Monday, January 21, 2008

Segundas intenções para terceiros.

por Marcos Siqueira

As Farc são classificadas como um grupo terrorista pelos governos da Colômbia, Estados Unidos e União Européia.

Na semana passada a Casa Branca reforçou na OEA sua decisão de manter as Farc na lista de grupos terroristas.

Na mesma semana, em pleno auge das declarações do conflito diplomático entre Colômbia e Venezuela, Hugo Chávez disse estar sendo ameaçado de morte pelo governo norte-americano e colombiano.

Há muitos anos, quando Fidel dizia que estava sendo ameaçado de morte, também era tudo bobagem, maluquice e demagogia...Recentemente, com a divulgação de arquivos da CIA, foi provada a veracidade da fala do cubano e muitos dos planos esquizofrênicos do governo norte-americano agora já não podem mais ser considerados mitos...

Em "As Veias Abertas da América Latina" Eduardo Galeano nos mostra como nossa história se repete em ciclos há séculos.

Evo “Imorales”, ex-plantador de coca e primeiro presidente indígena da Bolívia, diz que sua nova Constituição vai ajudar a compensar os séculos de dominação da elite branca. Vem, naturalmente, enfrentando cada vez mais resistência por parte dos governadores das províncias ricas do país, que por sua vez estão altamente associadas às forças armadas. Estas, por sua parte, estão associadas a regimes ainda mais fortes. No caso, a Bolívia é vassala da Venezuela.

Mas e no caso da Colômbia? Seriam os Estados Unidos? A União Européia?Quem intermediará esse conflito? A ONU, com seus pareceres fundados em "laudos" alimentados pela CIA? A rede de inteligência - ou seria esperteza? - hoje culpa a Al-Qaeda ( que nos anos 80 eram os heróis, “os cavaleiros do deserto” que combatiam os soviéticos em Rambo III ) e aliados de um líder tribal paquistanês pelo assassinato de Benazir Bhutto. Afinal com o preço internacional do barril de petróleo batendo picos de U$ 100 é preciso mesmo abrir novas frentes de negócio...

Grande parte dos colombianos temem as Farc, muitos destes por terem parentes sequestrados pela organização ou simplesmente por considerá-la um perigoso "grupo terrorista". A menção do fato proporciona estabilidade e uma certa popularidade ao presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, que usa e abusa da política de combate à guerrilha. Qualquer semelhança com a popularidade obtida por Bush depois do nine eleven não terá sido mera coincidência.

Nesta semana, Uribe esteve na França para pedir apoio ao presidente ex-militar Sarkozy para o combate ao “terrorismo”.

Assim não parece tão absurdo quando o nosso histriônico Hugo Chávez abre a boca cavalar dizendo que "... lo mayor terrorista del mondo se llama Zorze Dóbliu Bussi..."

A realidade dentro dos feudos das Farc é ainda mais dura. Além da grande população mantida há anos como refém, estima-se que cerca de 20% dos combatentes tenham menos de 21 anos. Mais ou menos 3.500 combatentes adolescentes.

Por que começar a vida na guerrilha e bem no meio da selva?Uma escolha ou uma contingência? O que isso tem em comum com o problema daqui do Rio de Janeiro? Ou Angola? Ou Afeganistão, Paquistão, Timor-Leste...

E Israel? Onde Bush, um dos seus maiores aliados, enfim pisou como presidente?
O maior giro do Buschinho pelo Oriente Médio incluiu seis países e os territórios palestinos. Debaixo do braço, um plano de paz para israelenses e palestinos. Uma oportunidade de limpar o nome para entrar para a História?

Não mesmo! Nem pensar!
A viagem virou piada por todos os EUA e em vários outros países. As gracinhas refletem o jeito Bush de ser. Gafes, situações constrangedoras e inusitadas (como ficar brincando de cavaleiro Jedi com a espada dos emires) e um certo olhar vesgo e idiota de "o que estou fazendo aqui mesmo?".

E se ele sequer sabe o que está fazendo em Israel, como saberá o que está sendo feito dentro das fronteiras mais vigiadas do mundo? Os belos e concretos muros de Roma permanecem espreitados pelos bárbaros do terceiro mundo. Os terceiros.

Lá dentro as pesquisas têm demonstrado uma ampla frente de preferência pelos democratas Hillary Clinton e Barack Obama.Duas opções. Uma mulher que além de ser uma buarquiana mulher de Atenas, declare-se herdeira intelectual de Simone Beauvoir.O outro, Obama (sem trocadilhos com Osama ) um bonachão no estilo Clinton de ser, não toca o saxofone, mas tira uns grooves no baixo.

Por que será que eles são mais populares? Talvez o público pós protocolo de Kyoto rejeite os republicanos. Num vídeo que circula pelo youtube, o candidato republicano Mike Huckabee compara a prática homossexual à bestialidade...

Também a recessão de lá parece que não veio para brincar. "Quem casa quer casa", já dizia minha avó. E no final da história quem levou o calote foram os banqueiros americanos. De onde é que eles vão tirar esse prejuízo? Que tal de um lugar muito grande, com muita mata, muita água e bem barato?

E enquanto isso, no terceiro mundo...

Hoje, na Amazônia, a posse de terras é dos grileiros. Cerca de 90% dos desmatamentos é feito por grileiros... Os corte de madeiras ilegais, as toras que descem, ou sobem rios, atravessando fronteiras d´além mar guardam surdos segredos a respeito dos seus compradores. E para combater esse mal, a cada dia criam-se novas ONGs internacionais de responsabilidade sócio-ambiental cheias de boas intenções que não param de estudar as plantas e os insetos para o "bem da humanidade".

Quando o presidente Lula criou um ministério de Ações de Longo Prazo, ninguém levou muito a sério. Mas o estabanado ministro Mangabeira Unger está se mostrando muito empertigado na função e, também na fatídica semana passada falou sobre a elaboração do Plano Estratégico Nacional de Defesa e da sua proposta para promover o desenvolvimento econômico da Amazônia. Com idéias dos anos 70 - nada em comum com a América Latina dos caudilhos - Unger pretende salvar a Amazônia com a atividade de mineração - seria outra Serra Pelada? - e pecuária para subsistência familiar. A pecuária em grande escala é apontada por ele como um dos maiores vilões da floresta. Sério? Que descoberta!

No Pará, com uma comitiva de 40 pessoas, lembrando a excursão de férias promovida por deputados amazonenses para um "estudo de viabilidade econômica" de exploração turística do rio Negro, Unger reiterou que o governo está comprometido com a "reafirmação inequívoca da soberania brasileira na Amazônia". Segundo ele, além de despertar a atenção e a pressão mundial, a Amazônia deve ser encarada como um laboratório para que o país desenvolva estratégias inéditas de desenvolvimento.

Talvez um grande e inédito laboratório seja transpor as águas da bacia amazônica para a região do semi-árido, salvando o rio São Francisco, como deseja o nosso ministro de Ações de Longo Prazo...

Para não sermos a bola da vez do terrorista "Zórze Dóbliu Bussi" precisamos abolir duas idéias muito erradas a respeito da Amazônia. A primeira é mantê-la como um parque, uma disneilândia de terceiro mundo com ingressos promocionais para a humanidade. A segunda é permitir sua exploração indiscriminada. ONGs, ONU, CIA e NASA poderão nos salvar da obtusidade?

E cá estamos nós. Brasil. Bola da vez ou possível alvo? Sujeitos às crises da bolsa e do bolso. Nós, o motivo da "crise diplomática" entre Colômbia e Venezuela, na mira das bombas vesgas do "Bussi".
E agora? Quem poderá nos salvar?
O Chapolim Colorado ou o Chavéz?

3 comments:

Anonymous said...

GENIAL!!!
PARABÉNS!

Anonymous said...

lo mayor terrorista del mondo se llama zorze dóbliu bussi!

Eduardo Galindo said...

marquito, tinha um tempo que eu não vinha aqui. bom ver que estais a escrever e a fazê-lo de forma bem feita.
gostei muito do texto aqui, esses dias volto pra atualizar minha leitura dos anteriores.
aquele abraço!