Monday, March 01, 2010

Coldplay e o tal do roque enrow...



E não é que acabei indo no show do Coldplay ontem?
Na verdade, nem tava tão a fim de ir mesmo. Nunca fui muito fã deles e
o som nunca me animou muito. É como se ali não rolasse esse tal de roque enrow...

Aí, conversando com meu amigo Lau outro dia ele disse que valia a pena ir ver por que é uma superprodução gringa, outro nível técnico e tal...
Fiquei com isso na cabeça, mas achei meio bobagem, complexo de terceiro mundo...
Então ontem, em pleno domingão nublado e frio, às 15h na bucha, meu amigo e parceiro do rock Patinho, vulgo Luiz Henrique, me liga dizendo que tava comprando o ingresso no shopping:
- E aí, man? Vamo nessa?
- Porra, Pato... 300 tá foda... Pago não, rei! Nem sou fã desses xurumelas...
- Rapaz, é banda inglesa... Superprodução... Tem que ver!

E aí... click! Já viu, né? Eu que há alguns minutos atrás estava ouvindo Led Zeppelin e falando sobre como o rock inglês sempre foi muito mais foda que o americano e blá, blá, blá... Que no rock americano só tiro o Red Hot Chili Peppers, Nirvana e Pearl Jam.
- Ta bom, man! Já to fudido mesmo! Compra essa porra aí que eu deposito essa semana!

Aí foi pegar chuva pra andar até o metrô da Cinelândia. E tome fila! E tome olha a capa de chuva é 5 real! E tome ó o ingresso na mão! E tome mão boba pra revistar você! E tome cotovelada também com cerveja a 5 real! Ok, ok... It migh get loud! Muuuuuu!
Tem gente que paga até mais do que eu, 500 contos, pra ser tratado como boi. Que merda.

O show da Vanguart já tinha acabado e estava tocando uma menina da Bat for Lashes que não é bem o que eu chamo do tal de roque enrow... Mas vamos nessa...
Aí Patinho me vem com uma teoria que seria corroborada logo mais, a respeito das bandas de rock inglesas:
- Man, a Inglaterra colonizou, na verdade, todo o mundo ocidental. Sempre foi assim. Dominação pelo comércio, pela língua, pela cultura... Quando a gente ouve o british rock a gente se sente em casa.

E eu acho que ele tem memso razão. Além do que Beatles é Beatles sempre! Os caras inventaram isso tudo que está aí hoje. E o Led Zeppelin, no duro, inventou o rock´n roll – em inglês mesmo. E ponto.

Aí entra o bom mocinho Cris Martin e a sua trupe alada... O figurino deles parecia uma reciclagem do Sargent Peppers? Aquela coisa de casacos militares de prega, coloridos com ombreiras... Um quarteto e coisa e tal... Hum...
E as câmeras (que aliás tinham uma edição pré-programada muito de fuder) pegavam closes na mão do cara tocando o piano. E ele tava cheio de pulseirinhas coloridas, meio Robert Plant demais também...
Aí começou a doideira, né? Sobe a fumaça...
Eles tocam Yellow e, de repente, uma centenas de balões amarelos gigantes estão pulando sobre o enorme público da arena da praça da Apoteose (nem sei quantas pessoas assistiram esse show). E todo mundo fica meio bobo com todo aquele espetáculo de vídeo em telas enormes de alta definição, com imagens hipnóticas. Um monte de crianças querendo meter a mão nos balões e fazer tudo ficar mais high...
As músicas em si não tinham, deveras, lá o peso do som do Led Zeppelin, mas tava bem legal assistir a execução ao vivo. Bons músicos! O baterista batia forte mesmo.
A introdução de “In my place” lembra até a bateria de “When the levee breaks”...
Um outro momento muito foda foi quando o cara pediu que todo mundo sacasse seus celulares, acendendo o painel... Pô! Ficou de fuder....
Aquela platéia toda e todos aqueles recursos visuais... Luzinhas azuis em movimento caótico harmônico... Um negócio meio Avatar. Todo mundo em transe, balançando em volta da grande árvore da vida.
Depois ainda teve, em outra música, uma descarga de toneladas de borboletas de papel coloridas... Ficou bonito mesmo.
Guardei algumas no bolso e comentei com Patinho que se eu fosse uma menina, eu colava no meu diário.

E pra fechar o show de uma maneira que não poderia resumir nem caricaturar melhor o evento, um show pirotécnico, literalmente. Pra fazer frente com o réveillon de Copacabana!
Então, no fim das contas, pra quem nem tava a fim de ir, foi um espetáculo pra inglês ver! Já o tal de roque enrow.... Acho que esse ficou perdido em algum lugar dos anos 70...

Friday, February 05, 2010

follow me!

http://blip.fm/invite/potatoblogmusic

Tuesday, January 05, 2010

O Bêbado e o Equilibrista

Abrindo a porta do último andar, onde se esqueceu em casa quando já ia sair, apressado dá com uma cara assustadora. Assustadora sim, mas não estranha. Conhecida, que de tão conhecida amedrontava.

Fechando para descer ao térreo, o lugar onde lembra no fim todos vão parar, sobressalta-se com o irromper de um olhar apressado, que de repente passa a assustado. Sobressalto sim, mas não susto. Há quanto tempo não via aquele olhar?

Entrando corredor adentro, em seus passos da vida apressada, meio vazio ainda nas suas lembranças, esquece logo o susto. O susto, mas não a cara. Cara lembrada, que de tão estranha não a estranhava.

Saindo elevador abaixo, ali parado na vida espelhada, meio cheio já das suas memórias, lembrando do rosto, que ali mora. Mora, mas não paga. Memória, entre as tantas que o rosto lhe enrugava.

Vivendo a morte mais perto a cada acordar, não dorme no ponto, nem cai mais no conto. É tão pouco mês pra tanta conta que até fica tonto. Tonto, mas não cai.

O equilibrista bêbado, bambeando fora linha, só, a ele mesmo trai.

Morrendo a vida mais longe a cada adormecer, desperto, esperto, sereno pronto para o encontro. É tanta dor pra tão pouco corpo, que já fica pronto. Pronto, mas não sai.
O bêbado equilibrista, floreando seu fim de linha, vai vivendo. Vai...

Rápido é o passo, desvia para não ver. Sem olhar pra trás, ou o pela frente, passa de repente e não volta mais. Ausente, some nesse mar de gente, que nasce, vive e sempre morre crente de que tudo acaba.

Vazios de sentido são os olhos. Na maré baixa, mareiam com vento que sopra o que não volta atrás. Presente, contempla, brilha sem se apressar como toda essa gente, onde todos vão parar.

Tuesday, December 01, 2009

a primeira dose

E lá estava eu. Finalmente eu ia saber de tudo. E ela também estava lá. Eu tinha medo. Eu tomaria a primeira dose. E não sabia qual seria o resultado.
Era cor de terra. Coisa de dois dedos. O cheiro não era bom. Bebi feito quem bebe remédio. Não senti o gosto. Sentei.
Demorei um pouco para sentir alguma coisa. Olhava para a cara daquelas pessoas e tudo me pareceu tão estranho, tão sem sentido...
Mas então uma música de outra dimensão rasgou o ar, apunhalando o mais transcendental e profundo eu. Perfurou.
E eu vi.
Vi arabescos indianos se descortinando na minha frente. Ouvi. Aquela voz dizendo "aí está tudo que você queria ver e saber". E o filme da minha vida começou a passar. Desde antes de eu nascer. Quando meu pai e minha ainda esperavam para saber se eu seria menino ou menina. Vi o amor deles por mim, quando nasci. Senti. Lembrei também de como eu amava aquela professorinha de olhos verdes que me levava para a casa dela depois das aulas, de tarde. Eu era muito pequeno, devia ter uns quatro anos.
Tia Viviane. Fui guarda de honra no casamento dela. Lembrei das minhas brincadeiras, das musiquinhas, dos meus amigos. Reais e imaginários. Vi que os imaginários não eram tão imaginários assim. Lembrei de cada momento. Cada gesto, cada cheiro. Cada sorriso de menino. Cada lágrima. E chorei.
Chorei muito. Chorei alegrias. Chorei tristezas. Chorei minha alma. Aquela era a minha vida, a voz dizia no fundo da minha cabeça. A consciência. Tive medo. Fiquei tonto. Tive medo daquela força estranha.
Levantei da cadeira meio cambaleante e fui até um canto para vomitar. Vomitei minha vida e morri.
Desmaiei por alguns segundos. Pelo tempo de algumas encarnações. O suficiente para olhar nos olhos daquele índio boliviano de cabelos brancos, que me observava de cima com aquela cara de pajé, e, ainda deitado no chão dizer: "Já entedi. É tudo uma coisa só!". Então toda aquela gente se dispersou e ele sorriu. E eu também. Tudo uma coisa só.
Que estranho. Que louco. Que mágico!
Todos aqueles conceitos filosóficos, místicos e religiosos, que antes eram só conceitos vazios de percepção e díspares entre si, se fundiram numa só compreensão. Sim. Eu já sabia.
Lembrei de tudo.
Lembrei do amor de minha mãe. De como tantas vezes eu fui um filho muito difícil. Que lhe causou alguns sofrimentos. E chorei. Como eu amo minha mãe, constatava a voz da minha cabeça. Chorei de alegria por ter uma mãe. Por ter a minha mãe. A minha mãe que eu quero tão bem. Que tem tanto amor. Amor. Mãe.
Lembrei do meu avô. Sempre tão puro de coração. Tão ingênuo e tão carente. Senti que nem sempre tinha sido tão bom com ele quanto ele sempre foi comigo. E chorei. Meu vovô. Te amo meu vovô, eu chorava. De saudades, de tristeza, de alegria, de amor. Minha vó e meu vô.
Meu pai. Meu melhor, meu grande amigo. Meu ídolo. Meu herói. Meu exemplo em muitas coisas daquela vida que eu tinha vivido até então, naquela tarde azul de domingo de lua cheia de abril de 2002.
Te amo meu pai, pensava eu sorrindo feliz.
Meus irmãos. Meus amigos. Minhas namoradas. Meus primos. Meus colegas...
Um amor profundo e incondicional por todos eles. Meu coração fluía sangue e derramava todo o seu amor de cima daquele galpão. E impregnava a terra, subia pelas árvores, exalando nas plantas, nas folhas e frutos. Meu coração fluía todo o AMOR do universo. Um. Universo.
Tudo era tão vivo, tão pedaço desse AMOR, quanto aquela bonita mangueira que eu olhava sentado no chão daquela tarde. Os pássaros cantavam as mais belas melodias do céu.
Ainda era jovem. Com mais uma vida inteira pela frente. Uma tinha ido embora. Tinha mais umas seis novinhas em folha.
E o filme ainda rodava. Tinha um charme de musical dos anos 30. Uma nostalgia de Carlitos. E a cor da atmosfera era azul, quase lilás.
Então ela apareceu para mim pela última vez. Ela, a primeira das que vieram e virão, aparecia na minha frente pra se despedir. Ela me dava um beijo no rosto, saltava do carro e subia as escadas, me dando tchau com aquele sorriso de menina. Sua alma me dizia que estava tudo bem. Cada um de nós seguiria seu caminho. E dizia pela consciência que tínhamos sido gotas do AMOR universal um para o outro.
E por toda vida continuaríamos sendo gotas, rios e marés, até voltarmos a ser mar.
O AMOR. Ela disse adeus. Há Deus. E eu sorria, livre da prisão. Mais leve. Feliz.
E como não sentia mais o peso da saudade no coração perguntei para a rezadeira o que era apagar. Ela pensou, pensou e disse:
- Meu filho, nessa vida a gente nunca apaga nada. Tá tudo escrito no tempo e nas estrelas.
Sim. Eu sabia. E o filme continuava rodando. Agora eu lembrava de uma outra vez que eu tinha morrido.
Naquela vez eu estava deitado em cima de uma mesa, numa casa pequena e humilde do interior. Um lençol cobria meu corpo. E havia velas. E gente. Muita gente.
As pretas velhas, rezadeiras, cantavam encomendando a alma daquele outro preto surrado da vida que ia subindo ao puleiro das almas. E aquela cantoria, que não tinha tempo nem espaço, também estava ali. Naquela tarde tão azul. Em que eu olhava para a mangueira e pensava no que John Lennon tinha feito pela compreensão da paz pelo insconsciente coletivo mundial. A paz. A vida. As vidas. Um amor. Uma vida.
E o filme a la cinema paradiso ia descendo na bobina. Agora eu me via ali. Anos depois.
Numa tarde ensolarada. Um pouco mais velho. Com cabelos grisalhos, de óculos, camisa de manga amerela e um sorriso senhor de uma certa confiança e maturidade. Mais sabido. E me dizia muitas coisas.
Ele. A voz. Eu.
E aquilo tudo era muito mágico.
E a mágica ia se apagando com o pôr-do-sol. Ia ficando mais branda. O mar de AMOR ia se diluindo no oceano do mundo real.
Mas qual seria a realidade? Que nova pessoa era eu? Quem era aquele homem que nascia dentro dos olhos de um menino, recém saído da adolescência? Eu ainda não sabia. E continuo não sabendo. Ele nunca me disse.
Às vezes descubro alguma coisa nova quando não pergunto demais.
A noite caia em cima do sol, manto de AMOR. E a lua, resplandecia toda a prata astral.
As cigarras cantavam ao horizonte de aquarela, que ninguém jamais pintou. E o enxame de estrelas dizia que o dia terminou. A tarde terminou. Aquela vida terminou.
Agora era outra. Eu tive medo.
Mas estava salvo. Pelo menos por enquanto.

Monday, November 30, 2009

Abro pra você a porta de casa. Convidaria-te a entrar na minha vida. Se eu soubesse nela onde fica a porta, a janela, o pé direito e o prumo.
Um capitão pirata, aventureiro sem rumo. Um barco a deriva, um porta-aviões esperando alguém pousar. Um mata borrão sem moscas, muriçocas ou prazo de validade.
Te contaria a história do meu pé esquerdo e de todas as sortes de venturas e ventos que já passaram pela minha cara. De moto, de avião ou caindo de algum lugar de dentro de mim. A montanha e a roleta na Rússia seriam o nosso destino predileto.
Nas estepes daqui a coisa fica preta, mas a gente não passa frio. Somos corações de portas de casas abertas, da gente da nossa terra, da lama e do caos do Brasil.

Wednesday, November 18, 2009

Cuidado comigo

Cuidado comigo
Não sou flor que se cheire
Sou desses botões frágeis e invisíveis
Pequeninos e raros, instáveis no campo depois
Da chuva em poucos instantes abro o peito ao sol
Duro o dourado sorriso de veludo da abelha, murcho e me ponho
contigo na memória das cores, formas e perfume.
Das pequenas flores
e dos amores.

Amor de retrovisor



Na minha cara há lentes oblíquas, por vezes obtusas,
Daqui vendo distorcidos os botões da sua blusa
Abrindo-se aos seios do infinito circular
Mas não voltam atrás os beijos que um dia te dei
Bonitas são agora as nossas sombras passeando
Na rua de mãos dadas sobre os cacos de vidro.

Thursday, March 26, 2009

Palavra (en)cantada

Encantarei com a palavra.
Nem mais, nem menos.
Um tanto. Só.
Cantarei o verbo, plantarei o canto.
Findarei no princípio de tudo. O encanto.

Pelo dito que passeia no ar.
Pelo nome que não há língua que o possa pronunciar.
No sol acende o som antes de se fazer, ser
palavra que a lua mingua no pôr
e a língua lava em pranto na cantiga de entardecer.

Me encantando com a palavra.
Sem mais nem menos, enquanto só.
Cantando o verbo, plantando o canto.
Buscando no princípio de tudo o encanto.
Infinito tempo circular.

Passado o presente do futuro,
imperativo se faz conjugar
o surdo silêncio que retumba dentro do peito.
Fala todo o tempo sem chamar fora,
calado pelo princípio, encantado pelo efeito.

Encantei-me com a palavra.
Já não há mais, nem há menos
Há um tanto. Um só.
Cantei o verbo, plantei o canto.
Encontrei no princípio de tudo o encanto.

Friday, March 20, 2009

All we need is love!

Navegando nessa maré de redes sociais, encontrei uma novidade que parece interessante.
É o http://www.yubliss.com/
A proposta parece ser a de um divã coletivo, onde as pessoas podem usar condinomes e compartilhar suas histórias - reais ou não - relacionando-as a mitos gregos, troianos, velhos ou “mudernos”.
Não sei se a proposta cola, nem quais são os fins comerciais. Mas, como curioso antropológico, dei uma checada.
Achei nos mitos do site uma definição interessante - apropriada para esses dias em que cada vez mais a união entre as pessoas é convocada - do mito romântico pelo filósofo Sam Keen.
Fiquei pensando a respeito do número cada vez maior dessas comunidades (facebooks, orkuts, twitters…) que conclamam as pessoas a uma certa união, quase organicamente necessária nesses tempos de incertezas.
Como se fossemos peixinhos, unidos num cardume que fica mais forte e ágil na fuga contra uma baleia… ou abelhas em redes sociais…
Ou como sociedade agindo contra e a favor de todas essas marcas e organizações.

Enfim…
Como diria John: “all you need is love… love is all you need”.

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O mito do amor romântico - por Sam Keen


Descrição
No mito romântico, o amor é a força misteriosa que surge do nada e nos traz felicidade. A incrível porcentagem de 95% de todas as referências ao amor feitas pela mídia moderna baseia-se na promessa de relacionamentos românticos e nos problemas deles derivados. Na visão de Hollywood, os apaixonados são jovens, lindos e predestinados uns aos outros, apesar de precisarem passar por muitas adversidades antes de conseguirem a feliz realização de seu amor.

Origem
A obsessão moderna pelo amor romântico pode nos levar a crer que as coisas essenciais da vida sempre foram um beijo, um suspiro e um toque da “velha magia chamada amor”. Mas o mundo nem sempre reverenciou dois amantes dessa maneira cinematográfica. O amor romântico tem sido a exceção, e não a regra. Na maioria das sociedades pré-modernas, os casamentos foram “arranjados” por motivos práticos e políticos. Foram os cavaleiros e trovadores da Idade Média que inventaram o código medieval de conduta para namorados e idealizaram o romance, mas exclusivamente para a elite. O romance para as grandes massas surgiu com o nascimento do capitalismo e do individualismo, alcançando um nível febril entre consumidores modernos de novelas e revistas que versam sobre o amor falso e verdadeiro, cheias de receitas rápidas para a intimidade e conselhos para os perdidamente apaixonados. A necessidade de novidades relacionadas ao reino de Afrodite é constante e insaciável. Pesquisas de opinião, questionários e indagações intermináveis sobre nossos hábitos eróticos estimulam a crença questionável que temos de estar aprendendo novas técnicas e progredindo no jogo do amor.

Impacto
Nossa fixação míope por romance e sexo encoraja uma teoria de “atração fatal”, que nos transforma em vítimas que “se apaixonam” e “se desapaixonam” em razão de química ou que não conseguem se apaixonar em virtude de má sorte, abuso sofrido na infância ou famílias desestruturadas. Isso estimula a crença vã de que um relâmpago erótico vai nos atingir diretamente vindo dos céus e, espontaneamente, enriquecer e dar sentido às nossas vidas.
Apesar do profundamente enraizado desejo ardente por romance, quase toda a nossa energia é devotada no sentido de conseguir sucesso, prestígio, dinheiro e poder, e quase nenhuma no de aprender a arte de amar. Quando limitamos nossa busca por amor a uma ligação de somente duas pessoas negligenciamos o âmbito maior no qual precisamos praticar o amor – a família, a vizinhança, o meio-ambiente, a natureza, a comunidade de seres não-humanos sensíveis que incluem pássaros e feras.
O erro das teorias modernas sobre o amor é se dedicar exclusivamente a dois seres individuais solitários que se unem para formar uma ilha em um mar hostil povoado de outros seres anônimos e de vizinhos desconhecidos. A maioria das teorias pré-modernas considera o amor como um elixir que gradualmente dissolve as fronteiras que erigimos entre nosso próprio ser e os outros, progressivamente impulsionando o ego para além do individualismo e do santuário da intimidade, na direção de uma comunidade cada vez mais inclusiva.
A conseqüência mais séria gerada por nossas preocupações com o jogo de achar nossos pares é nos mantermos sempre voltados especificamente para a pergunta errada. Se eu perguntar “como posso encontrar meu amor verdadeiro” antes de perguntar “como posso me tornar uma pessoa carinhosa?” não vou conseguir adquirir as qualificações necessárias para me tornar um ser humano carinhoso – capacidade de ouvir, de ter empatia, de sentir compaixão, de cuidar do próximo, de ter comprometimento, etc. O amor é uma arte que precisa ser desenvolvida e praticada por toda a vida.

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Fiquei achando que faltava uma definição mais precisa sobre a inteligência “amorosa” da união coletiva. Já li em algum lugar que existem teorias de físicos para explicar melhor o funcionamento desse sistema que é chamado de multiagente:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_multiagente

Penso que a relação entre os sistemas multiagentes e o mito do amor romântico é de oposição bem inversa mesmo, como diz o texto do Sam Keen. Na verdade, temos participado na web de uma mudança de paradigma e de convivência. Se já não abrimos as portas das nossas casas como antigamente, estamos abrindo mais as nossas janelas…virtuais!

Então, como os enxames, cardumes e pixels randômicos pré-programados pelo media player, todos nós - enquanto seres humanos interconectados em redes sociais - reagimos a estímulos, ameaças, sons e etc.Reagimos também como consumidores, dando crédito ou descrédito a uma marca…Enfim, interligados, somos multiagentes. Espécie de formação ergonômica que, unida, defende-se melhor. Os generais romanos e suas formações de escudos já dominavam bem essa ciência…Essa idéia é bem diversa do mito do amor romântico um-a-um e nada mais.Passa mais perto de uma compreensão mais universal, de junção quase funcional e, talvez, amorosa da sociedade.Existem teorias funcionalistas e darwinistas de sóciologos como Herbert Spencer e Piotr Kropotkin, que no começo do século já enxergavam que a sobrevivência social depende de uma espécie de mutualismo num organismo coletivo.


Então é por aí…
Posso ter feito uma viagem longa, e penso que esse seja provavelmente o caminho…Uma sociedade digital amorosa e multiagente… hehehhe

E a propósito desse assunto:







Thursday, January 24, 2008

Monday, January 21, 2008

Segundas intenções para terceiros.

por Marcos Siqueira

As Farc são classificadas como um grupo terrorista pelos governos da Colômbia, Estados Unidos e União Européia.

Na semana passada a Casa Branca reforçou na OEA sua decisão de manter as Farc na lista de grupos terroristas.

Na mesma semana, em pleno auge das declarações do conflito diplomático entre Colômbia e Venezuela, Hugo Chávez disse estar sendo ameaçado de morte pelo governo norte-americano e colombiano.

Há muitos anos, quando Fidel dizia que estava sendo ameaçado de morte, também era tudo bobagem, maluquice e demagogia...Recentemente, com a divulgação de arquivos da CIA, foi provada a veracidade da fala do cubano e muitos dos planos esquizofrênicos do governo norte-americano agora já não podem mais ser considerados mitos...

Em "As Veias Abertas da América Latina" Eduardo Galeano nos mostra como nossa história se repete em ciclos há séculos.

Evo “Imorales”, ex-plantador de coca e primeiro presidente indígena da Bolívia, diz que sua nova Constituição vai ajudar a compensar os séculos de dominação da elite branca. Vem, naturalmente, enfrentando cada vez mais resistência por parte dos governadores das províncias ricas do país, que por sua vez estão altamente associadas às forças armadas. Estas, por sua parte, estão associadas a regimes ainda mais fortes. No caso, a Bolívia é vassala da Venezuela.

Mas e no caso da Colômbia? Seriam os Estados Unidos? A União Européia?Quem intermediará esse conflito? A ONU, com seus pareceres fundados em "laudos" alimentados pela CIA? A rede de inteligência - ou seria esperteza? - hoje culpa a Al-Qaeda ( que nos anos 80 eram os heróis, “os cavaleiros do deserto” que combatiam os soviéticos em Rambo III ) e aliados de um líder tribal paquistanês pelo assassinato de Benazir Bhutto. Afinal com o preço internacional do barril de petróleo batendo picos de U$ 100 é preciso mesmo abrir novas frentes de negócio...

Grande parte dos colombianos temem as Farc, muitos destes por terem parentes sequestrados pela organização ou simplesmente por considerá-la um perigoso "grupo terrorista". A menção do fato proporciona estabilidade e uma certa popularidade ao presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, que usa e abusa da política de combate à guerrilha. Qualquer semelhança com a popularidade obtida por Bush depois do nine eleven não terá sido mera coincidência.

Nesta semana, Uribe esteve na França para pedir apoio ao presidente ex-militar Sarkozy para o combate ao “terrorismo”.

Assim não parece tão absurdo quando o nosso histriônico Hugo Chávez abre a boca cavalar dizendo que "... lo mayor terrorista del mondo se llama Zorze Dóbliu Bussi..."

A realidade dentro dos feudos das Farc é ainda mais dura. Além da grande população mantida há anos como refém, estima-se que cerca de 20% dos combatentes tenham menos de 21 anos. Mais ou menos 3.500 combatentes adolescentes.

Por que começar a vida na guerrilha e bem no meio da selva?Uma escolha ou uma contingência? O que isso tem em comum com o problema daqui do Rio de Janeiro? Ou Angola? Ou Afeganistão, Paquistão, Timor-Leste...

E Israel? Onde Bush, um dos seus maiores aliados, enfim pisou como presidente?
O maior giro do Buschinho pelo Oriente Médio incluiu seis países e os territórios palestinos. Debaixo do braço, um plano de paz para israelenses e palestinos. Uma oportunidade de limpar o nome para entrar para a História?

Não mesmo! Nem pensar!
A viagem virou piada por todos os EUA e em vários outros países. As gracinhas refletem o jeito Bush de ser. Gafes, situações constrangedoras e inusitadas (como ficar brincando de cavaleiro Jedi com a espada dos emires) e um certo olhar vesgo e idiota de "o que estou fazendo aqui mesmo?".

E se ele sequer sabe o que está fazendo em Israel, como saberá o que está sendo feito dentro das fronteiras mais vigiadas do mundo? Os belos e concretos muros de Roma permanecem espreitados pelos bárbaros do terceiro mundo. Os terceiros.

Lá dentro as pesquisas têm demonstrado uma ampla frente de preferência pelos democratas Hillary Clinton e Barack Obama.Duas opções. Uma mulher que além de ser uma buarquiana mulher de Atenas, declare-se herdeira intelectual de Simone Beauvoir.O outro, Obama (sem trocadilhos com Osama ) um bonachão no estilo Clinton de ser, não toca o saxofone, mas tira uns grooves no baixo.

Por que será que eles são mais populares? Talvez o público pós protocolo de Kyoto rejeite os republicanos. Num vídeo que circula pelo youtube, o candidato republicano Mike Huckabee compara a prática homossexual à bestialidade...

Também a recessão de lá parece que não veio para brincar. "Quem casa quer casa", já dizia minha avó. E no final da história quem levou o calote foram os banqueiros americanos. De onde é que eles vão tirar esse prejuízo? Que tal de um lugar muito grande, com muita mata, muita água e bem barato?

E enquanto isso, no terceiro mundo...

Hoje, na Amazônia, a posse de terras é dos grileiros. Cerca de 90% dos desmatamentos é feito por grileiros... Os corte de madeiras ilegais, as toras que descem, ou sobem rios, atravessando fronteiras d´além mar guardam surdos segredos a respeito dos seus compradores. E para combater esse mal, a cada dia criam-se novas ONGs internacionais de responsabilidade sócio-ambiental cheias de boas intenções que não param de estudar as plantas e os insetos para o "bem da humanidade".

Quando o presidente Lula criou um ministério de Ações de Longo Prazo, ninguém levou muito a sério. Mas o estabanado ministro Mangabeira Unger está se mostrando muito empertigado na função e, também na fatídica semana passada falou sobre a elaboração do Plano Estratégico Nacional de Defesa e da sua proposta para promover o desenvolvimento econômico da Amazônia. Com idéias dos anos 70 - nada em comum com a América Latina dos caudilhos - Unger pretende salvar a Amazônia com a atividade de mineração - seria outra Serra Pelada? - e pecuária para subsistência familiar. A pecuária em grande escala é apontada por ele como um dos maiores vilões da floresta. Sério? Que descoberta!

No Pará, com uma comitiva de 40 pessoas, lembrando a excursão de férias promovida por deputados amazonenses para um "estudo de viabilidade econômica" de exploração turística do rio Negro, Unger reiterou que o governo está comprometido com a "reafirmação inequívoca da soberania brasileira na Amazônia". Segundo ele, além de despertar a atenção e a pressão mundial, a Amazônia deve ser encarada como um laboratório para que o país desenvolva estratégias inéditas de desenvolvimento.

Talvez um grande e inédito laboratório seja transpor as águas da bacia amazônica para a região do semi-árido, salvando o rio São Francisco, como deseja o nosso ministro de Ações de Longo Prazo...

Para não sermos a bola da vez do terrorista "Zórze Dóbliu Bussi" precisamos abolir duas idéias muito erradas a respeito da Amazônia. A primeira é mantê-la como um parque, uma disneilândia de terceiro mundo com ingressos promocionais para a humanidade. A segunda é permitir sua exploração indiscriminada. ONGs, ONU, CIA e NASA poderão nos salvar da obtusidade?

E cá estamos nós. Brasil. Bola da vez ou possível alvo? Sujeitos às crises da bolsa e do bolso. Nós, o motivo da "crise diplomática" entre Colômbia e Venezuela, na mira das bombas vesgas do "Bussi".
E agora? Quem poderá nos salvar?
O Chapolim Colorado ou o Chavéz?

bens de consumo.



Que bem será que isso faz?


"Nós sofremos porque o nosso querer particular entra em choque com o querer do mundo. "


Arthur Schopenhauer.

Tuesday, January 08, 2008

cárcere do tempo.

Dentro de uma prisão toda e qualquer aflição torna-se urgente.
Urgente como cada momento em que alguém morre.
Morre alguém a cada momento.
E também nasce.

No cárcere das horas, o tempo escorre devagar como um líquido denso.
Um mel adstringente, contaminado de fel, vertido por um cantil de bico muito fino.
Mais difícil do que um camelo passar pela ponta de uma agulha. Ou tão óbvio quanto um rico que não entra nos reinos dos céus. Porque lá já está.

Tempo sobre tempo. No tilintar das moedas acumuladas.

Num escritório, com a cabeça apoiada sobre os braços cruzados na mesa, dá pra ouvir.
Toda a eletricidade que nos rodeia em monitores, teclados e ar-condicionados .
O imenso campo de força magnético do tempo e do espaço.
Os elétrons e o tempo não param. E vêm de longe. Lá dos confins do além.
Uma casa de força central e poderosa que nos prende e nos curva às suas leis da física e continuidade.

Um rompimento na barreira faz-se necessário.

Thursday, January 03, 2008

Na Bahia nada se perde. Tudo se transforma.

Nesse fim de 2007, lá em Salvador, num domingo de sol, quando estava indo pro caruru de aniversário de Gustavo, fiz uma contra-mão lá na Barra e Canela pra buscar Pedro e Graciano.
Na volta pra a Pituba, Pedrão veio contando que foi dar uma corrida de manhã e passando pela praia internacional do Porto da Barra viu uma cena pra fechar o ano e resumir o espírito de mais pura baianidade. Disse que tinha cruzado com um guardador de carros olhando pro chão e resmungando:
- Pórra, véi! Tá foda! Tem uma cara que eu não encontro nada. Não encontro porra nenhuma nesse chão... Tá foda! Nenhum objeto... Nem uma moeda...

O incrível é que, de verdade, isso resume um forte aspecto psico-cultural da baianidade.
É um traço muito marcante no nosso povo o jeito de viver "cada dia a seu tempo"... Cada azar a cada azar... e cada sorte a cada objeto no chão. Nada a perder.

À noite, não tinha ninguém livre ou disponível para sair com um pseudo-turista caribano ou baianoca. Então, entrei no carro e fui dar um rolé pela orla. Olhar a lua, que tava bem cheia.
Fui olhando as praias, matando a saudade do mar da Bahia, e quando cheguei lá em Itapuã vi umas pessoas de branco com velas na praia, aí pensei:
- Oxe, que é isso? Ainda nem é natal e já tão comemorando o reveillon?

Desci para olhar. Era um povo de candomblé.
Resolvi chegar mais perto para decifrar aquilo, que nunca tinha visto antes, assim tão de perto.
Vi umas mulheres abaixadas, de branco, cantando pontos, chamando cavalinhos e pomba-giras.
No meio, um pai de santo embriagado, dançando cambaleante.
De repente, do nada, ele saía correndo e se jogava no mar. Aí vinha uma das mulheres de branco tira-lo de lá e recebia os cumprimentos do grande Ogum, senhor dos mares.

A noite estava linda! Muitas estrelas no céu. O luar resplandecente iluminava tudo, para além das chamas das velas. Aquele auto de natal parecia coisa de filme. Uma cena bíblica talvez.
Mas senti ali uma energia muito forte. Estranhei.

No sábado, na praia, comendo um caranguejo (quanto tempo sem comer caranguejo!) tinha comprado um “contregum” com um artesão de rua, um velho de barbas brancas. O “contregum” é uma espécie de amuleto, feito com um cordão, pedrinhas e um búzio para espantar os espíritos, os “eguns”. Daí vem o contra - egum.
O velho, apesar dos poucos dentes tinha um sorriso contagiante.
Mostrou uma pasta com alguns desenhos seus e disse que havia estudado no museu de arte moderna.
Sonhava em um dia fazer uma exposição. O nome dele, curiosamente, era Carlos Chagas.
O nome é o mesmo do epidemologista brasileiro que caracterizou a doença que ataca o coração e o sistema nervoso.
O velho disse que quando fizesse sucesso mudaria seu nome para "Carlos Da Vinci".
Ele era bem velho, mas acreditava nos seus sonhos juvenis e tinha um brilho no olhar quando falava disso. Aquele brilho que só as crianças e os loucos têm.
Um santo remédio para os males do sistema nervoso e do coração.

Então, no meio daquele auto de candomblé, com meu contregum no pé, saí no contratempo, gingando capoeira, sem dar as costas. Afinal, nunca se sabe... Para o desconhecido, é melhor fechar o corpo.
Não quero eguns andando atrás de mim.

Continuei meu passeio noturno e fui parar na frente de um parquinho de diversões de Itapuã.
Resolvi descer pra tomar um caldo de cana.
Parei pra ver os brinquedos e dois molequinhos me pediram pra pagar um ingresso pra eles.
Falei que só pagava se eles brincassem no bate-bate comigo.
Me diverti muito. Enquanto descia a porrada no carrinho dos meninos, me desviava que era uma beleza dos outros. Depois, ainda fomos na roda gigante. Não consegui parar de olhar a lua.
Depois paguei um acarajé da Cira para eles.

Aí, daqui a pouco, o mais esperto, um neguinho de seus 12 anos, vira pra mim e fala assim:
- Eu queria pedir um favor pro senhor, Daqui a pouco tenho que levar dinheiro pra casa e hoje não consegui nada, por que fiquei brincando e não guardei carro.

Fiquei meio mordido com aquilo... Mas não ia dar dinheiro. Aí falei, rindo pra ele:
- Se saia, rapaz! Não sou nem senhor, nem sou seu pai! Não vou te dar dinheiro zorra nenhuma! Vai estudar pra trabalhar e ganhar o seu!

Continuamos brincando e conversando. Eles me contando que queriam ir no festival de verão pra ver Ivete e Chiclete. O menorzinho disse que tinha um tabuleiro de doces que os pivetes de Itapuã bateram nele e tomaram tudo. Mas aí veio o "Se Liga Bocão" (um desses programas sensacionalistas, tipo Ratinho) e deram outro pra ele. Disse que agora tava jogando capoeira e não mais “comer reggae” de malandro nenhum.
Mas a malandragem com a qual ele precisava lidar, era a dele mesmo...

Uma noite divertida... Dessas que só se vê na Bahia.
Fiquei aqui pensando em como é importante para qualquer criança poder brincar e ser ela mesma.
Não só as crianças. Mas também os velhos. E os adultos.
Bom pra o coração e sistema nervoso.

Cada um com seus sonhos, à sua maneira baiana de ser. Cada tempo a seu tempo. Cada sorte a cada sorte.
Um menino, que apesar da dureza, não deixa de ser criança e querer brincar. Que pode mudar tudo, com todo o tempo pela frente e nada a perder.
Um guardador de carros, para quem o que vier é lucro. Tudo para achar e nada a perder.
E um velho, sem tanto tempo assim, e, também, com nada a perder. Inclusive o tempo.

Monday, December 03, 2007

A ilha.



E aqui estou de novo nesse não-lugar. Arrastado de repente por um cheiro de manhã,
de resto de sonho. A olhar o verde dourado de uma ilha no outro lado da baía.

A mensagem o vento traz assobiando num beijo.

As borboletas pulsam e cintilam o ritmo descompassado que o canto dos passarinhos calmamente orquestra.

E nessa manhã fica o cheiro. De perfume, do sorriso de flor.
Ali, de novo, no não lugar. O tempo que passou, passará e é lugar nenhum.
No verde dourado da ilha mora a promessa de maresia, como que numa garrafa que cruzou oceanos para trazer respostas.

E lá está ela. Da minha janela dá pra ver seu lado dourado. A ilha.

Sunday, November 25, 2007

Cordeiros para leões ou leões para cordeiros?

E então Deus criou a vida. E os primeiros seres - os unicelulares, os procariontes, os eucariontes, as esponjas, os autótrofos e os heterótrofos.
Desses últimos, a diferença é que enquanto um busca o alimento no ambiente o outro consegue criar das condições externas energia para si.
São sistemas de diferentes organizações celulares. Diferentes conceitos de gestão, economia, cooperação e finalidade.

O heterótrofo depende sempre de novas fontes e recursos para dar continuidade ao seu ciclo. É um conceito econômico de déficit. Sempre há necessidade de consumir.

Contudo, há uma hipótese que diz que os primeiros seres vivos eram autotróficos. Os estudiosos da origem da vida descobriram bactérias em ambientes inóspitos, como fontes de água quente e vulcões submarinos; essas bactérias produzem seu próprio alimento a partir de substâncias simples e de energia obtida em reações químicas inorgânicas.

Então esse sistema se auto-sustenta. Não há, essencialmente, a necessidade de consumir substâncias orgânicas. Isso surgiu depois, pelo aumento da complexidade na organização do coletivo de seres unicelulares e maior demanda energética – para se sustentar é preciso que mais indivíduos produzam energia e cooperem.
Assim é a organização desse sistema consumidor. É como um buraco negro, uma anti-matéria que se apropria, devora e incorpora o que é externo para crescer mais.

Esses dias fui ao cinema com minha mãe e assiti "Leões e Cordeiros". Algumas coisas nesse filme chamaram minha atenção e mexeram comigo.

Há 6 anos que o principal lucro da indústria bélica e da mídia americana é a venda de entretenimento via google – earth, maps e etc. É o buraco negro, a cissiparidade amebóide que não pára de crescer, de se alimentar faminta e fartamente. É como um adolescente médio – ou big size - da classe média – ou big size – norte-americana. Obeso e obtuso, comedor de whoppers e big macs, que não sabe quem é o governador na California, usa bonés para trás e acha que o bom questionamento social é o dos rappers e hip hoppers milionários, com correntes, dentes de ouro e pencas de mulheres.

É de se admirar como existe uma falta de questionamento de quem compra a economia desse sistema ao fato de se tornar uma matéria orgânica devorada por essa organização. Rousseu, quando pensou sobre o contrato social, previa que para que pudesse haver uma "liberdade" coletiva, o contratante precisaria abrir mão de algumas liberdades individuais, delegadas ao Estado, como o direito à alienação do seu próprio corpo.

Assim, a bandeira dos primeiros rappers era pelo respeito às diferenças. De que para ser bom não era preciso ser branco, rico ou famoso.
Mas no começo dos anos 80, em New York, no Brooklyn ou Chicago, a barra era tão pesada que o negro precisava andar bem arrumado para não levar uma incerta por aí. Na época quem fazia sucesso eram as estrelas da NBA - Michael Jordan, Shaquille O´Neal - e do futebol americano. Eles sempre andavam muito bem vestidos no seu estilo esportivo. Com moletons, bonés, camisetas, tênis e carrões.

E o hip hop, de repente - e aí ninguém perguntou-se o porquê - incorporou um discurso de posse material como afirmação. Os hip hoppers que antes pretendiam questionar o sistema, passaram a "involuntariamente" colaborar. A organização continuou sendo essencialmente predatória – e até fagocitária – quando superficialmente parecia questionar o modus operandi.

Na organização autotrófica a forma de viver e de produzir energia se faz nas mínimas condições possíveis. Não é preciso consumir mais e mais.
Há uma questão de priorizar as necessidades. A organização inteligente nutre primeiro as partes vitais ao sistema e depois as secundárias. Assim como na guerra dos americanos contra o terror, a massa orgânica que explode nos confins do além para que alguém ganhe mais dinheiro são os negros e os mexicanos. Explodem também suas finanças e necessidades nas minas de divulgação massificada de como consumir e utilizar recursos.

No sábado, vi no shopping algumas "galeras" vistas como massas orgânicas. Alvos fáceis para a propaganda heterotroficamente irresponsável. Gente que muitas vezes não lê nenhum livro sequer fora dos bancos da escola, ou que mal sabe articular um "the book is on the table" em inglês, está ali, de bonezinho, camiseta e tênis. Todos iguaizinhos. Uma turma de uns 20 a 30 até. Como um cardume. Uma grande massa orgânica no oceano pasteurizado.

E os sistema continua se desenhando e organizando. O Estado soberano se apropriou na liberdade e do direito dos seus corpos frágeis, violáveis e perecíveis. Mais massas de gente no oceano pasteurizado na economia, na organização política , militar, civil e religiosa. Seres humanos descartáveis do Afeganistão, da África e do Brasil. Homens bombas, gasolina para máquinas de guerra, massa de manobra política faminta. Pequenos seres unicelulares. Cordeiros para leões ou leões para cordeiros?

Sunday, November 18, 2007

o mundo na ampulheta.

Um bom jeito de deixar a areia escorrer pela ampulheta é tolerá-la.
Observar a superfície sulcar num redemoinho irreversível.
Contemplar o crescimento da pirâmide do outro lado.
A sabedoria egípcia de encaixar grandes blocos de tempo. De canalizar e construir.
Sabedoria que não chegou a nos deixar a fórmula da alquimia nem o elixir da vida.
Mas as múmias ficaram.E as pirâmides. E a esfinge:
- Decifra-me ou de devoro-te.
Assim é o tempo. Ou a percepção dele.

Muita gente já nasceu e morreu sob esse mesmo céu e sobre o mesmo chão.
E o mundo, em suas voltas, também envelhece um pouco.
Será essa também a solução para a boa terceira idade do terceiro planeta, a tolerância?
A tolerância consigo, com cada ruga. O respeito por cada marca, pelos fios de cabelo branco que começam a surgir.
Por ontem, a manhã ensolarada, a boa lembrança. Não a prisão.
Ao meio dia o calor é maior. E de tarde os grilos sinfonizam o pôr do sol.

Todo o tempo que escorre é consciente.
Como cada pequeno grão de areia, os segundos. E também as pessoas que passam por nossa vida.
Não podemos subtrair os segundos. E nem as pessoas.
Há que se tolerar. E, dentro do possível, “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar pra pensar, na verdade não há.”

Qual a consciência de tempo do grão de areia senão a do próprio fluxo?
Qual é a nossa medida de vida senão as pessoas?
Com saber do começo, do meio e do fim estando sós?
Quando cair o último grão, há de haver outros do outro lado a esperá-lo.
Um grão que sabe do outro. E o permite ser. Tolera.

Dois pensamentos agora me ocorrem para o bom correr dos grãos. O primeiro é que se todo o correr e decorrer dos grãos fosse bom e fácil, nem haveria o que se questionar. Lembro de uns versos de Mário Quintana que vi de passagem numa exposição em Petrópolis e me chamaram muita atenção. Guardei no tempo a “Observação”:
Não te irrites, por mais que te fizerem...Estuda, a frio, o coração alheio.Farás, assim, do mal que eles te querem,Teu mais amável e sutil recreio…

O segundo é de uma canção que Michael Jackson fez há uns 15 anos, quando eu era quinta série, “Heal the world”. Acho que tem um pouco a ver.


http://br.youtube.com/watch?v=Jpz5eD9L4dA

Sunday, November 11, 2007

ultrapassando.

É incrível como a gente perde tempo pensando em não perdê-lo.
Como na economia dos segundos perde-se a paisagem.

Em cada instante da corrida o piloto está ali. E não há de ser automático.
Não competirá com ninguém, senão ele mesmo.
A cada ultrapassagem fica pra trás o seu próprio reflexo.

E ao final da prova, num só corpo, o perdedor e o vencedor.

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Um tanto quanto sintomático escrever algo assim hoje.
Passaram-se dois anos para que eu pudesse, de verdade, voltar a correr.
A última prova foi em outubro de 2005, uma meia maratona revezada, que fiz com Hugo.
Para amadores nosso tempo foi excepcional: 1h25. Ficamos com o sétimo lugar de duplas.
Aí depois veio a hérnia. E a cirurgia.E o tempo.
O tempo que ficou para trás, como os outros competidores. Como os outros “eus”.
E aqui estou.
Talvez não exatamente no lugar e no tempo que eu pensei – só pensei - em estar agora.
Mas onde consegui. Com fôlego, suor e raça.
Nos treinos, por agora, estava fazendo os 7km ( o trajeto da corrida Petrobras ) em até 29 minutos.
Pretendia conseguir fazer em 28, o que seria excepcional – 4 minutos por quilômetro.
Na corrida, estava indo bem até a altura quinto quilômetro , com uns 20 minutos.
Então, na curva de retorno, a dor de facão pegou.

Reduzi o ritmo e alguns “eus” que deixado para trás, me passaram novamente.
Mas o importante foi manter a respiração e chegar.
Chegar fazendo o melhor de mim.
Mesmo não sendo o que pensei, foi bom. Entre os 60 primeiros.
Às vezes o ontem ultrapassa o hoje. Que por sua vez espreita o amanhã.
O resultado foi bom.Amanhã? Quem sabe?