Monday, November 30, 2009

Abro pra você a porta de casa. Convidaria-te a entrar na minha vida. Se eu soubesse nela onde fica a porta, a janela, o pé direito e o prumo.
Um capitão pirata, aventureiro sem rumo. Um barco a deriva, um porta-aviões esperando alguém pousar. Um mata borrão sem moscas, muriçocas ou prazo de validade.
Te contaria a história do meu pé esquerdo e de todas as sortes de venturas e ventos que já passaram pela minha cara. De moto, de avião ou caindo de algum lugar de dentro de mim. A montanha e a roleta na Rússia seriam o nosso destino predileto.
Nas estepes daqui a coisa fica preta, mas a gente não passa frio. Somos corações de portas de casas abertas, da gente da nossa terra, da lama e do caos do Brasil.

Wednesday, November 18, 2009

Cuidado comigo

Cuidado comigo
Não sou flor que se cheire
Sou desses botões frágeis e invisíveis
Pequeninos e raros, instáveis no campo depois
Da chuva em poucos instantes abro o peito ao sol
Duro o dourado sorriso de veludo da abelha, murcho e me ponho
contigo na memória das cores, formas e perfume.
Das pequenas flores
e dos amores.

Amor de retrovisor



Na minha cara há lentes oblíquas, por vezes obtusas,
Daqui vendo distorcidos os botões da sua blusa
Abrindo-se aos seios do infinito circular
Mas não voltam atrás os beijos que um dia te dei
Bonitas são agora as nossas sombras passeando
Na rua de mãos dadas sobre os cacos de vidro.

Thursday, March 26, 2009

Palavra (en)cantada

Encantarei com a palavra.
Nem mais, nem menos.
Um tanto. Só.
Cantarei o verbo, plantarei o canto.
Findarei no princípio de tudo. O encanto.

Pelo dito que passeia no ar.
Pelo nome que não há língua que o possa pronunciar.
No sol acende o som antes de se fazer, ser
palavra que a lua mingua no pôr
e a língua lava em pranto na cantiga de entardecer.

Me encantando com a palavra.
Sem mais nem menos, enquanto só.
Cantando o verbo, plantando o canto.
Buscando no princípio de tudo o encanto.
Infinito tempo circular.

Passado o presente do futuro,
imperativo se faz conjugar
o surdo silêncio que retumba dentro do peito.
Fala todo o tempo sem chamar fora,
calado pelo princípio, encantado pelo efeito.

Encantei-me com a palavra.
Já não há mais, nem há menos
Há um tanto. Um só.
Cantei o verbo, plantei o canto.
Encontrei no princípio de tudo o encanto.

Friday, March 20, 2009

All we need is love!

Navegando nessa maré de redes sociais, encontrei uma novidade que parece interessante.
É o http://www.yubliss.com/
A proposta parece ser a de um divã coletivo, onde as pessoas podem usar condinomes e compartilhar suas histórias - reais ou não - relacionando-as a mitos gregos, troianos, velhos ou “mudernos”.
Não sei se a proposta cola, nem quais são os fins comerciais. Mas, como curioso antropológico, dei uma checada.
Achei nos mitos do site uma definição interessante - apropriada para esses dias em que cada vez mais a união entre as pessoas é convocada - do mito romântico pelo filósofo Sam Keen.
Fiquei pensando a respeito do número cada vez maior dessas comunidades (facebooks, orkuts, twitters…) que conclamam as pessoas a uma certa união, quase organicamente necessária nesses tempos de incertezas.
Como se fossemos peixinhos, unidos num cardume que fica mais forte e ágil na fuga contra uma baleia… ou abelhas em redes sociais…
Ou como sociedade agindo contra e a favor de todas essas marcas e organizações.

Enfim…
Como diria John: “all you need is love… love is all you need”.

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O mito do amor romântico - por Sam Keen


Descrição
No mito romântico, o amor é a força misteriosa que surge do nada e nos traz felicidade. A incrível porcentagem de 95% de todas as referências ao amor feitas pela mídia moderna baseia-se na promessa de relacionamentos românticos e nos problemas deles derivados. Na visão de Hollywood, os apaixonados são jovens, lindos e predestinados uns aos outros, apesar de precisarem passar por muitas adversidades antes de conseguirem a feliz realização de seu amor.

Origem
A obsessão moderna pelo amor romântico pode nos levar a crer que as coisas essenciais da vida sempre foram um beijo, um suspiro e um toque da “velha magia chamada amor”. Mas o mundo nem sempre reverenciou dois amantes dessa maneira cinematográfica. O amor romântico tem sido a exceção, e não a regra. Na maioria das sociedades pré-modernas, os casamentos foram “arranjados” por motivos práticos e políticos. Foram os cavaleiros e trovadores da Idade Média que inventaram o código medieval de conduta para namorados e idealizaram o romance, mas exclusivamente para a elite. O romance para as grandes massas surgiu com o nascimento do capitalismo e do individualismo, alcançando um nível febril entre consumidores modernos de novelas e revistas que versam sobre o amor falso e verdadeiro, cheias de receitas rápidas para a intimidade e conselhos para os perdidamente apaixonados. A necessidade de novidades relacionadas ao reino de Afrodite é constante e insaciável. Pesquisas de opinião, questionários e indagações intermináveis sobre nossos hábitos eróticos estimulam a crença questionável que temos de estar aprendendo novas técnicas e progredindo no jogo do amor.

Impacto
Nossa fixação míope por romance e sexo encoraja uma teoria de “atração fatal”, que nos transforma em vítimas que “se apaixonam” e “se desapaixonam” em razão de química ou que não conseguem se apaixonar em virtude de má sorte, abuso sofrido na infância ou famílias desestruturadas. Isso estimula a crença vã de que um relâmpago erótico vai nos atingir diretamente vindo dos céus e, espontaneamente, enriquecer e dar sentido às nossas vidas.
Apesar do profundamente enraizado desejo ardente por romance, quase toda a nossa energia é devotada no sentido de conseguir sucesso, prestígio, dinheiro e poder, e quase nenhuma no de aprender a arte de amar. Quando limitamos nossa busca por amor a uma ligação de somente duas pessoas negligenciamos o âmbito maior no qual precisamos praticar o amor – a família, a vizinhança, o meio-ambiente, a natureza, a comunidade de seres não-humanos sensíveis que incluem pássaros e feras.
O erro das teorias modernas sobre o amor é se dedicar exclusivamente a dois seres individuais solitários que se unem para formar uma ilha em um mar hostil povoado de outros seres anônimos e de vizinhos desconhecidos. A maioria das teorias pré-modernas considera o amor como um elixir que gradualmente dissolve as fronteiras que erigimos entre nosso próprio ser e os outros, progressivamente impulsionando o ego para além do individualismo e do santuário da intimidade, na direção de uma comunidade cada vez mais inclusiva.
A conseqüência mais séria gerada por nossas preocupações com o jogo de achar nossos pares é nos mantermos sempre voltados especificamente para a pergunta errada. Se eu perguntar “como posso encontrar meu amor verdadeiro” antes de perguntar “como posso me tornar uma pessoa carinhosa?” não vou conseguir adquirir as qualificações necessárias para me tornar um ser humano carinhoso – capacidade de ouvir, de ter empatia, de sentir compaixão, de cuidar do próximo, de ter comprometimento, etc. O amor é uma arte que precisa ser desenvolvida e praticada por toda a vida.

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Fiquei achando que faltava uma definição mais precisa sobre a inteligência “amorosa” da união coletiva. Já li em algum lugar que existem teorias de físicos para explicar melhor o funcionamento desse sistema que é chamado de multiagente:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_multiagente

Penso que a relação entre os sistemas multiagentes e o mito do amor romântico é de oposição bem inversa mesmo, como diz o texto do Sam Keen. Na verdade, temos participado na web de uma mudança de paradigma e de convivência. Se já não abrimos as portas das nossas casas como antigamente, estamos abrindo mais as nossas janelas…virtuais!

Então, como os enxames, cardumes e pixels randômicos pré-programados pelo media player, todos nós - enquanto seres humanos interconectados em redes sociais - reagimos a estímulos, ameaças, sons e etc.Reagimos também como consumidores, dando crédito ou descrédito a uma marca…Enfim, interligados, somos multiagentes. Espécie de formação ergonômica que, unida, defende-se melhor. Os generais romanos e suas formações de escudos já dominavam bem essa ciência…Essa idéia é bem diversa do mito do amor romântico um-a-um e nada mais.Passa mais perto de uma compreensão mais universal, de junção quase funcional e, talvez, amorosa da sociedade.Existem teorias funcionalistas e darwinistas de sóciologos como Herbert Spencer e Piotr Kropotkin, que no começo do século já enxergavam que a sobrevivência social depende de uma espécie de mutualismo num organismo coletivo.


Então é por aí…
Posso ter feito uma viagem longa, e penso que esse seja provavelmente o caminho…Uma sociedade digital amorosa e multiagente… hehehhe

E a propósito desse assunto:







Thursday, January 24, 2008

Monday, January 21, 2008

Segundas intenções para terceiros.

por Marcos Siqueira

As Farc são classificadas como um grupo terrorista pelos governos da Colômbia, Estados Unidos e União Européia.

Na semana passada a Casa Branca reforçou na OEA sua decisão de manter as Farc na lista de grupos terroristas.

Na mesma semana, em pleno auge das declarações do conflito diplomático entre Colômbia e Venezuela, Hugo Chávez disse estar sendo ameaçado de morte pelo governo norte-americano e colombiano.

Há muitos anos, quando Fidel dizia que estava sendo ameaçado de morte, também era tudo bobagem, maluquice e demagogia...Recentemente, com a divulgação de arquivos da CIA, foi provada a veracidade da fala do cubano e muitos dos planos esquizofrênicos do governo norte-americano agora já não podem mais ser considerados mitos...

Em "As Veias Abertas da América Latina" Eduardo Galeano nos mostra como nossa história se repete em ciclos há séculos.

Evo “Imorales”, ex-plantador de coca e primeiro presidente indígena da Bolívia, diz que sua nova Constituição vai ajudar a compensar os séculos de dominação da elite branca. Vem, naturalmente, enfrentando cada vez mais resistência por parte dos governadores das províncias ricas do país, que por sua vez estão altamente associadas às forças armadas. Estas, por sua parte, estão associadas a regimes ainda mais fortes. No caso, a Bolívia é vassala da Venezuela.

Mas e no caso da Colômbia? Seriam os Estados Unidos? A União Européia?Quem intermediará esse conflito? A ONU, com seus pareceres fundados em "laudos" alimentados pela CIA? A rede de inteligência - ou seria esperteza? - hoje culpa a Al-Qaeda ( que nos anos 80 eram os heróis, “os cavaleiros do deserto” que combatiam os soviéticos em Rambo III ) e aliados de um líder tribal paquistanês pelo assassinato de Benazir Bhutto. Afinal com o preço internacional do barril de petróleo batendo picos de U$ 100 é preciso mesmo abrir novas frentes de negócio...

Grande parte dos colombianos temem as Farc, muitos destes por terem parentes sequestrados pela organização ou simplesmente por considerá-la um perigoso "grupo terrorista". A menção do fato proporciona estabilidade e uma certa popularidade ao presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, que usa e abusa da política de combate à guerrilha. Qualquer semelhança com a popularidade obtida por Bush depois do nine eleven não terá sido mera coincidência.

Nesta semana, Uribe esteve na França para pedir apoio ao presidente ex-militar Sarkozy para o combate ao “terrorismo”.

Assim não parece tão absurdo quando o nosso histriônico Hugo Chávez abre a boca cavalar dizendo que "... lo mayor terrorista del mondo se llama Zorze Dóbliu Bussi..."

A realidade dentro dos feudos das Farc é ainda mais dura. Além da grande população mantida há anos como refém, estima-se que cerca de 20% dos combatentes tenham menos de 21 anos. Mais ou menos 3.500 combatentes adolescentes.

Por que começar a vida na guerrilha e bem no meio da selva?Uma escolha ou uma contingência? O que isso tem em comum com o problema daqui do Rio de Janeiro? Ou Angola? Ou Afeganistão, Paquistão, Timor-Leste...

E Israel? Onde Bush, um dos seus maiores aliados, enfim pisou como presidente?
O maior giro do Buschinho pelo Oriente Médio incluiu seis países e os territórios palestinos. Debaixo do braço, um plano de paz para israelenses e palestinos. Uma oportunidade de limpar o nome para entrar para a História?

Não mesmo! Nem pensar!
A viagem virou piada por todos os EUA e em vários outros países. As gracinhas refletem o jeito Bush de ser. Gafes, situações constrangedoras e inusitadas (como ficar brincando de cavaleiro Jedi com a espada dos emires) e um certo olhar vesgo e idiota de "o que estou fazendo aqui mesmo?".

E se ele sequer sabe o que está fazendo em Israel, como saberá o que está sendo feito dentro das fronteiras mais vigiadas do mundo? Os belos e concretos muros de Roma permanecem espreitados pelos bárbaros do terceiro mundo. Os terceiros.

Lá dentro as pesquisas têm demonstrado uma ampla frente de preferência pelos democratas Hillary Clinton e Barack Obama.Duas opções. Uma mulher que além de ser uma buarquiana mulher de Atenas, declare-se herdeira intelectual de Simone Beauvoir.O outro, Obama (sem trocadilhos com Osama ) um bonachão no estilo Clinton de ser, não toca o saxofone, mas tira uns grooves no baixo.

Por que será que eles são mais populares? Talvez o público pós protocolo de Kyoto rejeite os republicanos. Num vídeo que circula pelo youtube, o candidato republicano Mike Huckabee compara a prática homossexual à bestialidade...

Também a recessão de lá parece que não veio para brincar. "Quem casa quer casa", já dizia minha avó. E no final da história quem levou o calote foram os banqueiros americanos. De onde é que eles vão tirar esse prejuízo? Que tal de um lugar muito grande, com muita mata, muita água e bem barato?

E enquanto isso, no terceiro mundo...

Hoje, na Amazônia, a posse de terras é dos grileiros. Cerca de 90% dos desmatamentos é feito por grileiros... Os corte de madeiras ilegais, as toras que descem, ou sobem rios, atravessando fronteiras d´além mar guardam surdos segredos a respeito dos seus compradores. E para combater esse mal, a cada dia criam-se novas ONGs internacionais de responsabilidade sócio-ambiental cheias de boas intenções que não param de estudar as plantas e os insetos para o "bem da humanidade".

Quando o presidente Lula criou um ministério de Ações de Longo Prazo, ninguém levou muito a sério. Mas o estabanado ministro Mangabeira Unger está se mostrando muito empertigado na função e, também na fatídica semana passada falou sobre a elaboração do Plano Estratégico Nacional de Defesa e da sua proposta para promover o desenvolvimento econômico da Amazônia. Com idéias dos anos 70 - nada em comum com a América Latina dos caudilhos - Unger pretende salvar a Amazônia com a atividade de mineração - seria outra Serra Pelada? - e pecuária para subsistência familiar. A pecuária em grande escala é apontada por ele como um dos maiores vilões da floresta. Sério? Que descoberta!

No Pará, com uma comitiva de 40 pessoas, lembrando a excursão de férias promovida por deputados amazonenses para um "estudo de viabilidade econômica" de exploração turística do rio Negro, Unger reiterou que o governo está comprometido com a "reafirmação inequívoca da soberania brasileira na Amazônia". Segundo ele, além de despertar a atenção e a pressão mundial, a Amazônia deve ser encarada como um laboratório para que o país desenvolva estratégias inéditas de desenvolvimento.

Talvez um grande e inédito laboratório seja transpor as águas da bacia amazônica para a região do semi-árido, salvando o rio São Francisco, como deseja o nosso ministro de Ações de Longo Prazo...

Para não sermos a bola da vez do terrorista "Zórze Dóbliu Bussi" precisamos abolir duas idéias muito erradas a respeito da Amazônia. A primeira é mantê-la como um parque, uma disneilândia de terceiro mundo com ingressos promocionais para a humanidade. A segunda é permitir sua exploração indiscriminada. ONGs, ONU, CIA e NASA poderão nos salvar da obtusidade?

E cá estamos nós. Brasil. Bola da vez ou possível alvo? Sujeitos às crises da bolsa e do bolso. Nós, o motivo da "crise diplomática" entre Colômbia e Venezuela, na mira das bombas vesgas do "Bussi".
E agora? Quem poderá nos salvar?
O Chapolim Colorado ou o Chavéz?

bens de consumo.



Que bem será que isso faz?


"Nós sofremos porque o nosso querer particular entra em choque com o querer do mundo. "


Arthur Schopenhauer.

Tuesday, January 08, 2008

cárcere do tempo.

Dentro de uma prisão toda e qualquer aflição torna-se urgente.
Urgente como cada momento em que alguém morre.
Morre alguém a cada momento.
E também nasce.

No cárcere das horas, o tempo escorre devagar como um líquido denso.
Um mel adstringente, contaminado de fel, vertido por um cantil de bico muito fino.
Mais difícil do que um camelo passar pela ponta de uma agulha. Ou tão óbvio quanto um rico que não entra nos reinos dos céus. Porque lá já está.

Tempo sobre tempo. No tilintar das moedas acumuladas.

Num escritório, com a cabeça apoiada sobre os braços cruzados na mesa, dá pra ouvir.
Toda a eletricidade que nos rodeia em monitores, teclados e ar-condicionados .
O imenso campo de força magnético do tempo e do espaço.
Os elétrons e o tempo não param. E vêm de longe. Lá dos confins do além.
Uma casa de força central e poderosa que nos prende e nos curva às suas leis da física e continuidade.

Um rompimento na barreira faz-se necessário.

Thursday, January 03, 2008

Na Bahia nada se perde. Tudo se transforma.

Nesse fim de 2007, lá em Salvador, num domingo de sol, quando estava indo pro caruru de aniversário de Gustavo, fiz uma contra-mão lá na Barra e Canela pra buscar Pedro e Graciano.
Na volta pra a Pituba, Pedrão veio contando que foi dar uma corrida de manhã e passando pela praia internacional do Porto da Barra viu uma cena pra fechar o ano e resumir o espírito de mais pura baianidade. Disse que tinha cruzado com um guardador de carros olhando pro chão e resmungando:
- Pórra, véi! Tá foda! Tem uma cara que eu não encontro nada. Não encontro porra nenhuma nesse chão... Tá foda! Nenhum objeto... Nem uma moeda...

O incrível é que, de verdade, isso resume um forte aspecto psico-cultural da baianidade.
É um traço muito marcante no nosso povo o jeito de viver "cada dia a seu tempo"... Cada azar a cada azar... e cada sorte a cada objeto no chão. Nada a perder.

À noite, não tinha ninguém livre ou disponível para sair com um pseudo-turista caribano ou baianoca. Então, entrei no carro e fui dar um rolé pela orla. Olhar a lua, que tava bem cheia.
Fui olhando as praias, matando a saudade do mar da Bahia, e quando cheguei lá em Itapuã vi umas pessoas de branco com velas na praia, aí pensei:
- Oxe, que é isso? Ainda nem é natal e já tão comemorando o reveillon?

Desci para olhar. Era um povo de candomblé.
Resolvi chegar mais perto para decifrar aquilo, que nunca tinha visto antes, assim tão de perto.
Vi umas mulheres abaixadas, de branco, cantando pontos, chamando cavalinhos e pomba-giras.
No meio, um pai de santo embriagado, dançando cambaleante.
De repente, do nada, ele saía correndo e se jogava no mar. Aí vinha uma das mulheres de branco tira-lo de lá e recebia os cumprimentos do grande Ogum, senhor dos mares.

A noite estava linda! Muitas estrelas no céu. O luar resplandecente iluminava tudo, para além das chamas das velas. Aquele auto de natal parecia coisa de filme. Uma cena bíblica talvez.
Mas senti ali uma energia muito forte. Estranhei.

No sábado, na praia, comendo um caranguejo (quanto tempo sem comer caranguejo!) tinha comprado um “contregum” com um artesão de rua, um velho de barbas brancas. O “contregum” é uma espécie de amuleto, feito com um cordão, pedrinhas e um búzio para espantar os espíritos, os “eguns”. Daí vem o contra - egum.
O velho, apesar dos poucos dentes tinha um sorriso contagiante.
Mostrou uma pasta com alguns desenhos seus e disse que havia estudado no museu de arte moderna.
Sonhava em um dia fazer uma exposição. O nome dele, curiosamente, era Carlos Chagas.
O nome é o mesmo do epidemologista brasileiro que caracterizou a doença que ataca o coração e o sistema nervoso.
O velho disse que quando fizesse sucesso mudaria seu nome para "Carlos Da Vinci".
Ele era bem velho, mas acreditava nos seus sonhos juvenis e tinha um brilho no olhar quando falava disso. Aquele brilho que só as crianças e os loucos têm.
Um santo remédio para os males do sistema nervoso e do coração.

Então, no meio daquele auto de candomblé, com meu contregum no pé, saí no contratempo, gingando capoeira, sem dar as costas. Afinal, nunca se sabe... Para o desconhecido, é melhor fechar o corpo.
Não quero eguns andando atrás de mim.

Continuei meu passeio noturno e fui parar na frente de um parquinho de diversões de Itapuã.
Resolvi descer pra tomar um caldo de cana.
Parei pra ver os brinquedos e dois molequinhos me pediram pra pagar um ingresso pra eles.
Falei que só pagava se eles brincassem no bate-bate comigo.
Me diverti muito. Enquanto descia a porrada no carrinho dos meninos, me desviava que era uma beleza dos outros. Depois, ainda fomos na roda gigante. Não consegui parar de olhar a lua.
Depois paguei um acarajé da Cira para eles.

Aí, daqui a pouco, o mais esperto, um neguinho de seus 12 anos, vira pra mim e fala assim:
- Eu queria pedir um favor pro senhor, Daqui a pouco tenho que levar dinheiro pra casa e hoje não consegui nada, por que fiquei brincando e não guardei carro.

Fiquei meio mordido com aquilo... Mas não ia dar dinheiro. Aí falei, rindo pra ele:
- Se saia, rapaz! Não sou nem senhor, nem sou seu pai! Não vou te dar dinheiro zorra nenhuma! Vai estudar pra trabalhar e ganhar o seu!

Continuamos brincando e conversando. Eles me contando que queriam ir no festival de verão pra ver Ivete e Chiclete. O menorzinho disse que tinha um tabuleiro de doces que os pivetes de Itapuã bateram nele e tomaram tudo. Mas aí veio o "Se Liga Bocão" (um desses programas sensacionalistas, tipo Ratinho) e deram outro pra ele. Disse que agora tava jogando capoeira e não mais “comer reggae” de malandro nenhum.
Mas a malandragem com a qual ele precisava lidar, era a dele mesmo...

Uma noite divertida... Dessas que só se vê na Bahia.
Fiquei aqui pensando em como é importante para qualquer criança poder brincar e ser ela mesma.
Não só as crianças. Mas também os velhos. E os adultos.
Bom pra o coração e sistema nervoso.

Cada um com seus sonhos, à sua maneira baiana de ser. Cada tempo a seu tempo. Cada sorte a cada sorte.
Um menino, que apesar da dureza, não deixa de ser criança e querer brincar. Que pode mudar tudo, com todo o tempo pela frente e nada a perder.
Um guardador de carros, para quem o que vier é lucro. Tudo para achar e nada a perder.
E um velho, sem tanto tempo assim, e, também, com nada a perder. Inclusive o tempo.

Monday, December 03, 2007

A ilha.



E aqui estou de novo nesse não-lugar. Arrastado de repente por um cheiro de manhã,
de resto de sonho. A olhar o verde dourado de uma ilha no outro lado da baía.

A mensagem o vento traz assobiando num beijo.

As borboletas pulsam e cintilam o ritmo descompassado que o canto dos passarinhos calmamente orquestra.

E nessa manhã fica o cheiro. De perfume, do sorriso de flor.
Ali, de novo, no não lugar. O tempo que passou, passará e é lugar nenhum.
No verde dourado da ilha mora a promessa de maresia, como que numa garrafa que cruzou oceanos para trazer respostas.

E lá está ela. Da minha janela dá pra ver seu lado dourado. A ilha.

Sunday, November 25, 2007

Cordeiros para leões ou leões para cordeiros?

E então Deus criou a vida. E os primeiros seres - os unicelulares, os procariontes, os eucariontes, as esponjas, os autótrofos e os heterótrofos.
Desses últimos, a diferença é que enquanto um busca o alimento no ambiente o outro consegue criar das condições externas energia para si.
São sistemas de diferentes organizações celulares. Diferentes conceitos de gestão, economia, cooperação e finalidade.

O heterótrofo depende sempre de novas fontes e recursos para dar continuidade ao seu ciclo. É um conceito econômico de déficit. Sempre há necessidade de consumir.

Contudo, há uma hipótese que diz que os primeiros seres vivos eram autotróficos. Os estudiosos da origem da vida descobriram bactérias em ambientes inóspitos, como fontes de água quente e vulcões submarinos; essas bactérias produzem seu próprio alimento a partir de substâncias simples e de energia obtida em reações químicas inorgânicas.

Então esse sistema se auto-sustenta. Não há, essencialmente, a necessidade de consumir substâncias orgânicas. Isso surgiu depois, pelo aumento da complexidade na organização do coletivo de seres unicelulares e maior demanda energética – para se sustentar é preciso que mais indivíduos produzam energia e cooperem.
Assim é a organização desse sistema consumidor. É como um buraco negro, uma anti-matéria que se apropria, devora e incorpora o que é externo para crescer mais.

Esses dias fui ao cinema com minha mãe e assiti "Leões e Cordeiros". Algumas coisas nesse filme chamaram minha atenção e mexeram comigo.

Há 6 anos que o principal lucro da indústria bélica e da mídia americana é a venda de entretenimento via google – earth, maps e etc. É o buraco negro, a cissiparidade amebóide que não pára de crescer, de se alimentar faminta e fartamente. É como um adolescente médio – ou big size - da classe média – ou big size – norte-americana. Obeso e obtuso, comedor de whoppers e big macs, que não sabe quem é o governador na California, usa bonés para trás e acha que o bom questionamento social é o dos rappers e hip hoppers milionários, com correntes, dentes de ouro e pencas de mulheres.

É de se admirar como existe uma falta de questionamento de quem compra a economia desse sistema ao fato de se tornar uma matéria orgânica devorada por essa organização. Rousseu, quando pensou sobre o contrato social, previa que para que pudesse haver uma "liberdade" coletiva, o contratante precisaria abrir mão de algumas liberdades individuais, delegadas ao Estado, como o direito à alienação do seu próprio corpo.

Assim, a bandeira dos primeiros rappers era pelo respeito às diferenças. De que para ser bom não era preciso ser branco, rico ou famoso.
Mas no começo dos anos 80, em New York, no Brooklyn ou Chicago, a barra era tão pesada que o negro precisava andar bem arrumado para não levar uma incerta por aí. Na época quem fazia sucesso eram as estrelas da NBA - Michael Jordan, Shaquille O´Neal - e do futebol americano. Eles sempre andavam muito bem vestidos no seu estilo esportivo. Com moletons, bonés, camisetas, tênis e carrões.

E o hip hop, de repente - e aí ninguém perguntou-se o porquê - incorporou um discurso de posse material como afirmação. Os hip hoppers que antes pretendiam questionar o sistema, passaram a "involuntariamente" colaborar. A organização continuou sendo essencialmente predatória – e até fagocitária – quando superficialmente parecia questionar o modus operandi.

Na organização autotrófica a forma de viver e de produzir energia se faz nas mínimas condições possíveis. Não é preciso consumir mais e mais.
Há uma questão de priorizar as necessidades. A organização inteligente nutre primeiro as partes vitais ao sistema e depois as secundárias. Assim como na guerra dos americanos contra o terror, a massa orgânica que explode nos confins do além para que alguém ganhe mais dinheiro são os negros e os mexicanos. Explodem também suas finanças e necessidades nas minas de divulgação massificada de como consumir e utilizar recursos.

No sábado, vi no shopping algumas "galeras" vistas como massas orgânicas. Alvos fáceis para a propaganda heterotroficamente irresponsável. Gente que muitas vezes não lê nenhum livro sequer fora dos bancos da escola, ou que mal sabe articular um "the book is on the table" em inglês, está ali, de bonezinho, camiseta e tênis. Todos iguaizinhos. Uma turma de uns 20 a 30 até. Como um cardume. Uma grande massa orgânica no oceano pasteurizado.

E os sistema continua se desenhando e organizando. O Estado soberano se apropriou na liberdade e do direito dos seus corpos frágeis, violáveis e perecíveis. Mais massas de gente no oceano pasteurizado na economia, na organização política , militar, civil e religiosa. Seres humanos descartáveis do Afeganistão, da África e do Brasil. Homens bombas, gasolina para máquinas de guerra, massa de manobra política faminta. Pequenos seres unicelulares. Cordeiros para leões ou leões para cordeiros?

Sunday, November 18, 2007

o mundo na ampulheta.

Um bom jeito de deixar a areia escorrer pela ampulheta é tolerá-la.
Observar a superfície sulcar num redemoinho irreversível.
Contemplar o crescimento da pirâmide do outro lado.
A sabedoria egípcia de encaixar grandes blocos de tempo. De canalizar e construir.
Sabedoria que não chegou a nos deixar a fórmula da alquimia nem o elixir da vida.
Mas as múmias ficaram.E as pirâmides. E a esfinge:
- Decifra-me ou de devoro-te.
Assim é o tempo. Ou a percepção dele.

Muita gente já nasceu e morreu sob esse mesmo céu e sobre o mesmo chão.
E o mundo, em suas voltas, também envelhece um pouco.
Será essa também a solução para a boa terceira idade do terceiro planeta, a tolerância?
A tolerância consigo, com cada ruga. O respeito por cada marca, pelos fios de cabelo branco que começam a surgir.
Por ontem, a manhã ensolarada, a boa lembrança. Não a prisão.
Ao meio dia o calor é maior. E de tarde os grilos sinfonizam o pôr do sol.

Todo o tempo que escorre é consciente.
Como cada pequeno grão de areia, os segundos. E também as pessoas que passam por nossa vida.
Não podemos subtrair os segundos. E nem as pessoas.
Há que se tolerar. E, dentro do possível, “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar pra pensar, na verdade não há.”

Qual a consciência de tempo do grão de areia senão a do próprio fluxo?
Qual é a nossa medida de vida senão as pessoas?
Com saber do começo, do meio e do fim estando sós?
Quando cair o último grão, há de haver outros do outro lado a esperá-lo.
Um grão que sabe do outro. E o permite ser. Tolera.

Dois pensamentos agora me ocorrem para o bom correr dos grãos. O primeiro é que se todo o correr e decorrer dos grãos fosse bom e fácil, nem haveria o que se questionar. Lembro de uns versos de Mário Quintana que vi de passagem numa exposição em Petrópolis e me chamaram muita atenção. Guardei no tempo a “Observação”:
Não te irrites, por mais que te fizerem...Estuda, a frio, o coração alheio.Farás, assim, do mal que eles te querem,Teu mais amável e sutil recreio…

O segundo é de uma canção que Michael Jackson fez há uns 15 anos, quando eu era quinta série, “Heal the world”. Acho que tem um pouco a ver.


http://br.youtube.com/watch?v=Jpz5eD9L4dA

Sunday, November 11, 2007

ultrapassando.

É incrível como a gente perde tempo pensando em não perdê-lo.
Como na economia dos segundos perde-se a paisagem.

Em cada instante da corrida o piloto está ali. E não há de ser automático.
Não competirá com ninguém, senão ele mesmo.
A cada ultrapassagem fica pra trás o seu próprio reflexo.

E ao final da prova, num só corpo, o perdedor e o vencedor.

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Um tanto quanto sintomático escrever algo assim hoje.
Passaram-se dois anos para que eu pudesse, de verdade, voltar a correr.
A última prova foi em outubro de 2005, uma meia maratona revezada, que fiz com Hugo.
Para amadores nosso tempo foi excepcional: 1h25. Ficamos com o sétimo lugar de duplas.
Aí depois veio a hérnia. E a cirurgia.E o tempo.
O tempo que ficou para trás, como os outros competidores. Como os outros “eus”.
E aqui estou.
Talvez não exatamente no lugar e no tempo que eu pensei – só pensei - em estar agora.
Mas onde consegui. Com fôlego, suor e raça.
Nos treinos, por agora, estava fazendo os 7km ( o trajeto da corrida Petrobras ) em até 29 minutos.
Pretendia conseguir fazer em 28, o que seria excepcional – 4 minutos por quilômetro.
Na corrida, estava indo bem até a altura quinto quilômetro , com uns 20 minutos.
Então, na curva de retorno, a dor de facão pegou.

Reduzi o ritmo e alguns “eus” que deixado para trás, me passaram novamente.
Mas o importante foi manter a respiração e chegar.
Chegar fazendo o melhor de mim.
Mesmo não sendo o que pensei, foi bom. Entre os 60 primeiros.
Às vezes o ontem ultrapassa o hoje. Que por sua vez espreita o amanhã.
O resultado foi bom.Amanhã? Quem sabe?

Wednesday, February 21, 2007

o ovo ou a galinha?

Novo de novo da casca do ovo.
Ovo do novo de antes ou depois.
Galinha ou ovo? Pôr depois ou antes?
Depois do pôr vem a noite escura.
E depois do pôr, de novo, do ovo do canto do galo, de novo um novo.


E mais tarde a cor do pôr. Cor da cor da gema do ovo.
E do claro da clara só depois. Amanhã ou antes?
E se antes do ovo não houvesse galinha? Se não houvesse galinha, não tinha galo.
E quem chamaria o dia, de novo?
O ovo?
Ou a galinha?

texto: Marcos Siqueira.

acordar ou dormir ao seu lado?




















texto: Marcos Siqueira.

Hoje o sol nasceu e senti falta de acordar ao seu lado. Falta de você para não acordar.
Para levitar e não levantar. Só contemplar. Sonhar.
Ouvir cigarras e passarinhos chamando para o dia com seus raios de sol.
Dourando em desenhos de um calor aconchegante mais um dia que é.
Hoje. Eu, você e o céu azul. Como se a chuva passasse e descêssemos então da arca de Noé.
Hoje. Acordar ao seu lado. Acariciar seus cabelos. Beijar-te e, seguindo caminhos agridoces do seu cheiro, fazer nosso amor mais sagrado.
Olhar seus olhos, pela janela da alma, e adivinhar a alegria das crianças nos dias lá fora.
Então, aqui de dentro fulôra uma lágrima, como uma gota de orvalho, dessa manhã.
Como toda água sagrada que batiza suave a gravidade na altura do que sente o coração.
Me dê a mão nessa manhã de hoje e também nos outonos e primaveras.
Para depois, no balanço das ondas e das horas, dormir e acordar ao seu lado.

Tuesday, January 30, 2007

viver.


"Viver é simplesmente um grande balão.
Voar no céu azul é a missão."

("Ê, povo, ê" - Gilberto Gil)

Friday, December 29, 2006

Ano novo. Eu Rio em lágrimas.



Engraçado é que isso tudo ainda assuste todo mundo. Parece besteira quando a gente toma susto em filme de suspense. Afinal, se no filme você já sabe que alguma coisa muito feia vai acontecer de repente, e por mais que você já soubesse que algo seco, frio, brusco e mortal estava para acontecer... Ainda assim você não devia se assustar!
A gente nem devia mais se assustar se as coisas já andam mesmo tão doidas. E já faz muito tempo.

Tempo que nem mesmo a própria história ensinou o homem a digerir. A olhar pra trás e aprender com os próprios erros. Tempo que passa todos os dias, com gente nascendo e gente morrendo. Gente morrendo. Gente sofrendo. E gente que ainda continua insistindo em nascer nesse mundo tão inexplicável e misterioso.
Pelo menos para nós mortais.
Talvez a eternidade, que ninguém consegue conceber, resida no segredo de aprender com o tempo. Aprender a conviver e tirar proveito dele. Lembrei agora de um verso que um dia alguém me disse, de uma música de Luiz Gonzaga: “o fruto bom dá no tempo, no pé pra gente tirar. Quem colhe fora do tempo não sabe o que o tempo dá”.
E o tempo não para de passar, e a chuva nunca para de descer, o sol nunca para de queimar, o Rio nunca para de correr e o fruto e o Brasil nunca amadurecem. Os tiros nunca param de matar e o rio nunca para de sangrar.

Sangue da nascente de lá do alto das cordilheiras do tempo. De um sol poente, vermelho da cor do natal. Tempo que a gente não entende. Como nessa mesma terra brasileira há séculos atrás, num tempo que a gente continua sem entender, o índio também não entendeu nada. Não entendeu que a brancura reluzente das caravelas no oceano era um sinal do fim dos tempos – pelo menos o dele. Não entendeu que, daquela cruz, nem mesmo aquele homem que todos chamam de filho de Deus conseguiu escapar. A cruz das grandes navegações, das bandeiras, dos escudos, das cruzadas e das espadas. A cruz dos nazistas. A cruz que foi inventada como instrumento de tortura e pena de morte para os mais vis criminosos da antiguidade.
A cruz que continua machucando depois do carnaval e semana santa.
O sinal da cruz que a gente costuma fazer, se benzendo, para se proteger do mal. Assim como quem vai viajar de avião faz, quando fica com medo e se benze. Ou então quando se faz o sinal da cruz para ver se ajuda a conseguir embarcar e chegar a tempo, voando, para ver a família e os amigos na ceia de natal.

Tem também o sinal da cruz que todo mundo faz quando alguém que a gente conhece morre e a gente diz “que Deus o tenha”. Ontem foi um colega meu lá da Petrobras. Foi embora desse mundo louco na correnteza misteriosa do tempo.
Bira era muito gente boa, não merecia viver toda essa loucura do dia de hoje e dos dias que virão. Dias de novas brancuras reluzentes no horizonte do mar de mais um reveillon. Quem sabe? Vai ver que foi por isso que Deus tocou o dedo forte demais no coração dele e o levou para perto. Para ajudá-lo a ouvir as tantas preces, pedidos e promessas que evaporam do calor lá debaixo, do Rio de lágrimas.

Bira era um sujeito alegre. Tinha entre 50 e 60 anos e parecia estar sempre bem disposto, pronto para ajudar. Trabalhava na reprografia do Cenpes e cuidava do material gráfico e das impressões de lá. Era magrinho, tinha os cabelos encaracolados, usava uns óculos engraçados de aros grossos e tinha um sorriso no rosto que mostravam sua alegria de viver e gentileza entre uns poucos dentes estragados. Gentileza. Era um poeta.

“Apagaram tudo. Pintaram tudo de cinza”. Cantarolei um trecho da música de Marisa Monte para o taxista que me trouxe de volta para casa hoje. O gerente-executivo do Cenpes deu ordens expressas para que ninguém ficasse lá depois das quatro e meia da tarde. Eu desobedeci. Morrendo de medo. Mas precisei desobedecer e ficar até mais tarde para concluir um trabalho urgente. Estava cheio de cálculos para fazer. Calcular a área em centímetros quadrados a qual cada marca, dos parceiros de um projeto da empresa, terá direito a aplicar na envelopagem promocional de pick-ups de acordo com sua participação financeira percentual. É incrível como nessas horas a adrenalina dispara o cérebro. Eu, que quase fui pra a recuperação de matemática, consegui terminar o trabalho um pouco antes das seis.
Chamei o táxi e tinha um voucher da empresa para voltar para casa. O taxista era um cara jovem, chamado Alexandre. Quando estávamos saindo pela linha vermelha para entrar na avenida Brasil, Alexandre ainda estava falando no celular com sua mãe, sua ex-mulher e seu filho pequeno, tentando combinar o seu fim de semana de fim de ano. Quando desligou pude finalmente perguntar para ele se tinha notícias sobre os tiroteios que estavam acontecendo. Ele estava meio por fora. Comentou algo sobre as milícias. Depois a mulher dele ligou novamente para dizer que a cachorra deles tinha furado a bolsa e não conseguia parir. Estava passando mal e precisava de um veterinário. Alexandre ligou para outra pessoa, pedindo que chamasse o veterinário da favela. Eu também tive que deixar minha cachorrinha sujando a casa da minha tia mais um dia, lá em Niterói. Atravessar a ponte hoje seria loucura.
Foi quando estávamos passando pelos viadutos em São Cristóvão, perto do colégio Pedro II – eu ainda não conheço bem a cidade e ele pegou um outro caminho para minha casa em Santa Teresa. Lá estavam as mensagens do profeta Gentileza. Novinhas em folha. Atuais. Parecia até que tinham sido pintadas esses dias. Aí perguntei a Alexandre, que estava meio distraído:
- Será que essas mensagens de Gentileza ninguém conseguiu apagar?
- Apagaram? Não sei.
- Apagaram tudo. Pintaram tudo de cinza... - cantarolei um trecho da canção para ele.
- É... talvez tenham restaurado...
- Pode ser. Mas já tem um tempo que estão apagando a poesia dessa cidade e Gentileza já morreu.
- Ele já morreu? Não sabia... Toda hora eu via ele passando por aqui – disse Alexandre, meio distraído.
- Já morreu. Você sabe a história dele? Dizem que perdeu toda sua família num acidente ou numa tragédia. Ficou sozinho, virou mendigo, saiu da roda do tempo e conseguiu entender tudo. Escrevia por aqui essas coisas, pintando com essas letras bonitas e coloridas o cinza da cidade.
- É, mermão... Quando o cara não consegue agüentar, pira né?

É, Alexandre. Quando a gente não consegue agüentar a gente pira. Ou prefere não ver o que está acontecendo bem na nossa frente. Fica distraído.

No caminho eu já tinha passado o número do meu voucher a Alexandre, para o pagamento da corrida pela empresa. Peguei de volta para preencher os meus dados. Estava comigo. Eu preenchi. Quando o táxi parou na frente aqui do prédio e eu fui saltar, cadê o voucher?
Cadê? Revirei o carro todo. Vasculhei toda a minha bolsa. Olhei debaixo dos bancos e dos tapetes, meus bolsos, entre as páginas de “As veias abertas da América Latina” - que estou lendo tardiamente - e nada. Só achei uns papéis antigos. As janelas vieram o tempo todo fechadas. Menos a do motorista. Não entendi e, sinceramente não quero nem pensar em desconfiar dele. Ele parecia ser uma boa pessoa. E, em 2007 e em todos os anos do resto da minha vida, ainda quero poder continuar acreditando nas pessoas.
O voucher sumiu. Possivelmente achou algum portal do tempo misterioso que a gente desconhece e está sendo recebido por outro taxista por algum outro eu no bairro de Santa Teresa no Rio de Janeiro de outra dimensão. Ou outra possibilidade quântica. Pedi para ele esperar, vim ao apartamento, peguei um cheque meu, preenchi e paguei. Trinta e sete reais. Ele me deu o recibo e pegou meu telefone para o caso do taxista da outra dimensão não aceitar o pagamento em voucher.Mistério.

“Ai que saudade eu tenho da Bahia. Ai se eu escutasse o que mamãe dizia.” E mamãe dizia que não agüenta mais brigas. Disse para mim e para minha irmã, que chegou hoje no Rio – logo hoje! - e que não veio direto aqui pra casa, foi para a casa da minha tia e de uma amiga, por que discutimos por besteiras de irmãos e por acusações infundadas de plágio literário por ambas as partes. Não me pediu desculpas. Nem eu pedi. A gente nunca pede. Ela me ligou antes de eu começar a escrever, me chamando para ir no Cobal em Botafogo tomar uma cerveja com ela e sua amiga. Disse que não ia.
E aconselhei-a a também não se arriscar.
Está perdoada. Mesmo não tendo pedido desculpas. E pode vir ficar aqui em casa, se quiser.
A poeira já baixou. Sempre baixa rápido.
Temos que manter a irmandade, levar na esportiva. O Rio de Janeiro também tenta levar na esportiva. Mas quem sabe o que será do Pan 2007 depois de toda essa confusão?
Que baixa a poeira. Na santa paz de Deus. No mais perfeito caos.

Mas se pra mim a poeira já baixou, as estrelas caíram do céu e as parcas continuam conspirando. Nas luzinhas da árvore de natal que é o Morro dos Prazeres, minha paisagem da janela da sala, ao lado do sovaco esquerdo do Corcovado, no coração do Cristo, o foguetório do reveillon já começou. Estranhos prazeres. Podres poderes.
Enquanto isso o Jornal Nacional mostrava os estragos do dia de hoje.
Um estranho fim de ano. Deve ser por causa da época do Natal, hoje todo mundo me ligou querendo saber notícias.
Sinceramente. Hoje eu não entendi nada. Ou acho que estou ficando distraído.

Marcos Siqueira. 28/12/2006.

Sunday, December 10, 2006

homens de família.



por Marcos Siqueira.

Sou um homem de família. De família grande. Grande mesmo.
De sangue, tenho meu pai, minha mãe, duas irmãs e um irmão. E uns 21 primos, pelo que consegui contar agora de cabeça. Tenho sete tios emprestados e só um de verdade. E tenho oito tias, sendo que seis delas são irmãs da minha mãe – da casa das sete mulheres - e que a minha tia por parte de pai é também minha dinda. Ainda tem também vovô Geraldo e vovó Yayá (vovô Eraldo e vovó Lourdes já foram embora...). E os agregados também estão no mesmo barco. Os namorados(as) e os maridos(as) das minhas primas(os) – e os que estão para chegar, né Silvinha? Os ex-namorados de minha irmã (ps1. não foram muitos... dois só, que eu saiba... ps2. me refiro a minha irmã mais velha, a mais nova – eu que sou o dindo dela – tem só doze anos... pode esquecer essa história de juventude precoce...), a namorada do meu irmão e ... Ah! Ainda tem as duas filhas da mulher do meu pai! E também os três filhos do marido da minha mãe. E, claro, minha boadrasta e meu brodastro!
(Abro esses parênteses por que esqueci de dizer que meus pais se separam quando eu tinha uns nove anos e que cada um casou de novo e que minha irmãzinha é só por parte de pai. Fecho parênteses.)
E aí, é claro, eu não posso deixar de mencionar os irmãos de coração. Por que eles também são verdadeiros irmãos mesmo. Não importa se são ou não são filhos do mesmo pai e da mesma mãe. Irmãos com quem a gente cresce junto, com quem rimos e com quem choramos. Os irmãos que a gente vem escolhendo nessa vida por ai afora, nesse mundão de meu Deus. Os amigos. A galera. Os broders. Irmãos, companheiros de todo dia.
E já que esse mundão de meu Deus é tão grande e meu Deus não é só meu, é nosso, e Ele tem tantos filhos, que eu tenho também todos esses irmãos de alma.
Irmãos de humanidade. Irmãos em Deus.
Os irmãos do cotidiano. O irmão a quem eu dou bom dia de manhã cedinho, quase de madrugada, quando eu subo no ônibus e é ele quem está lá sorrindo, ou até mal-humorado, pilotando o caminho do começo do dia de um monte de gente.
Gente de dentro do ônibus. Irmãos de segunda-feira. Irmãos de engarrafamentos. De violência urbana, de superpopulação. De solidariedade, de cidadania, de respeito. De união. Todo mundo no mesmo barco. Ou barca furada. Ou não.
Os irmãos do trabalho. Que além de serem irmãos, jogam no mesmo time. Pra eles é que a gente mata a bola no peito e dá aquele passe na medida e deixa o parceiro de cara pra um golaço de placa! E quem ganha é o time todo! Nós. A grande família de todos os dias úteis. E dos inúteis também!
A família do horário de verão. A família nordestina. A família da roça. A família espalhada pelo mundo. Os amigos e irmãos, os estrangeiros e os brasileiros dos Estados Unidos, do Canadá (abraço pra meu primo Hugão, grande broder), da República dos Camarões, da Holanda, França e Suíça. Índia, Paquistão, Papua Nova-Guiné, Japão. Luanda, Peru, Egito e Pólo Norte.
Amazônia, pulmão do planeta. Brasil, coração do mundo.
A humanidade tão brasileira, quanto chinesa ou européia. Os irmãos virtuais.
Os irmãos WWW. Os trigêmeos DDD. Os XXY e os XXX, triplo X.
E até os fresquinhos irmãos KLB. É todo mundo irmão.
É. Sou mesmo um homem de família grande. Uma família com uns seis bilhões de irmãos. De pais, mães, tios, tias, primos, avós e afins.
Até lembrei agora daquele romance de Maria José Dupré que tinha na série vaga-lume – quem nunca leu? – e que até virou novela do SBT, “Éramos seis”... Me dá medo que isso seja um mau augúrio.
Tenho medo dos efeitos do aquecimento global. Medo da falta de água. De comida. Da falta de educação. Da falta de consciência. Da falta de limites. Da falta de respeito. Medo do bicho homem. Abel com medo de Caim. Medo da ciência usada para o mal. Medo das bombas.
Medo das palavras mal colocadas. Ou bem colocadas, na mira, para ferir o coração de algum outro irmão. Medo da escravidão física. Medo da escravidão mental.
De Caim matar Abel.
Medo da guerra.
Aí estava eu aqui, hoje à noite, em pleno sábado à noite, com tantos irmãos – e irmãs! – me esperando por aí, pensando numa frase de uma música do Araketu, “tambores pela paz mundial, é normal no carnaval, eu sou araketu na avenida...”
Tava pensando numa dessas geralmente bobas mensagens de fim de ano da rede globo. Só que essa, apesar de simples não era boba. E de quantas idéias muito simples já não construímos, nós mesmos dessa família humana, civilizações e impérios? A simplicidade do fogo e da roda. A invenção da matemática e da escrita. Do papiro.
Tudo muito simples. Muito revolucionário.
E a revolucionária idéia do comercial de fim de ano da globo – que inclusive já teve bons momentos do tipo “Esse ano eu quero paz no meu coração. Quem quiser ser meu amigo, que me dê a mão...” – dizia mais ou menos assim num diálogo que tinha também Edson Celulari e Cláudia Raia:
- E se todo mundo, todo dia se tratasse como irmãos?
-Bom dia, meu irmão!
- Bom dia, irmãzinha!
O mundo não seria bem melhor assim? Vamos precisar muito contar com nossos irmãos para enfrentar as barras que vem por aí. Nos dar as mãos. E vamos aproveitar ao máximo para aprender tudo o que ainda possamos aprender com a nossa maravilhosa diversidade cultural. Vamos aproveitar a geografia, os pontos históricos, turísticos e o avião. Enquanto ainda temos celular e internet. Vamos aproveitar enquanto ainda somos todos nós. Vamos nos conhecer. Aproveitar e vencer as nossas barreiras. Para que o amanhã seja melhor. Para saber a maravilha que aflora entre o raiar e o crepúsculo de uma vida. Entre o primeiro choro e o último suspiro. Vamos aprender a olhar nos olhos. A sorrir. A chorar. Vamos nos unir, enquanto ainda é tempo, para que a humanidade vença e supere todos os obstáculos. Que ainda seja humanidade.
Para nos tornarmos melhores.
Para sermos mais irmãos. Homens de família.

Friday, December 01, 2006

trilhas do universo ou caminhos do coração.



























por Marcos Siqueira.

O fim ou o recomeço? E se já se tinha tudo revirado ao avesso, que fazer agora?
E então? Olhar no chão ou mirar estrelas? Aqui abaixo do manto do firmamento só poucas faíscas, fracas centelhas. E pouca resposta.
O tempo pára e a mata cerra. Trilhas e milhas a abrir. Caminhos de luz e vento. Onde vai o pensamento. Pelas artérias, veias e capilares, desenhando os caminhos do coração. Em quentes fagulhas e respingos de uma pulsação febril, de formas expressionistas e cores surreais.
Lá de cima, constelações rezam pelas luzinhas das casas de toda gente, dos barracos nas cidades, dos morros cheios de vida. Das árvores de mais um Natal qualquer. Apagando e acendendo estrelas. Nascendo e morrendo gente. Pisca piscando. Pulsação. Latente bate-bate de TUM, TUM, TUM.
Mais forte o coração pergunta ao universo: e agora? E então?

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