E então Deus criou a vida. E os primeiros seres - os unicelulares, os procariontes, os eucariontes, as esponjas, os autótrofos e os heterótrofos.
Desses últimos, a diferença é que enquanto um busca o alimento no ambiente o outro consegue criar das condições externas energia para si.
São sistemas de diferentes organizações celulares. Diferentes conceitos de gestão, economia, cooperação e finalidade.
O heterótrofo depende sempre de novas fontes e recursos para dar continuidade ao seu ciclo. É um conceito econômico de déficit. Sempre há necessidade de consumir.
Contudo, há uma hipótese que diz que os primeiros seres vivos eram autotróficos. Os estudiosos da origem da vida descobriram bactérias em ambientes inóspitos, como fontes de água quente e vulcões submarinos; essas bactérias produzem seu próprio alimento a partir de substâncias simples e de energia obtida em reações químicas inorgânicas.
Então esse sistema se auto-sustenta. Não há, essencialmente, a necessidade de consumir substâncias orgânicas. Isso surgiu depois, pelo aumento da complexidade na organização do coletivo de seres unicelulares e maior demanda energética – para se sustentar é preciso que mais indivíduos produzam energia e cooperem.
Assim é a organização desse sistema consumidor. É como um buraco negro, uma anti-matéria que se apropria, devora e incorpora o que é externo para crescer mais.
Esses dias fui ao cinema com minha mãe e assiti "Leões e Cordeiros". Algumas coisas nesse filme chamaram minha atenção e mexeram comigo.
Há 6 anos que o principal lucro da indústria bélica e da mídia americana é a venda de entretenimento via google – earth, maps e etc. É o buraco negro, a cissiparidade amebóide que não pára de crescer, de se alimentar faminta e fartamente. É como um adolescente médio – ou big size - da classe média – ou big size – norte-americana. Obeso e obtuso, comedor de whoppers e big macs, que não sabe quem é o governador na California, usa bonés para trás e acha que o bom questionamento social é o dos rappers e hip hoppers milionários, com correntes, dentes de ouro e pencas de mulheres.
É de se admirar como existe uma falta de questionamento de quem compra a economia desse sistema ao fato de se tornar uma matéria orgânica devorada por essa organização. Rousseu, quando pensou sobre o contrato social, previa que para que pudesse haver uma "liberdade" coletiva, o contratante precisaria abrir mão de algumas liberdades individuais, delegadas ao Estado, como o direito à alienação do seu próprio corpo.
Assim, a bandeira dos primeiros rappers era pelo respeito às diferenças. De que para ser bom não era preciso ser branco, rico ou famoso.
Mas no começo dos anos 80, em New York, no Brooklyn ou Chicago, a barra era tão pesada que o negro precisava andar bem arrumado para não levar uma incerta por aí. Na época quem fazia sucesso eram as estrelas da NBA - Michael Jordan, Shaquille O´Neal - e do futebol americano. Eles sempre andavam muito bem vestidos no seu estilo esportivo. Com moletons, bonés, camisetas, tênis e carrões.
E o hip hop, de repente - e aí ninguém perguntou-se o porquê - incorporou um discurso de posse material como afirmação. Os hip hoppers que antes pretendiam questionar o sistema, passaram a "involuntariamente" colaborar. A organização continuou sendo essencialmente predatória – e até fagocitária – quando superficialmente parecia questionar o modus operandi.
Na organização autotrófica a forma de viver e de produzir energia se faz nas mínimas condições possíveis. Não é preciso consumir mais e mais.
Há uma questão de priorizar as necessidades. A organização inteligente nutre primeiro as partes vitais ao sistema e depois as secundárias. Assim como na guerra dos americanos contra o terror, a massa orgânica que explode nos confins do além para que alguém ganhe mais dinheiro são os negros e os mexicanos. Explodem também suas finanças e necessidades nas minas de divulgação massificada de como consumir e utilizar recursos.
No sábado, vi no shopping algumas "galeras" vistas como massas orgânicas. Alvos fáceis para a propaganda heterotroficamente irresponsável. Gente que muitas vezes não lê nenhum livro sequer fora dos bancos da escola, ou que mal sabe articular um "the book is on the table" em inglês, está ali, de bonezinho, camiseta e tênis. Todos iguaizinhos. Uma turma de uns 20 a 30 até. Como um cardume. Uma grande massa orgânica no oceano pasteurizado.
E os sistema continua se desenhando e organizando. O Estado soberano se apropriou na liberdade e do direito dos seus corpos frágeis, violáveis e perecíveis. Mais massas de gente no oceano pasteurizado na economia, na organização política , militar, civil e religiosa. Seres humanos descartáveis do Afeganistão, da África e do Brasil. Homens bombas, gasolina para máquinas de guerra, massa de manobra política faminta. Pequenos seres unicelulares. Cordeiros para leões ou leões para cordeiros?
NOTRE
-
Por que choramos quando um prédio se vai? Talvez porque ali havia
história, arte, cultura. Coisas que fazem parte de nós mesmo que não
admitamos. Que mexe...
2 comments:
Os leões, obesos e obtusos, sustentam sua economia exportando guerras para os cordeiros.
Para a terra dos cordeiros e para que os cordeiros as lutem e ainda paguem por elas.
Texto reflexivo e com verdades.
Bom.
José Mesquita
Aí marcão, texto legal.
Não concordo muito com a idéia de "galera" amorfa e fácil de ser explorada. Acho que essa galera tem bastante consciência do que faz, mesmo sem ler livros. Com a quantidade de informação e meios atuais só é besta quem quer. Talvez eles simplesmente queiram ser iguais aos outros. Sei lá. Inté
Post a Comment