De repente ela acordou. Não sabia onde estava, que horas eram e sentia-se assustada, como se algo muito grave tivesse acontecido. Levantou-se, abriu a cortina e o sol do meio dia feriu seus olhos com a realidade do que acontecia. Agora ela começava a lembrar aos poucos. Olhava no rosto daquele homem que dormia sereno naquela cama de hotel. Cada marca do seu rosto contava um pedaço de toda a história. Um sorriso de quem está sonhando com a mais profunda paz fez que ela se arrepiasse e sentisse medo daquela confirmação. Foi à bolsa e tirou um cigarro do maço amarrotado. Sentou no outro lado da cabeceira e fumava perguntando-se se era mesmo ele. Ele, de repente assim, daquele jeito tão misterioso tinha aparecido. Como se o véu do sonho tivesse sido levantado e agora ela soubesse. Tinha medo de ter certezas como aquela. Como poderia afinal saber se era mesmo ELE o homem de sua vida.
Nunca tinha acreditado em almas-gêmeas. E todas as pessoas com um pouco mais de maturidade àquela altura, até mesmo ele, já sabiam que isso era coisa de conto de fadas.
Lembrou de uma conversa qualquer, no restaurante com o pessoal do escritório em que alguém disse que isso não existe mais por que a vida moderna acostumou todo mundo muito mal. Tudo agora ficou fácil, rápido e descartável. Inclusive os relacionamentos humanos e os sentimentos. Fazia sentido agora... Continuava pensando em como continuava sem acreditar em almas-gêmeas e por isso tinha medo de olhar para aquele homem que dormia feliz de barriga para cima. Deus meu, pensava, mas será possível?
Pensou em como ele sempre fora uma pessoa singular. Atencioso, bem-humorado, romântico, bom e muito bom de cama. Bonito. Chamava atenção.
Mas ela não tinha ciúmes, ou pelo menos fingia bem até para ela mesma. Volta e meia perdia a paciência com ele. Ele sempre tão espontâneo e livre às vezes parecia ingênuo aos olhos dela. Agora, ali, sentada, de calcinha, com a velha blusa de rock´n roll dele, tragava o segundo cigarro e com os olhos bem abertos pensava em quanto tempo tinha perdido e quanto tempo ainda lhes restava. Agora ela sabia.
Ele estava ali deitado. A qualquer momento acordaria, olharia para ela e eles provavelmente se beijariam, como muitas vezes fizeram antes. Anos atrás essa história havia começado. E então, muito tempo depois, eles tinham se encontrado assim, de repente. Agora ela percebia quem ele era de verdade. Será que depois daquela noite, será que depois daquele tempo, daquelas mudanças, daquela vida vivida, ele ainda seria o mesmo? Não sabia o que seria deles dali pra frente.
Mas sabia que aquele era o homem que ela finalmente queria. Que era tão especial e singular como toda a pessoa nesse mundo é. Que tem seus defeitos como todos e qualquer pessoa tem. Mas foi ele que seu amor escolheu para amar. Ela o escolheu.
Ele era a sua alma-gêmea. E a cada novo dia, só por hoje e todo dia, ela o escolhe mais uma vez.
texto escrito por mim, Marcos Siqueira.
NOTRE
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Por que choramos quando um prédio se vai? Talvez porque ali havia
história, arte, cultura. Coisas que fazem parte de nós mesmo que não
admitamos. Que mexe...