Wednesday, November 01, 2006

epíteto ao brilho apagado das estrelas ancestrais.

Aqueles olhos vidrados já sabiam de tudo muito antes daquele tempo do fim chegar. Da sua boca brotava o amargo do sangue, de terra e de dor. Era como se, de dentro do peito, a alma lhe quisesse deixar vazio o coração. E todas as suas entranhas contorciam-se com aquela agonia de ecos infinitos. Era dor da maior profundeza, das que vêm de dentro dos mais escuros abismos do ser. Humano.
Humano. Que nasceu de uma mãe e um pai. Que foi amado, que cresceu, que brincou, que caçou, que nadou, que pescou, que guerreou, que fluiu e que agora estava ali. Tão humano, tão mortal e tão finito quanto os estranhos senhores da morte. Estranhas divindades mortais. Que chegavam de longe. Que tinham a pele branca, que também tinham pai e mãe, que se cobriam de panos e que queriam o ouro. Humano.
Agora também sabia o que era o tesouro. O verdadeiro tesouro. Sabia o que era a força do amor e sabia também da outra força, vendo a humanidade, como então até ali conhecera, morrer amarga e seca. Como ele. Ali debaixo de um lindo céu azul. Em cima da sedenta terra marrom e seca, que agora bebia suas últimas gotas, tingida de sangue. Dos céus asas brancas e douradas cruzavam-se em danças do epíteto. Formavam desenhos, contando numa valsa o fim da inocência. De longe o carcará tecia com as parcas o seu tinido, cortando o ar carregado de morte.
E à profunda agonia finalmente cedeu. As cortinas se abriram. E ele pode lembrar-se de tudo mais uma vez, como se lembrava às vezes. Como naquelas vezes quando sentia a alma sair-lhe de dentro do coração com a fumaça que soprava pela boca, desenhando flores e formas no escuro do céu pontilhado pelas estrelas de seus ancestrais. Como quando já sabia ser tão fumaça quanto aquela fumaça da fogueira. E subia aos céus levando a consciência da terra dos mais profundos cantos do ser às mais distantes e altas constelações. Ia aos mais longínquos reinos do outro lado da grande mãe d´água. E sabia que eles chegariam. Que o fim chegaria. Que derramariam sangue em sacrifícios de consagração a si próprios, como se a todas aquelas vidas a oferta fosse compulsória. O sorriso se apagava no rosto das mais pequenas crianças. Os velhos entregavam-se à morte. Às mulheres era violado o templo do corpo para que se lhes sujassem a pureza de dentro. As almas dos guerreiros acendiam cada vez mais estrelas no céu, com a mesma velocidade e fogo com que saiam pelos furos das pedras mortais, rajadas do trovão das carabinas.
Ele sabia que aqueles grandes e estranhos pássaros brancos, que vinham em esquadras lá detrás da última linha de mar, eram um prenúncio de paz. Uma paz diferente. Resignada. A paz do espírito que chegava à mais clara e profunda compreensão do divino. Da sabedoria e da ciência. Que via seu corpo, seu povo e seu tempo ficando para trás de maneira tão violenta. Esmagados e singelos como uma pequena flor na beira da estrada do tempo. Humano. Parte da natureza. Onde nada se cria. Nada se perde. Onde tudo se transforma. Em fogo, água, lágrima, fumaça, sangue, terra e consciência. E paz. Pela consciência. Divina e eterna paz. Com ciência. Compreensão do astral superior.
Paz.
E daquele tempo que já não era mais, pouco ficou. De lá ainda dá para ouvir o fluir das águas do tempo do universo. As batidas profundas de consciência do princípio de tudo, do coração sagrado universal. Das estrelas dos nossos antepassados. E do coração de Tupã, a força da natureza.
E, um dia qualquer, hão de se lembrar de tudo que mataram da memória junto com aquele povo alegre, guerreiro, belo e tão natural. E aquilo que nesse momento se revelará aos povos, surpreenderá a todos não por ser exótico. Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto quando terá sido o óbvio.

* A sugestão musical já está bem explícita no texto. Cordel do Fogo Encantado e música andina também caem bem.
Foto:
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Texto escrito por mim, Marcos Siqueira.

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