência facilmente e a não me levar
tão a sério.
Então, estava eu voltando pra casa no fim de tarde, com o céu claro ainda. Pensava: esse é o primeiro dia do resto da minha vida. Então, fui descendo a rua, devagar e fui sentindo o coração apertar cada vez mais. Então cheguei em casa e vi o sol descer atrás dos morros. As idéias sopravam com a chuva e ventania dentro da minha cabeça.
E então eu ouvi a sentença. Recebi minha pena.
Minha pena. Não pena de dó. Nem de quem vai para o cárcere.
Eu soube que seria escritor.
Isso era não menos que uma prisão e não mais que a liberdade. Refém dos meus pensamentos, do vento, dos anjos e demônios. Livre de toda a censura e hipocrisia. Livre de todas as formas claras e obscuras de poder.
Pronto para mais um dia da vida eterna.

texto escrito por mim, Marcos Siqueira.

1 comment:

Anonymous said...

Fico feliz que tenha descoberta essa sina, ou essa pena, como prefere chamar. Essa dor aguda de alma que já escolheu, por vontade própria, se mostrar e morrer em palavras... se encher ou se esvaziar. Fico feliz tb, de ter participado só um pouquinho desse processo, reconhecendo o escritor nato que você é: sensível, humano, criativo, espontâneo, único. Adoro seu blog. Vou continuar lendo seus escritos. Sucesso e sossego! Para a alma. Beijãoooooooo