E lá estava eu. Finalmente eu ia saber de tudo. E ela também estava lá. Eu tinha medo. Eu tomaria a primeira dose. E não sabia qual seria o resultado.
Era cor de terra. Coisa de dois dedos. O cheiro não era bom. Bebi feito quem bebe remédio. Não senti o gosto. Sentei.
Demorei um pouco para sentir alguma coisa. Olhava para a cara daquelas pessoas e tudo me pareceu tão estranho, tão sem sentido...
Mas então uma música de outra dimensão rasgou o ar, apunhalando o mais transcendental e profundo eu. Perfurou.
E eu vi.
Vi arabescos indianos se descortinando na minha frente. Ouvi. Aquela voz dizendo "aí está tudo que você queria ver e saber". E o filme da minha vida começou a passar. Desde antes de eu nascer. Quando meu pai e minha ainda esperavam para saber se eu seria menino ou menina. Vi o amor deles por mim, quando nasci. Senti. Lembrei também de como eu amava aquela professorinha de olhos verdes que me levava para a casa dela depois das aulas, de tarde. Eu era muito pequeno, devia ter uns quatro anos.
Tia Viviane. Fui guarda de honra no casamento dela. Lembrei das minhas brincadeiras, das musiquinhas, dos meus amigos. Reais e imaginários. Vi que os imaginários não eram tão imaginários assim. Lembrei de cada momento. Cada gesto, cada cheiro. Cada sorriso de menino. Cada lágrima. E chorei.
Chorei muito. Chorei alegrias. Chorei tristezas. Chorei minha alma. Aquela era a minha vida, a voz dizia no fundo da minha cabeça. A consciência. Tive medo. Fiquei tonto. Tive medo daquela força estranha.
Levantei da cadeira meio cambaleante e fui até um canto para vomitar. Vomitei minha vida e morri.
Desmaiei por alguns segundos. Pelo tempo de algumas encarnações. O suficiente para olhar nos olhos daquele índio boliviano de cabelos brancos, que me observava de cima com aquela cara de pajé, e, ainda deitado no chão dizer: "Já entedi. É tudo uma coisa só!". Então toda aquela gente se dispersou e ele sorriu. E eu também. Tudo uma coisa só.
Que estranho. Que louco. Que mágico!
Todos aqueles conceitos filosóficos, místicos e religiosos, que antes eram só conceitos vazios de percepção e díspares entre si, se fundiram numa só compreensão. Sim. Eu já sabia.
Lembrei de tudo.
Lembrei do amor de minha mãe. De como tantas vezes eu fui um filho muito difícil. Que lhe causou alguns sofrimentos. E chorei. Como eu amo minha mãe, constatava a voz da minha cabeça. Chorei de alegria por ter uma mãe. Por ter a minha mãe. A minha mãe que eu quero tão bem. Que tem tanto amor. Amor. Mãe.
Lembrei do meu avô. Sempre tão puro de coração. Tão ingênuo e tão carente. Senti que nem sempre tinha sido tão bom com ele quanto ele sempre foi comigo. E chorei. Meu vovô. Te amo meu vovô, eu chorava. De saudades, de tristeza, de alegria, de amor. Minha vó e meu vô.
Meu pai. Meu melhor, meu grande amigo. Meu ídolo. Meu herói. Meu exemplo em muitas coisas daquela vida que eu tinha vivido até então, naquela tarde azul de domingo de lua cheia de abril de 2002.
Te amo meu pai, pensava eu sorrindo feliz.
Meus irmãos. Meus amigos. Minhas namoradas. Meus primos. Meus colegas...
Um amor profundo e incondicional por todos eles. Meu coração fluía sangue e derramava todo o seu amor de cima daquele galpão. E impregnava a terra, subia pelas árvores, exalando nas plantas, nas folhas e frutos. Meu coração fluía todo o AMOR do universo. Um. Universo.
Tudo era tão vivo, tão pedaço desse AMOR, quanto aquela bonita mangueira que eu olhava sentado no chão daquela tarde. Os pássaros cantavam as mais belas melodias do céu.
Ainda era jovem. Com mais uma vida inteira pela frente. Uma tinha ido embora. Tinha mais umas seis novinhas em folha.
E o filme ainda rodava. Tinha um charme de musical dos anos 30. Uma nostalgia de Carlitos. E a cor da atmosfera era azul, quase lilás.
Então ela apareceu para mim pela última vez. Ela, a primeira das que vieram e virão, aparecia na minha frente pra se despedir. Ela me dava um beijo no rosto, saltava do carro e subia as escadas, me dando tchau com aquele sorriso de menina. Sua alma me dizia que estava tudo bem. Cada um de nós seguiria seu caminho. E dizia pela consciência que tínhamos sido gotas do AMOR universal um para o outro.
E por toda vida continuaríamos sendo gotas, rios e marés, até voltarmos a ser mar.
O AMOR. Ela disse adeus. Há Deus. E eu sorria, livre da prisão. Mais leve. Feliz.
E como não sentia mais o peso da saudade no coração perguntei para a rezadeira o que era apagar. Ela pensou, pensou e disse:
- Meu filho, nessa vida a gente nunca apaga nada. Tá tudo escrito no tempo e nas estrelas.
Sim. Eu sabia. E o filme continuava rodando. Agora eu lembrava de uma outra vez que eu tinha morrido.
Naquela vez eu estava deitado em cima de uma mesa, numa casa pequena e humilde do interior. Um lençol cobria meu corpo. E havia velas. E gente. Muita gente.
As pretas velhas, rezadeiras, cantavam encomendando a alma daquele outro preto surrado da vida que ia subindo ao puleiro das almas. E aquela cantoria, que não tinha tempo nem espaço, também estava ali. Naquela tarde tão azul. Em que eu olhava para a mangueira e pensava no que John Lennon tinha feito pela compreensão da paz pelo insconsciente coletivo mundial. A paz. A vida. As vidas. Um amor. Uma vida.
E o filme a la cinema paradiso ia descendo na bobina. Agora eu me via ali. Anos depois.
Numa tarde ensolarada. Um pouco mais velho. Com cabelos grisalhos, de óculos, camisa de manga amerela e um sorriso senhor de uma certa confiança e maturidade. Mais sabido. E me dizia muitas coisas.
Ele. A voz. Eu.
E aquilo tudo era muito mágico.
E a mágica ia se apagando com o pôr-do-sol. Ia ficando mais branda. O mar de AMOR ia se diluindo no oceano do mundo real.
Mas qual seria a realidade? Que nova pessoa era eu? Quem era aquele homem que nascia dentro dos olhos de um menino, recém saído da adolescência? Eu ainda não sabia. E continuo não sabendo. Ele nunca me disse.
Às vezes descubro alguma coisa nova quando não pergunto demais.
A noite caia em cima do sol, manto de AMOR. E a lua, resplandecia toda a prata astral.
As cigarras cantavam ao horizonte de aquarela, que ninguém jamais pintou. E o enxame de estrelas dizia que o dia terminou. A tarde terminou. Aquela vida terminou.
Agora era outra. Eu tive medo.
Mas estava salvo. Pelo menos por enquanto.
NOTRE
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Por que choramos quando um prédio se vai? Talvez porque ali havia
história, arte, cultura. Coisas que fazem parte de nós mesmo que não
admitamos. Que mexe...
1 comment:
MAssa bicho...
Esse é o tal Misterio Magno...
Nos falamos!
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