Sunday, November 25, 2007
Cordeiros para leões ou leões para cordeiros?
Desses últimos, a diferença é que enquanto um busca o alimento no ambiente o outro consegue criar das condições externas energia para si.
São sistemas de diferentes organizações celulares. Diferentes conceitos de gestão, economia, cooperação e finalidade.
O heterótrofo depende sempre de novas fontes e recursos para dar continuidade ao seu ciclo. É um conceito econômico de déficit. Sempre há necessidade de consumir.
Contudo, há uma hipótese que diz que os primeiros seres vivos eram autotróficos. Os estudiosos da origem da vida descobriram bactérias em ambientes inóspitos, como fontes de água quente e vulcões submarinos; essas bactérias produzem seu próprio alimento a partir de substâncias simples e de energia obtida em reações químicas inorgânicas.
Então esse sistema se auto-sustenta. Não há, essencialmente, a necessidade de consumir substâncias orgânicas. Isso surgiu depois, pelo aumento da complexidade na organização do coletivo de seres unicelulares e maior demanda energética – para se sustentar é preciso que mais indivíduos produzam energia e cooperem.
Assim é a organização desse sistema consumidor. É como um buraco negro, uma anti-matéria que se apropria, devora e incorpora o que é externo para crescer mais.
Esses dias fui ao cinema com minha mãe e assiti "Leões e Cordeiros". Algumas coisas nesse filme chamaram minha atenção e mexeram comigo.
Há 6 anos que o principal lucro da indústria bélica e da mídia americana é a venda de entretenimento via google – earth, maps e etc. É o buraco negro, a cissiparidade amebóide que não pára de crescer, de se alimentar faminta e fartamente. É como um adolescente médio – ou big size - da classe média – ou big size – norte-americana. Obeso e obtuso, comedor de whoppers e big macs, que não sabe quem é o governador na California, usa bonés para trás e acha que o bom questionamento social é o dos rappers e hip hoppers milionários, com correntes, dentes de ouro e pencas de mulheres.
É de se admirar como existe uma falta de questionamento de quem compra a economia desse sistema ao fato de se tornar uma matéria orgânica devorada por essa organização. Rousseu, quando pensou sobre o contrato social, previa que para que pudesse haver uma "liberdade" coletiva, o contratante precisaria abrir mão de algumas liberdades individuais, delegadas ao Estado, como o direito à alienação do seu próprio corpo.
Assim, a bandeira dos primeiros rappers era pelo respeito às diferenças. De que para ser bom não era preciso ser branco, rico ou famoso.
Mas no começo dos anos 80, em New York, no Brooklyn ou Chicago, a barra era tão pesada que o negro precisava andar bem arrumado para não levar uma incerta por aí. Na época quem fazia sucesso eram as estrelas da NBA - Michael Jordan, Shaquille O´Neal - e do futebol americano. Eles sempre andavam muito bem vestidos no seu estilo esportivo. Com moletons, bonés, camisetas, tênis e carrões.
E o hip hop, de repente - e aí ninguém perguntou-se o porquê - incorporou um discurso de posse material como afirmação. Os hip hoppers que antes pretendiam questionar o sistema, passaram a "involuntariamente" colaborar. A organização continuou sendo essencialmente predatória – e até fagocitária – quando superficialmente parecia questionar o modus operandi.
Na organização autotrófica a forma de viver e de produzir energia se faz nas mínimas condições possíveis. Não é preciso consumir mais e mais.
Há uma questão de priorizar as necessidades. A organização inteligente nutre primeiro as partes vitais ao sistema e depois as secundárias. Assim como na guerra dos americanos contra o terror, a massa orgânica que explode nos confins do além para que alguém ganhe mais dinheiro são os negros e os mexicanos. Explodem também suas finanças e necessidades nas minas de divulgação massificada de como consumir e utilizar recursos.
No sábado, vi no shopping algumas "galeras" vistas como massas orgânicas. Alvos fáceis para a propaganda heterotroficamente irresponsável. Gente que muitas vezes não lê nenhum livro sequer fora dos bancos da escola, ou que mal sabe articular um "the book is on the table" em inglês, está ali, de bonezinho, camiseta e tênis. Todos iguaizinhos. Uma turma de uns 20 a 30 até. Como um cardume. Uma grande massa orgânica no oceano pasteurizado.
E os sistema continua se desenhando e organizando. O Estado soberano se apropriou na liberdade e do direito dos seus corpos frágeis, violáveis e perecíveis. Mais massas de gente no oceano pasteurizado na economia, na organização política , militar, civil e religiosa. Seres humanos descartáveis do Afeganistão, da África e do Brasil. Homens bombas, gasolina para máquinas de guerra, massa de manobra política faminta. Pequenos seres unicelulares. Cordeiros para leões ou leões para cordeiros?
Sunday, November 18, 2007
o mundo na ampulheta.
Observar a superfície sulcar num redemoinho irreversível.
Contemplar o crescimento da pirâmide do outro lado.
A sabedoria egípcia de encaixar grandes blocos de tempo. De canalizar e construir.
Sabedoria que não chegou a nos deixar a fórmula da alquimia nem o elixir da vida.
Mas as múmias ficaram.E as pirâmides. E a esfinge:
- Decifra-me ou de devoro-te.
Assim é o tempo. Ou a percepção dele.
Muita gente já nasceu e morreu sob esse mesmo céu e sobre o mesmo chão.
E o mundo, em suas voltas, também envelhece um pouco.
Será essa também a solução para a boa terceira idade do terceiro planeta, a tolerância?
A tolerância consigo, com cada ruga. O respeito por cada marca, pelos fios de cabelo branco que começam a surgir.
Por ontem, a manhã ensolarada, a boa lembrança. Não a prisão.
Ao meio dia o calor é maior. E de tarde os grilos sinfonizam o pôr do sol.
Todo o tempo que escorre é consciente.
Como cada pequeno grão de areia, os segundos. E também as pessoas que passam por nossa vida.
Não podemos subtrair os segundos. E nem as pessoas.
Há que se tolerar. E, dentro do possível, “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar pra pensar, na verdade não há.”
Qual a consciência de tempo do grão de areia senão a do próprio fluxo?
Qual é a nossa medida de vida senão as pessoas?
Com saber do começo, do meio e do fim estando sós?
Quando cair o último grão, há de haver outros do outro lado a esperá-lo.
Um grão que sabe do outro. E o permite ser. Tolera.
Dois pensamentos agora me ocorrem para o bom correr dos grãos. O primeiro é que se todo o correr e decorrer dos grãos fosse bom e fácil, nem haveria o que se questionar. Lembro de uns versos de Mário Quintana que vi de passagem numa exposição em Petrópolis e me chamaram muita atenção. Guardei no tempo a “Observação”:
Não te irrites, por mais que te fizerem...Estuda, a frio, o coração alheio.Farás, assim, do mal que eles te querem,Teu mais amável e sutil recreio…
O segundo é de uma canção que Michael Jackson fez há uns 15 anos, quando eu era quinta série, “Heal the world”. Acho que tem um pouco a ver.
http://br.youtube.com/watch?v=Jpz5eD9L4dA
Sunday, November 11, 2007
ultrapassando.
Como na economia dos segundos perde-se a paisagem.
Em cada instante da corrida o piloto está ali. E não há de ser automático.
Não competirá com ninguém, senão ele mesmo.
A cada ultrapassagem fica pra trás o seu próprio reflexo.
E ao final da prova, num só corpo, o perdedor e o vencedor.
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Um tanto quanto sintomático escrever algo assim hoje.
Passaram-se dois anos para que eu pudesse, de verdade, voltar a correr.
A última prova foi em outubro de 2005, uma meia maratona revezada, que fiz com Hugo.
Para amadores nosso tempo foi excepcional: 1h25. Ficamos com o sétimo lugar de duplas.
Aí depois veio a hérnia. E a cirurgia.E o tempo.
O tempo que ficou para trás, como os outros competidores. Como os outros “eus”.
E aqui estou.
Talvez não exatamente no lugar e no tempo que eu pensei – só pensei - em estar agora.
Mas onde consegui. Com fôlego, suor e raça.
Nos treinos, por agora, estava fazendo os 7km ( o trajeto da corrida Petrobras ) em até 29 minutos.
Pretendia conseguir fazer em 28, o que seria excepcional – 4 minutos por quilômetro.
Na corrida, estava indo bem até a altura quinto quilômetro , com uns 20 minutos.
Então, na curva de retorno, a dor de facão pegou.
Reduzi o ritmo e alguns “eus” que deixado para trás, me passaram novamente.
Mas o importante foi manter a respiração e chegar.
Chegar fazendo o melhor de mim.
Mesmo não sendo o que pensei, foi bom. Entre os 60 primeiros.
Às vezes o ontem ultrapassa o hoje. Que por sua vez espreita o amanhã.
O resultado foi bom.Amanhã? Quem sabe?
Wednesday, February 21, 2007
o ovo ou a galinha?
Novo de novo da casca do ovo.Ovo do novo de antes ou depois.
Galinha ou ovo? Pôr depois ou antes?
Depois do pôr vem a noite escura.
E depois do pôr, de novo, do ovo do canto do galo, de novo um novo.
E mais tarde a cor do pôr. Cor da cor da gema do ovo.
E do claro da clara só depois. Amanhã ou antes?
E se antes do ovo não houvesse galinha? Se não houvesse galinha, não tinha galo.
E quem chamaria o dia, de novo?
O ovo?
Ou a galinha?
texto: Marcos Siqueira.
acordar ou dormir ao seu lado?
texto: Marcos Siqueira.
Hoje o sol nasceu e senti falta de acordar ao seu lado. Falta de você para não acordar.
Para levitar e não levantar. Só contemplar. Sonhar.
Ouvir cigarras e passarinhos chamando para o dia com seus raios de sol.
Dourando em desenhos de um calor aconchegante mais um dia que é.
Hoje. Eu, você e o céu azul. Como se a chuva passasse e descêssemos então da arca de Noé.
Hoje. Acordar ao seu lado. Acariciar seus cabelos. Beijar-te e, seguindo caminhos agridoces do seu cheiro, fazer nosso amor mais sagrado.
Olhar seus olhos, pela janela da alma, e adivinhar a alegria das crianças nos dias lá fora.
Então, aqui de dentro fulôra uma lágrima, como uma gota de orvalho, dessa manhã.
Como toda água sagrada que batiza suave a gravidade na altura do que sente o coração.
Me dê a mão nessa manhã de hoje e também nos outonos e primaveras.
Para depois, no balanço das ondas e das horas, dormir e acordar ao seu lado.
Tuesday, January 30, 2007
Friday, December 29, 2006
Ano novo. Eu Rio em lágrimas.

Engraçado é que isso tudo ainda assuste todo mundo. Parece besteira quando a gente toma susto em filme de suspense. Afinal, se no filme você já sabe que alguma coisa muito feia vai acontecer de repente, e por mais que você já soubesse que algo seco, frio, brusco e mortal estava para acontecer... Ainda assim você não devia se assustar!
A gente nem devia mais se assustar se as coisas já andam mesmo tão doidas. E já faz muito tempo.
Tempo que nem mesmo a própria história ensinou o homem a digerir. A olhar pra trás e aprender com os próprios erros. Tempo que passa todos os dias, com gente nascendo e gente morrendo. Gente morrendo. Gente sofrendo. E gente que ainda continua insistindo em nascer nesse mundo tão inexplicável e misterioso.
Pelo menos para nós mortais.
Talvez a eternidade, que ninguém consegue conceber, resida no segredo de aprender com o tempo. Aprender a conviver e tirar proveito dele. Lembrei agora de um verso que um dia alguém me disse, de uma música de Luiz Gonzaga: “o fruto bom dá no tempo, no pé pra gente tirar. Quem colhe fora do tempo não sabe o que o tempo dá”.
E o tempo não para de passar, e a chuva nunca para de descer, o sol nunca para de queimar, o Rio nunca para de correr e o fruto e o Brasil nunca amadurecem. Os tiros nunca param de matar e o rio nunca para de sangrar.
Sangue da nascente de lá do alto das cordilheiras do tempo. De um sol poente, vermelho da cor do natal. Tempo que a gente não entende. Como nessa mesma terra brasileira há séculos atrás, num tempo que a gente continua sem entender, o índio também não entendeu nada. Não entendeu que a brancura reluzente das caravelas no oceano era um sinal do fim dos tempos – pelo menos o dele. Não entendeu que, daquela cruz, nem mesmo aquele homem que todos chamam de filho de Deus conseguiu escapar. A cruz das grandes navegações, das bandeiras, dos escudos, das cruzadas e das espadas. A cruz dos nazistas. A cruz que foi inventada como instrumento de tortura e pena de morte para os mais vis criminosos da antiguidade.
A cruz que continua machucando depois do carnaval e semana santa.
O sinal da cruz que a gente costuma fazer, se benzendo, para se proteger do mal. Assim como quem vai viajar de avião faz, quando fica com medo e se benze. Ou então quando se faz o sinal da cruz para ver se ajuda a conseguir embarcar e chegar a tempo, voando, para ver a família e os amigos na ceia de natal.
Tem também o sinal da cruz que todo mundo faz quando alguém que a gente conhece morre e a gente diz “que Deus o tenha”. Ontem foi um colega meu lá da Petrobras. Foi embora desse mundo louco na correnteza misteriosa do tempo.
Bira era muito gente boa, não merecia viver toda essa loucura do dia de hoje e dos dias que virão. Dias de novas brancuras reluzentes no horizonte do mar de mais um reveillon. Quem sabe? Vai ver que foi por isso que Deus tocou o dedo forte demais no coração dele e o levou para perto. Para ajudá-lo a ouvir as tantas preces, pedidos e promessas que evaporam do calor lá debaixo, do Rio de lágrimas.
Bira era um sujeito alegre. Tinha entre 50 e 60 anos e parecia estar sempre bem disposto, pronto para ajudar. Trabalhava na reprografia do Cenpes e cuidava do material gráfico e das impressões de lá. Era magrinho, tinha os cabelos encaracolados, usava uns óculos engraçados de aros grossos e tinha um sorriso no rosto que mostravam sua alegria de viver e gentileza entre uns poucos dentes estragados. Gentileza. Era um poeta.
“Apagaram tudo. Pintaram tudo de cinza”. Cantarolei um trecho da música de Marisa Monte para o taxista que me trouxe de volta para casa hoje. O gerente-executivo do Cenpes deu ordens expressas para que ninguém ficasse lá depois das quatro e meia da tarde. Eu desobedeci. Morrendo de medo. Mas precisei desobedecer e ficar até mais tarde para concluir um trabalho urgente. Estava cheio de cálculos para fazer. Calcular a área em centímetros quadrados a qual cada marca, dos parceiros de um projeto da empresa, terá direito a aplicar na envelopagem promocional de pick-ups de acordo com sua participação financeira percentual. É incrível como nessas horas a adrenalina dispara o cérebro. Eu, que quase fui pra a recuperação de matemática, consegui terminar o trabalho um pouco antes das seis.
Chamei o táxi e tinha um voucher da empresa para voltar para casa. O taxista era um cara jovem, chamado Alexandre. Quando estávamos saindo pela linha vermelha para entrar na avenida Brasil, Alexandre ainda estava falando no celular com sua mãe, sua ex-mulher e seu filho pequeno, tentando combinar o seu fim de semana de fim de ano. Quando desligou pude finalmente perguntar para ele se tinha notícias sobre os tiroteios que estavam acontecendo. Ele estava meio por fora. Comentou algo sobre as milícias. Depois a mulher dele ligou novamente para dizer que a cachorra deles tinha furado a bolsa e não conseguia parir. Estava passando mal e precisava de um veterinário. Alexandre ligou para outra pessoa, pedindo que chamasse o veterinário da favela. Eu também tive que deixar minha cachorrinha sujando a casa da minha tia mais um dia, lá em Niterói. Atravessar a ponte hoje seria loucura.
Foi quando estávamos passando pelos viadutos em São Cristóvão, perto do colégio Pedro II – eu ainda não conheço bem a cidade e ele pegou um outro caminho para minha casa em Santa Teresa. Lá estavam as mensagens do profeta Gentileza. Novinhas em folha. Atuais. Parecia até que tinham sido pintadas esses dias. Aí perguntei a Alexandre, que estava meio distraído:
- Será que essas mensagens de Gentileza ninguém conseguiu apagar?
- Apagaram? Não sei.
- Apagaram tudo. Pintaram tudo de cinza... - cantarolei um trecho da canção para ele.
- É... talvez tenham restaurado...
- Pode ser. Mas já tem um tempo que estão apagando a poesia dessa cidade e Gentileza já morreu.
- Ele já morreu? Não sabia... Toda hora eu via ele passando por aqui – disse Alexandre, meio distraído.
- Já morreu. Você sabe a história dele? Dizem que perdeu toda sua família num acidente ou numa tragédia. Ficou sozinho, virou mendigo, saiu da roda do tempo e conseguiu entender tudo. Escrevia por aqui essas coisas, pintando com essas letras bonitas e coloridas o cinza da cidade.
- É, mermão... Quando o cara não consegue agüentar, pira né?
É, Alexandre. Quando a gente não consegue agüentar a gente pira. Ou prefere não ver o que está acontecendo bem na nossa frente. Fica distraído.
No caminho eu já tinha passado o número do meu voucher a Alexandre, para o pagamento da corrida pela empresa. Peguei de volta para preencher os meus dados. Estava comigo. Eu preenchi. Quando o táxi parou na frente aqui do prédio e eu fui saltar, cadê o voucher?
Cadê? Revirei o carro todo. Vasculhei toda a minha bolsa. Olhei debaixo dos bancos e dos tapetes, meus bolsos, entre as páginas de “As veias abertas da América Latina” - que estou lendo tardiamente - e nada. Só achei uns papéis antigos. As janelas vieram o tempo todo fechadas. Menos a do motorista. Não entendi e, sinceramente não quero nem pensar em desconfiar dele. Ele parecia ser uma boa pessoa. E, em 2007 e em todos os anos do resto da minha vida, ainda quero poder continuar acreditando nas pessoas.
O voucher sumiu. Possivelmente achou algum portal do tempo misterioso que a gente desconhece e está sendo recebido por outro taxista por algum outro eu no bairro de Santa Teresa no Rio de Janeiro de outra dimensão. Ou outra possibilidade quântica. Pedi para ele esperar, vim ao apartamento, peguei um cheque meu, preenchi e paguei. Trinta e sete reais. Ele me deu o recibo e pegou meu telefone para o caso do taxista da outra dimensão não aceitar o pagamento em voucher.Mistério.
“Ai que saudade eu tenho da Bahia. Ai se eu escutasse o que mamãe dizia.” E mamãe dizia que não agüenta mais brigas. Disse para mim e para minha irmã, que chegou hoje no Rio – logo hoje! - e que não veio direto aqui pra casa, foi para a casa da minha tia e de uma amiga, por que discutimos por besteiras de irmãos e por acusações infundadas de plágio literário por ambas as partes. Não me pediu desculpas. Nem eu pedi. A gente nunca pede. Ela me ligou antes de eu começar a escrever, me chamando para ir no Cobal em Botafogo tomar uma cerveja com ela e sua amiga. Disse que não ia.
E aconselhei-a a também não se arriscar.
Está perdoada. Mesmo não tendo pedido desculpas. E pode vir ficar aqui em casa, se quiser.
A poeira já baixou. Sempre baixa rápido.
Temos que manter a irmandade, levar na esportiva. O Rio de Janeiro também tenta levar na esportiva. Mas quem sabe o que será do Pan 2007 depois de toda essa confusão?
Que baixa a poeira. Na santa paz de Deus. No mais perfeito caos.
Mas se pra mim a poeira já baixou, as estrelas caíram do céu e as parcas continuam conspirando. Nas luzinhas da árvore de natal que é o Morro dos Prazeres, minha paisagem da janela da sala, ao lado do sovaco esquerdo do Corcovado, no coração do Cristo, o foguetório do reveillon já começou. Estranhos prazeres. Podres poderes.
Enquanto isso o Jornal Nacional mostrava os estragos do dia de hoje.
Um estranho fim de ano. Deve ser por causa da época do Natal, hoje todo mundo me ligou querendo saber notícias.
Sinceramente. Hoje eu não entendi nada. Ou acho que estou ficando distraído.
Marcos Siqueira. 28/12/2006.
Sunday, December 10, 2006
homens de família.

por Marcos Siqueira.
Sou um homem de família. De família grande. Grande mesmo.
De sangue, tenho meu pai, minha mãe, duas irmãs e um irmão. E uns 21 primos, pelo que consegui contar agora de cabeça. Tenho sete tios emprestados e só um de verdade. E tenho oito tias, sendo que seis delas são irmãs da minha mãe – da casa das sete mulheres - e que a minha tia por parte de pai é também minha dinda. Ainda tem também vovô Geraldo e vovó Yayá (vovô Eraldo e vovó Lourdes já foram embora...). E os agregados também estão no mesmo barco. Os namorados(as) e os maridos(as) das minhas primas(os) – e os que estão para chegar, né Silvinha? Os ex-namorados de minha irmã (ps1. não foram muitos... dois só, que eu saiba... ps2. me refiro a minha irmã mais velha, a mais nova – eu que sou o dindo dela – tem só doze anos... pode esquecer essa história de juventude precoce...), a namorada do meu irmão e ... Ah! Ainda tem as duas filhas da mulher do meu pai! E também os três filhos do marido da minha mãe. E, claro, minha boadrasta e meu brodastro!
(Abro esses parênteses por que esqueci de dizer que meus pais se separam quando eu tinha uns nove anos e que cada um casou de novo e que minha irmãzinha é só por parte de pai. Fecho parênteses.)
E aí, é claro, eu não posso deixar de mencionar os irmãos de coração. Por que eles também são verdadeiros irmãos mesmo. Não importa se são ou não são filhos do mesmo pai e da mesma mãe. Irmãos com quem a gente cresce junto, com quem rimos e com quem choramos. Os irmãos que a gente vem escolhendo nessa vida por ai afora, nesse mundão de meu Deus. Os amigos. A galera. Os broders. Irmãos, companheiros de todo dia.
E já que esse mundão de meu Deus é tão grande e meu Deus não é só meu, é nosso, e Ele tem tantos filhos, que eu tenho também todos esses irmãos de alma.
Irmãos de humanidade. Irmãos em Deus.
Os irmãos do cotidiano. O irmão a quem eu dou bom dia de manhã cedinho, quase de madrugada, quando eu subo no ônibus e é ele quem está lá sorrindo, ou até mal-humorado, pilotando o caminho do começo do dia de um monte de gente.
Gente de dentro do ônibus. Irmãos de segunda-feira. Irmãos de engarrafamentos. De violência urbana, de superpopulação. De solidariedade, de cidadania, de respeito. De união. Todo mundo no mesmo barco. Ou barca furada. Ou não.
Os irmãos do trabalho. Que além de serem irmãos, jogam no mesmo time. Pra eles é que a gente mata a bola no peito e dá aquele passe na medida e deixa o parceiro de cara pra um golaço de placa! E quem ganha é o time todo! Nós. A grande família de todos os dias úteis. E dos inúteis também!
A família do horário de verão. A família nordestina. A família da roça. A família espalhada pelo mundo. Os amigos e irmãos, os estrangeiros e os brasileiros dos Estados Unidos, do Canadá (abraço pra meu primo Hugão, grande broder), da República dos Camarões, da Holanda, França e Suíça. Índia, Paquistão, Papua Nova-Guiné, Japão. Luanda, Peru, Egito e Pólo Norte.
Amazônia, pulmão do planeta. Brasil, coração do mundo.
A humanidade tão brasileira, quanto chinesa ou européia. Os irmãos virtuais.
Os irmãos WWW. Os trigêmeos DDD. Os XXY e os XXX, triplo X.
E até os fresquinhos irmãos KLB. É todo mundo irmão.
É. Sou mesmo um homem de família grande. Uma família com uns seis bilhões de irmãos. De pais, mães, tios, tias, primos, avós e afins.
Até lembrei agora daquele romance de Maria José Dupré que tinha na série vaga-lume – quem nunca leu? – e que até virou novela do SBT, “Éramos seis”... Me dá medo que isso seja um mau augúrio.
Tenho medo dos efeitos do aquecimento global. Medo da falta de água. De comida. Da falta de educação. Da falta de consciência. Da falta de limites. Da falta de respeito. Medo do bicho homem. Abel com medo de Caim. Medo da ciência usada para o mal. Medo das bombas.
Medo das palavras mal colocadas. Ou bem colocadas, na mira, para ferir o coração de algum outro irmão. Medo da escravidão física. Medo da escravidão mental.
De Caim matar Abel.
Medo da guerra.
Aí estava eu aqui, hoje à noite, em pleno sábado à noite, com tantos irmãos – e irmãs! – me esperando por aí, pensando numa frase de uma música do Araketu, “tambores pela paz mundial, é normal no carnaval, eu sou araketu na avenida...”
Tava pensando numa dessas geralmente bobas mensagens de fim de ano da rede globo. Só que essa, apesar de simples não era boba. E de quantas idéias muito simples já não construímos, nós mesmos dessa família humana, civilizações e impérios? A simplicidade do fogo e da roda. A invenção da matemática e da escrita. Do papiro.
Tudo muito simples. Muito revolucionário.
E a revolucionária idéia do comercial de fim de ano da globo – que inclusive já teve bons momentos do tipo “Esse ano eu quero paz no meu coração. Quem quiser ser meu amigo, que me dê a mão...” – dizia mais ou menos assim num diálogo que tinha também Edson Celulari e Cláudia Raia:
- E se todo mundo, todo dia se tratasse como irmãos?
-Bom dia, meu irmão!
- Bom dia, irmãzinha!
O mundo não seria bem melhor assim? Vamos precisar muito contar com nossos irmãos para enfrentar as barras que vem por aí. Nos dar as mãos. E vamos aproveitar ao máximo para aprender tudo o que ainda possamos aprender com a nossa maravilhosa diversidade cultural. Vamos aproveitar a geografia, os pontos históricos, turísticos e o avião. Enquanto ainda temos celular e internet. Vamos aproveitar enquanto ainda somos todos nós. Vamos nos conhecer. Aproveitar e vencer as nossas barreiras. Para que o amanhã seja melhor. Para saber a maravilha que aflora entre o raiar e o crepúsculo de uma vida. Entre o primeiro choro e o último suspiro. Vamos aprender a olhar nos olhos. A sorrir. A chorar. Vamos nos unir, enquanto ainda é tempo, para que a humanidade vença e supere todos os obstáculos. Que ainda seja humanidade.
Para nos tornarmos melhores.
Para sermos mais irmãos. Homens de família.
Friday, December 01, 2006
trilhas do universo ou caminhos do coração.

O fim ou o recomeço? E se já se tinha tudo revirado ao avesso, que fazer agora?
E então? Olhar no chão ou mirar estrelas? Aqui abaixo do manto do firmamento só poucas faíscas, fracas centelhas. E pouca resposta.
O tempo pára e a mata cerra. Trilhas e milhas a abrir. Caminhos de luz e vento. Onde vai o pensamento. Pelas artérias, veias e capilares, desenhando os caminhos do coração. Em quentes fagulhas e respingos de uma pulsação febril, de formas expressionistas e cores surreais.
Lá de cima, constelações rezam pelas luzinhas das casas de toda gente, dos barracos nas cidades, dos morros cheios de vida. Das árvores de mais um Natal qualquer. Apagando e acendendo estrelas. Nascendo e morrendo gente. Pisca piscando. Pulsação. Latente bate-bate de TUM, TUM, TUM.
Mais forte o coração pergunta ao universo: e agora? E então?
ilustração: www.gettyimages.com
Sunday, November 19, 2006
flores astrais.

Comprei um baixo! Preto. Bonitão! Tô praticando.
Bem, mas esses dois escritos aí de baixo tem um tema bem parecido.
Ou talvez na verdade, seja um TEXTO só. A diferença foi a trilha da vida no universo paralelo por qual cada um tomou rumo.
Aqui, diferente da vida, a gente pode escolher o final da história.
Quase sempre.
Paisagem da Alma
Marcos Siqueira
E essa é mais uma maneira qualquer de ficar longe de você. Pelo menos em pensamento.
Ia ser bom. E a qualquer momento poder te olhar sem te querer. Que seja!
Tirar da cabeça qualquer pensamento romântico-psicodélico. Qualquer neurose ou compulsão por sua voz. Qualquer boba idéia de nós. Qualquer tesão incontido.
No vermelho do seu sorriso. De vergonha. De falta de vergonha.
No vermelho do seu sexo. No calor das palavras e das línguas, me calando ao açoite da noite.
Qualquer hora que eu te tenha só minha. Sozinha. Deixo dentro de você a marca quente de minha alma. Minha paisagem. De verão e inverno, outono e primavera. Que não pode ser dita a ninguém. Não em palavras.
E quanto mais fundo se entra na paisagem da alma, mais calados ficamos.
Estamos sós no universo. As borboletas voando pela highway. Ou pela estrada de tijolos amarelos. Os deuses dão as cartas e o resto é com você. Adeus. Há Deus.
Vou vivo pro céu. Vou viver outra prisão pra não lembrar você.
Sobreviventes
Marcos Siqueira
Como se já fosse minha velha amiga, ela insistia em aparecer.
Costumava aparecer quando eu andava sozinho pela noite. Quando a dor me apertava fundo no peito. Quando em minha voz não caberia a amplidão do meu grito.
Ela vinha assim, sem avisar. Chegava à noite ao som de alguma melodia da minha cabeça. Vinha e tomava comigo algumas doses. Me abraçava e inebriava meus sentidos. O ar ficava mais pesado. Os sons mais altos, os sentimentos mais agudos.
E lá estava ela. Insistia em aparecer mais uma vez aos meus olhos e coração.
E ela sabia mesmo me atingir. Despedaçando-se daquele jeito em minha frente.
Chorando todas as pétalas das minhas vinte e poucas primaveras. Ali na minha frente. Desmanchando-se em desilusão. Derretendo como a tinta impregnante e radiotiva de um quadro psico-surreal. Tão cheia de cores, dos roxos das dores aos vermelhos das flores. E amores. Vão. Tingindo em aquarelas o profundo coração. Pintado em castelo de corais. Em estrelas do céu do interior. Em verde de canaviais. Em azul de maresia. E a nuvem atrás dos seus olhos.
Vem a chuva. Detrás dos seus olhos. Os pingos bombardeiam e respingam desbaratando a dança das cores. O céu derrete. O sol desbota. E a manhã daquele dia.
O vazio que fica. Na manhã daquele dia. Um mundo inteiro. Com árvores fáceis de achar. Prontas para o coração que eu desenhei com o nome do meu amor. O meu amor. Só meu. A flor.
Que nasce. Cresce. Brota. Fulôra. Resplandece. Gira ao sol. E se deita com a lua. Nua. Sua. Some. Murcha. Vai embora.
Quanto mais pisada em qualquer jardim mal cuidado, mais exótica e bela. Flor de aquarela. Borrada, derretida em água. Que teima em criar novos desenhos, linhas, traços e arabescos. E novas flores insistem em nascer. Em multiplicar-se. Em explodir pelo universo parindo novas flores e estrelas.
E no final, vem o outono e vai a primavera. No jardim voam os passarinhos. Com um canto melancólico qualquer. Não há flores. As folhas secas no chão. E, de outra escuridão qualquer , nascem flores e o sol de um novo dia.
textos escritos por mim, Marcos Siqueira.
ilustração da www.gettyimages.com
Tuesday, November 14, 2006
perdão pelo coração que eu desenhei em você com o nome do meu amor.

Estive em Salvador nesse último fim de semana. Foi muito bom. Revi pessoas queridas. Tive momentos e encontros muito legais. Passei no meu antigo trabalho, na Codesal, e aproveitando que estava com o pen driver na mão, pedi a Teixeira para gravar umas mp3 para mim.
Aí ele mandou escolher. Escolhi algumas coisas e pedi que ele me sugerisse umas novidades. Ele sugeriu Arnaldo Antunes e eu meio que torci o bico. Eu gosto dos conceitos de Arnaldo Antunes. Mas achava ele cabeção demais. Tinha uma idéia de que faltava algum "funky style" no som dele. Então, para encher a capacidade do pen driver, copiamos "Um Som", de 1998. Segundo Teixeira esse é o melhor albúm dele.
Cheguei aqui no Rio e já senti saudades de tudos e todos. Especialmente de um coração que eu desenhei...
Aí estava em casa curtindo lembranças e o barato da música e resolvi colocar essa letra aqui. Que é uma poesia. Perdão pelo coração!
As Árvores
Arnaldo Antunes
As árvores são fáceis de achar / Ficam plantadas no chão / Mamam do céu pelas folhas / E pela terra / Também bebem água / Cantam no vento / E recebem a chuva de galhos abertos / Há as que dão frutas / E as que dão frutos / As de copa larga / E as que habitam esquilos / As que chovem depois da chuva / As cabeludas, as mais jovens mudas / As árvores ficam paradas /Uma a uma enfileiradas / Na alameda / Crescem pra cima como as pessoas / Mas nunca se deitam / O céu aceitam / Crescem como as pessoas / Mas não são soltas nos passos / São maiores, mas / Ocupam menos espaço /
Árvore da vida / Árvore querida /
Perdão pelo coração / Que eu desenhei em você / Com o nome do meu amor.
Wednesday, November 01, 2006
epíteto ao brilho apagado das estrelas ancestrais.
Humano. Que nasceu de uma mãe e um pai. Que foi amado, que cresceu, que brincou, que caçou, que nadou, que pescou, que guerreou, que fluiu e que agora estava ali. Tão humano, tão mortal e tão finito quanto os estranhos senhores da morte. Estranhas divindades mortais. Que chegavam de longe. Que tinham a pele branca, que também tinham pai e mãe, que se cobriam de panos e que queriam o ouro. Humano.
Agora também sabia o que era o tesouro. O verdadeiro tesouro. Sabia o que era a força do amor e sabia também da outra força, vendo a humanidade, como então até ali conhecera, morrer amarga e seca. Como ele. Ali debaixo de um lindo céu azul. Em cima da sedenta terra marrom e seca, que agora bebia suas últimas gotas, tingida de sangue. Dos céus asas brancas e douradas cruzavam-se em danças do epíteto. Formavam desenhos, contando numa valsa o fim da inocência. De longe o carcará tecia com as parcas o seu tinido, cortando o ar carregado de morte.
E à profunda agonia finalmente cedeu. As cortinas se abriram. E ele pode lembrar-se de tudo mais uma vez, como se lembrava às vezes. Como naquelas vezes quando sentia a alma sair-lhe de dentro do coração com a fumaça que soprava pela boca, desenhando flores e formas no escuro do céu pontilhado pelas estrelas de seus ancestrais. Como quando já sabia ser tão fumaça quanto aquela fumaça da fogueira. E subia aos céus levando a consciência da terra dos mais profundos cantos do ser às mais distantes e altas constelações. Ia aos mais longínquos reinos do outro lado da grande mãe d´água. E sabia que eles chegariam. Que o fim chegaria. Que derramariam sangue em sacrifícios de consagração a si próprios, como se a todas aquelas vidas a oferta fosse compulsória. O sorriso se apagava no rosto das mais pequenas crianças. Os velhos entregavam-se à morte. Às mulheres era violado o templo do corpo para que se lhes sujassem a pureza de dentro. As almas dos guerreiros acendiam cada vez mais estrelas no céu, com a mesma velocidade e fogo com que saiam pelos furos das pedras mortais, rajadas do trovão das carabinas.
Ele sabia que aqueles grandes e estranhos pássaros brancos, que vinham em esquadras lá detrás da última linha de mar, eram um prenúncio de paz. Uma paz diferente. Resignada. A paz do espírito que chegava à mais clara e profunda compreensão do divino. Da sabedoria e da ciência. Que via seu corpo, seu povo e seu tempo ficando para trás de maneira tão violenta. Esmagados e singelos como uma pequena flor na beira da estrada do tempo. Humano. Parte da natureza. Onde nada se cria. Nada se perde. Onde tudo se transforma. Em fogo, água, lágrima, fumaça, sangue, terra e consciência. E paz. Pela consciência. Divina e eterna paz. Com ciência. Compreensão do astral superior.
Paz.
E daquele tempo que já não era mais, pouco ficou. De lá ainda dá para ouvir o fluir das águas do tempo do universo. As batidas profundas de consciência do princípio de tudo, do coração sagrado universal. Das estrelas dos nossos antepassados. E do coração de Tupã, a força da natureza.
E, um dia qualquer, hão de se lembrar de tudo que mataram da memória junto com aquele povo alegre, guerreiro, belo e tão natural. E aquilo que nesse momento se revelará aos povos, surpreenderá a todos não por ser exótico. Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto quando terá sido o óbvio.
* A sugestão musical já está bem explícita no texto. Cordel do Fogo Encantado e música andina também caem bem.
Foto: www.gettyimages.com
Texto escrito por mim, Marcos Siqueira.
Wednesday, October 18, 2006
um conto para acordar ou dormir.
Nunca tinha acreditado em almas-gêmeas. E todas as pessoas com um pouco mais de maturidade àquela altura, até mesmo ele, já sabiam que isso era coisa de conto de fadas.
Lembrou de uma conversa qualquer, no restaurante com o pessoal do escritório em que alguém disse que isso não existe mais por que a vida moderna acostumou todo mundo muito mal. Tudo agora ficou fácil, rápido e descartável. Inclusive os relacionamentos humanos e os sentimentos. Fazia sentido agora... Continuava pensando em como continuava sem acreditar em almas-gêmeas e por isso tinha medo de olhar para aquele homem que dormia feliz de barriga para cima. Deus meu, pensava, mas será possível?
Pensou em como ele sempre fora uma pessoa singular. Atencioso, bem-humorado, romântico, bom e muito bom de cama. Bonito. Chamava atenção.
Mas ela não tinha ciúmes, ou pelo menos fingia bem até para ela mesma. Volta e meia perdia a paciência com ele. Ele sempre tão espontâneo e livre às vezes parecia ingênuo aos olhos dela. Agora, ali, sentada, de calcinha, com a velha blusa de rock´n roll dele, tragava o segundo cigarro e com os olhos bem abertos pensava em quanto tempo tinha perdido e quanto tempo ainda lhes restava. Agora ela sabia.
Ele estava ali deitado. A qualquer momento acordaria, olharia para ela e eles provavelmente se beijariam, como muitas vezes fizeram antes. Anos atrás essa história havia começado. E então, muito tempo depois, eles tinham se encontrado assim, de repente. Agora ela percebia quem ele era de verdade. Será que depois daquela noite, será que depois daquele tempo, daquelas mudanças, daquela vida vivida, ele ainda seria o mesmo? Não sabia o que seria deles dali pra frente.
Mas sabia que aquele era o homem que ela finalmente queria. Que era tão especial e singular como toda a pessoa nesse mundo é. Que tem seus defeitos como todos e qualquer pessoa tem. Mas foi ele que seu amor escolheu para amar. Ela o escolheu.
Ele era a sua alma-gêmea. E a cada novo dia, só por hoje e todo dia, ela o escolhe mais uma vez.
texto escrito por mim, Marcos Siqueira.
Tuesday, October 17, 2006
minha pena.
tão a sério.
Então, estava eu voltando pra casa no fim de tarde, com o céu claro ainda. Pensava: esse é o primeiro dia do resto da minha vida. Então, fui descendo a rua, devagar e fui sentindo o coração apertar cada vez mais. Então cheguei em casa e vi o sol descer atrás dos morros. As idéias sopravam com a chuva e ventania dentro da minha cabeça.
E então eu ouvi a sentença. Recebi minha pena.
Minha pena. Não pena de dó. Nem de quem vai para o cárcere.
Eu soube que seria escritor.
Isso era não menos que uma prisão e não mais que a liberdade. Refém dos meus pensamentos, do vento, dos anjos e demônios. Livre de toda a censura e hipocrisia. Livre de todas as formas claras e obscuras de poder.
Pronto para mais um dia da vida eterna.
texto escrito por mim, Marcos Siqueira.
Friday, October 13, 2006
lá de cima. lá da beira da piscina.
Ainda não tenho nem internet, nem telefone e nem TV a cabo... Aqui no Rio tem um pacote da NET chamado "combo", que disseram que vem com as três coisas por cem reais mensais. É uma... Vou ver isso essa semana. Agora, neste momento, estou aqui numa Lan House do centro da cidade, perto da estação de metrô e do largo da Carioca, onde fica o prédio do Citibank (lá é que eu estava tendo as aulas da Universidade Petrobras) e também o edifício sede da Petrobras - o EDISE. Já estava com uns créditos por aqui e, por acaso, peguei uma ponga no bonde, e aqui estou eu. Lembrei de escrever alguma coisa aqui pro blog.
Nesse feriado, e nos últimos três fins de semana, o céu continua nublado (durante a semana é um solzão punk... sacanagem... ). Ontem até que deu pra pegar uma praia meia boca lá no posto 9 com Pereira e uma galera da turma dos novos de engenharia.
No mais tenho curtido muito minha casa nova. Tá ficando tudo arrumado, bonito. Tá massa!
As cores dos pratos, copos, talheres e louça. Tudo combinando. Cores. Verde e laranja.
Azul e amarelo. Já comprei de jogo de panela a tapete e pano de mesa. Só falta agora um sofá. Só.
Até que não me sai mal cozinhando. O canal é fazer massas! Fácil! É só comprar molhos e temperos. Aí depois é só assar um desses peitos de frango da Sadia e abrir um vinho. Savoir!
Então, acordo eu hoje ao meio dia e ligo o boyler pra tomar meu banho de jacuzzi. Pela janela do banheiro deu pra ver que a mangueira hoje não estava tão dourada como nos dias de sol. Então curti meu banho, comi alguma coisa e fui fazer minha faxina. Depois toquei um pouco de violão, li uma revistinha do Asterix e fui dar minha corrida nas ladeiras de Santa Teresa.
Tô ficando empolgado mesmo com essa idéia de fazer corrida de aventura. Não parece assim tão difícil quando você desce morro abaixo, pulando de pedra em pedra, descendo em paralepípedos e trilhos de bondes, desviando de árvores e rochedos, por uns 5 quilômetros. Desci até o Catete hoje.Depois subi tudo de novo.
Aí então, por acaso, o bondinho estava ali no largo do Guimarães, ponguei e desci aqui até a Carioca. Essa ponga as vezes dá medo. Principalmente quando o bondinho passa por cima dos arcos da lapa (é quase uma ponte, um aqueduto romano, com uns 100 metros de altura) e meus pés, no estribo do bondinho, passam raspando pela cumieira de cimento dos arcos. Coisa de 3 a 5 centímetros. Rock´n Roll!!! Uhu!
Então é isso! Aproveito para dizer que estou com saudades de todos e que minha casa já está a disposição. São dois quartos. E estou à procura de um companheiro pra dividir o espaço comigo. Talvez um fox paulistinha, um beagle ou um basset, ou mesmo um vira lata esperto... Algum que se pareça comigo! Hehehehe! Quem sabe minha próxima visita já conheça meu novo amigo!?
Bom vou aproveitar minha vinda aqui no centro e comprar um outro jogo de roupa de cama e toalhas. Só comprei uma roupa de cama e uma toalha. E tem que lavar, né!?
texto escrito por mim, Marcos Siqueira.
Wednesday, October 04, 2006
o rodo cotidiano
Enfim, está tudo se arrumando e se ajeitando.
O velho e bom professor Pereira chegou na segunda-feira de noite! Fui buscá-lo no Galeão (ou aeroporto maestro Tom Jobim) com o carro de Rick emprestado. Levei ele pra uma volta pela zona sul também. Acho que ele ficou meio azuado com o excesso de informação, mas já se acostumando. Nos próximos dias ele vai saber onde vai ficar alocado.
Eu também já estou me assentando. Aluguei um bonito apartamento no bairro de Santa Teresa, o último bairro do Rio de Janeiro que ainda tem bondinho. O lugar é muito bonito, arborizado, com casas mais antigas, com eira, beira e rococós. Lá moram muitos artistas e estrangeiros. E, de duas janelas, todo dia de manhã o Cristo vai poder me dar bom-dia. Tô contente! E também no corre-corre para ajeitar essas coisas todas de documentos e etecetera...
Então, quando eu chegar ai em Salvador, quem quiser me dar umas coisas pra a casa nova, tá valendo!
Em breve vou escrever umas coisas aqui. As idéias não param. Mas eu preciso de um tempo pra parar... Pedi pra parar!
Tuesday, September 26, 2006
à palo seco

Se você vier me perguntar por onde andei
No tempo em que você sonhava
De olhos abertos lhe direi
Amigo eu me desesperava
Sei que assim falando pensas
Que esse desespero é moda em 76
Eu ando um pouco descontente
Desesperadamente eu canto em português
Mas ando mesmo descontente
Desesperadamente eu grito em português
Tenho 25 anos de sonho e de sangue
E de América do Sul
Mas por força do meu destino
Um tango argentino
Me cai bem melhor que o blues
Sei que assim falando pensas
Que esse desespero é moda em 76
Eu quero é que esse canto torto feito faca
Corte a carne de vocês
Eu quero é que esse canto torto feito faca
Corte a carne de vocês
ilustração feita por mim, Marcos Siqueira.
música de Belchior.
Monday, September 25, 2006
os pirata...
http://www.ascriacoes.com.br/blog
Sunday, September 24, 2006
palavra quando acesa não queima em vão
Que depois das tempestades, vem a calmaria.
Que quando passa a empolgação, vê-se as coisas com razão.
Às vezes a razão. Às vezes.
É quando a loucura dorme, a agonia descansa, o pensamento aquieta
e a vida acena com outras possibilidades.
A sanidade retorna, a realidade se reapresenta:
lua é lua, noite é noite, gente é gente e palavras são só palavras.
E nem todas elas são boas.
texto escrito por mim, Marcos Siqueira.
Saturday, September 23, 2006
no balanço das horas tudo pode mudar

ao tempo tudo se condensa, em poucos segundos.
como uma tempestade num lago, num aquário. num copo d´água.
todo o tempo da história. da agrafia. dos mouros. do espaço e do
universo. tudo em minhas mãos. meu reino num grão de mostarda.
que flua o tempo. que corra o rio. derretam-se as calotas polares.
abre-te sésamo!
os sinos dobram. os ponteiros giram no ventilador. a vida segue.
e o tempo, o tempo sempre parece parar.
texto escrito por mim, Marcos Siqueira.
"The Persistence of Memory": óleo sobre tela de Salvador Dalí, 1931.

