Thursday, January 03, 2008

Na Bahia nada se perde. Tudo se transforma.

Nesse fim de 2007, lá em Salvador, num domingo de sol, quando estava indo pro caruru de aniversário de Gustavo, fiz uma contra-mão lá na Barra e Canela pra buscar Pedro e Graciano.
Na volta pra a Pituba, Pedrão veio contando que foi dar uma corrida de manhã e passando pela praia internacional do Porto da Barra viu uma cena pra fechar o ano e resumir o espírito de mais pura baianidade. Disse que tinha cruzado com um guardador de carros olhando pro chão e resmungando:
- Pórra, véi! Tá foda! Tem uma cara que eu não encontro nada. Não encontro porra nenhuma nesse chão... Tá foda! Nenhum objeto... Nem uma moeda...

O incrível é que, de verdade, isso resume um forte aspecto psico-cultural da baianidade.
É um traço muito marcante no nosso povo o jeito de viver "cada dia a seu tempo"... Cada azar a cada azar... e cada sorte a cada objeto no chão. Nada a perder.

À noite, não tinha ninguém livre ou disponível para sair com um pseudo-turista caribano ou baianoca. Então, entrei no carro e fui dar um rolé pela orla. Olhar a lua, que tava bem cheia.
Fui olhando as praias, matando a saudade do mar da Bahia, e quando cheguei lá em Itapuã vi umas pessoas de branco com velas na praia, aí pensei:
- Oxe, que é isso? Ainda nem é natal e já tão comemorando o reveillon?

Desci para olhar. Era um povo de candomblé.
Resolvi chegar mais perto para decifrar aquilo, que nunca tinha visto antes, assim tão de perto.
Vi umas mulheres abaixadas, de branco, cantando pontos, chamando cavalinhos e pomba-giras.
No meio, um pai de santo embriagado, dançando cambaleante.
De repente, do nada, ele saía correndo e se jogava no mar. Aí vinha uma das mulheres de branco tira-lo de lá e recebia os cumprimentos do grande Ogum, senhor dos mares.

A noite estava linda! Muitas estrelas no céu. O luar resplandecente iluminava tudo, para além das chamas das velas. Aquele auto de natal parecia coisa de filme. Uma cena bíblica talvez.
Mas senti ali uma energia muito forte. Estranhei.

No sábado, na praia, comendo um caranguejo (quanto tempo sem comer caranguejo!) tinha comprado um “contregum” com um artesão de rua, um velho de barbas brancas. O “contregum” é uma espécie de amuleto, feito com um cordão, pedrinhas e um búzio para espantar os espíritos, os “eguns”. Daí vem o contra - egum.
O velho, apesar dos poucos dentes tinha um sorriso contagiante.
Mostrou uma pasta com alguns desenhos seus e disse que havia estudado no museu de arte moderna.
Sonhava em um dia fazer uma exposição. O nome dele, curiosamente, era Carlos Chagas.
O nome é o mesmo do epidemologista brasileiro que caracterizou a doença que ataca o coração e o sistema nervoso.
O velho disse que quando fizesse sucesso mudaria seu nome para "Carlos Da Vinci".
Ele era bem velho, mas acreditava nos seus sonhos juvenis e tinha um brilho no olhar quando falava disso. Aquele brilho que só as crianças e os loucos têm.
Um santo remédio para os males do sistema nervoso e do coração.

Então, no meio daquele auto de candomblé, com meu contregum no pé, saí no contratempo, gingando capoeira, sem dar as costas. Afinal, nunca se sabe... Para o desconhecido, é melhor fechar o corpo.
Não quero eguns andando atrás de mim.

Continuei meu passeio noturno e fui parar na frente de um parquinho de diversões de Itapuã.
Resolvi descer pra tomar um caldo de cana.
Parei pra ver os brinquedos e dois molequinhos me pediram pra pagar um ingresso pra eles.
Falei que só pagava se eles brincassem no bate-bate comigo.
Me diverti muito. Enquanto descia a porrada no carrinho dos meninos, me desviava que era uma beleza dos outros. Depois, ainda fomos na roda gigante. Não consegui parar de olhar a lua.
Depois paguei um acarajé da Cira para eles.

Aí, daqui a pouco, o mais esperto, um neguinho de seus 12 anos, vira pra mim e fala assim:
- Eu queria pedir um favor pro senhor, Daqui a pouco tenho que levar dinheiro pra casa e hoje não consegui nada, por que fiquei brincando e não guardei carro.

Fiquei meio mordido com aquilo... Mas não ia dar dinheiro. Aí falei, rindo pra ele:
- Se saia, rapaz! Não sou nem senhor, nem sou seu pai! Não vou te dar dinheiro zorra nenhuma! Vai estudar pra trabalhar e ganhar o seu!

Continuamos brincando e conversando. Eles me contando que queriam ir no festival de verão pra ver Ivete e Chiclete. O menorzinho disse que tinha um tabuleiro de doces que os pivetes de Itapuã bateram nele e tomaram tudo. Mas aí veio o "Se Liga Bocão" (um desses programas sensacionalistas, tipo Ratinho) e deram outro pra ele. Disse que agora tava jogando capoeira e não mais “comer reggae” de malandro nenhum.
Mas a malandragem com a qual ele precisava lidar, era a dele mesmo...

Uma noite divertida... Dessas que só se vê na Bahia.
Fiquei aqui pensando em como é importante para qualquer criança poder brincar e ser ela mesma.
Não só as crianças. Mas também os velhos. E os adultos.
Bom pra o coração e sistema nervoso.

Cada um com seus sonhos, à sua maneira baiana de ser. Cada tempo a seu tempo. Cada sorte a cada sorte.
Um menino, que apesar da dureza, não deixa de ser criança e querer brincar. Que pode mudar tudo, com todo o tempo pela frente e nada a perder.
Um guardador de carros, para quem o que vier é lucro. Tudo para achar e nada a perder.
E um velho, sem tanto tempo assim, e, também, com nada a perder. Inclusive o tempo.

1 comment:

::Soda Cáustica:: said...

Que delícia de texto e que doçura de palavras... tens o dom, meu amigo. Escreve bem e és sensível.
estarei semprte aqui nessas passagens.