Wednesday, October 18, 2006

um conto para acordar ou dormir.

De repente ela acordou. Não sabia onde estava, que horas eram e sentia-se assustada, como se algo muito grave tivesse acontecido. Levantou-se, abriu a cortina e o sol do meio dia feriu seus olhos com a realidade do que acontecia. Agora ela começava a lembrar aos poucos. Olhava no rosto daquele homem que dormia sereno naquela cama de hotel. Cada marca do seu rosto contava um pedaço de toda a história. Um sorriso de quem está sonhando com a mais profunda paz fez que ela se arrepiasse e sentisse medo daquela confirmação. Foi à bolsa e tirou um cigarro do maço amarrotado. Sentou no outro lado da cabeceira e fumava perguntando-se se era mesmo ele. Ele, de repente assim, daquele jeito tão misterioso tinha aparecido. Como se o véu do sonho tivesse sido levantado e agora ela soubesse. Tinha medo de ter certezas como aquela. Como poderia afinal saber se era mesmo ELE o homem de sua vida.
Nunca tinha acreditado em almas-gêmeas. E todas as pessoas com um pouco mais de maturidade àquela altura, até mesmo ele, já sabiam que isso era coisa de conto de fadas.
Lembrou de uma conversa qualquer, no restaurante com o pessoal do escritório em que alguém disse que isso não existe mais por que a vida moderna acostumou todo mundo muito mal. Tudo agora ficou fácil, rápido e descartável. Inclusive os relacionamentos humanos e os sentimentos. Fazia sentido agora... Continuava pensando em como continuava sem acreditar em almas-gêmeas e por isso tinha medo de olhar para aquele homem que dormia feliz de barriga para cima. Deus meu, pensava, mas será possível?
Pensou em como ele sempre fora uma pessoa singular. Atencioso, bem-humorado, romântico, bom e muito bom de cama. Bonito. Chamava atenção.
Mas ela não tinha ciúmes, ou pelo menos fingia bem até para ela mesma. Volta e meia perdia a paciência com ele. Ele sempre tão espontâneo e livre às vezes parecia ingênuo aos olhos dela. Agora, ali, sentada, de calcinha, com a velha blusa de rock´n roll dele, tragava o segundo cigarro e com os olhos bem abertos pensava em quanto tempo tinha perdido e quanto tempo ainda lhes restava. Agora ela sabia.
Ele estava ali deitado. A qualquer momento acordaria, olharia para ela e eles provavelmente se beijariam, como muitas vezes fizeram antes. Anos atrás essa história havia começado. E então, muito tempo depois, eles tinham se encontrado assim, de repente. Agora ela percebia quem ele era de verdade. Será que depois daquela noite, será que depois daquele tempo, daquelas mudanças, daquela vida vivida, ele ainda seria o mesmo? Não sabia o que seria deles dali pra frente.
Mas sabia que aquele era o homem que ela finalmente queria. Que era tão especial e singular como toda a pessoa nesse mundo é. Que tem seus defeitos como todos e qualquer pessoa tem. Mas foi ele que seu amor escolheu para amar. Ela o escolheu.
Ele era a sua alma-gêmea. E a cada novo dia, só por hoje e todo dia, ela o escolhe mais uma vez.

texto escrito por mim, Marcos Siqueira.

Tuesday, October 17, 2006

minha pena.

E então lá estava eu. Sentenciado. Eu que naquela tarde azul-dourada de recomeço tinha voltado para casa meio macambúzio. Me perguntava o que é que faltava acontecer agora. Depois de tantas mudanças em tão pouco tempo, depois de já ter passado por tudo o que eu já tinha passado, me perguntava: e agora? Sentia como se tivesse me perdido na trilha do mato no meio de uma planície descampada. Numa bússola com meu norte, minha sorte e minha morte. Afinal, desde que eu era menino eu já sabia que cada dia a mais também é um dia a menos. E vivi até ali. Aos trancos e barrancos, tomando todas as porradas que tomei, sendo quem eu sempre fui. Aprendendo a viver melhor, a sorrir, a não perder a paciência facilmente e a não me levar
tão a sério.
Então, estava eu voltando pra casa no fim de tarde, com o céu claro ainda. Pensava: esse é o primeiro dia do resto da minha vida. Então, fui descendo a rua, devagar e fui sentindo o coração apertar cada vez mais. Então cheguei em casa e vi o sol descer atrás dos morros. As idéias sopravam com a chuva e ventania dentro da minha cabeça.
E então eu ouvi a sentença. Recebi minha pena.
Minha pena. Não pena de dó. Nem de quem vai para o cárcere.
Eu soube que seria escritor.
Isso era não menos que uma prisão e não mais que a liberdade. Refém dos meus pensamentos, do vento, dos anjos e demônios. Livre de toda a censura e hipocrisia. Livre de todas as formas claras e obscuras de poder.
Pronto para mais um dia da vida eterna.

texto escrito por mim, Marcos Siqueira.

Friday, October 13, 2006

lá de cima. lá da beira da piscina.

Até que tenho escrito algumas coisas esses dias. Mas fica tudo lá em cima. Lá em casa.
Ainda não tenho nem internet, nem telefone e nem TV a cabo... Aqui no Rio tem um pacote da NET chamado "combo", que disseram que vem com as três coisas por cem reais mensais. É uma... Vou ver isso essa semana. Agora, neste momento, estou aqui numa Lan House do centro da cidade, perto da estação de metrô e do largo da Carioca, onde fica o prédio do Citibank (lá é que eu estava tendo as aulas da Universidade Petrobras) e também o edifício sede da Petrobras - o EDISE. Já estava com uns créditos por aqui e, por acaso, peguei uma ponga no bonde, e aqui estou eu. Lembrei de escrever alguma coisa aqui pro blog.
Nesse feriado, e nos últimos três fins de semana, o céu continua nublado (durante a semana é um solzão punk... sacanagem... ). Ontem até que deu pra pegar uma praia meia boca lá no posto 9 com Pereira e uma galera da turma dos novos de engenharia.
No mais tenho curtido muito minha casa nova. Tá ficando tudo arrumado, bonito. Tá massa!
As cores dos pratos, copos, talheres e louça. Tudo combinando. Cores. Verde e laranja.
Azul e amarelo. Já comprei de jogo de panela a tapete e pano de mesa. Só falta agora um sofá. Só.
Até que não me sai mal cozinhando. O canal é fazer massas! Fácil! É só comprar molhos e temperos. Aí depois é só assar um desses peitos de frango da Sadia e abrir um vinho. Savoir!
Então, acordo eu hoje ao meio dia e ligo o boyler pra tomar meu banho de jacuzzi. Pela janela do banheiro deu pra ver que a mangueira hoje não estava tão dourada como nos dias de sol. Então curti meu banho, comi alguma coisa e fui fazer minha faxina. Depois toquei um pouco de violão, li uma revistinha do Asterix e fui dar minha corrida nas ladeiras de Santa Teresa.
Tô ficando empolgado mesmo com essa idéia de fazer corrida de aventura. Não parece assim tão difícil quando você desce morro abaixo, pulando de pedra em pedra, descendo em paralepípedos e trilhos de bondes, desviando de árvores e rochedos, por uns 5 quilômetros. Desci até o Catete hoje.Depois subi tudo de novo.
Aí então, por acaso, o bondinho estava ali no largo do Guimarães, ponguei e desci aqui até a Carioca. Essa ponga as vezes dá medo. Principalmente quando o bondinho passa por cima dos arcos da lapa (é quase uma ponte, um aqueduto romano, com uns 100 metros de altura) e meus pés, no estribo do bondinho, passam raspando pela cumieira de cimento dos arcos. Coisa de 3 a 5 centímetros. Rock´n Roll!!! Uhu!
Então é isso! Aproveito para dizer que estou com saudades de todos e que minha casa já está a disposição. São dois quartos. E estou à procura de um companheiro pra dividir o espaço comigo. Talvez um fox paulistinha, um beagle ou um basset, ou mesmo um vira lata esperto... Algum que se pareça comigo! Hehehehe! Quem sabe minha próxima visita já conheça meu novo amigo!?
Bom vou aproveitar minha vinda aqui no centro e comprar um outro jogo de roupa de cama e toalhas. Só comprei uma roupa de cama e uma toalha. E tem que lavar, né!?

texto escrito por mim, Marcos Siqueira.

Wednesday, October 04, 2006

o rodo cotidiano

Esses dias tenho andado com mil textos na cabeça e mais outras 2 mil coisas não textuais e um pouco mais prosaicas passeando também por ali.
Enfim, está tudo se arrumando e se ajeitando.
O velho e bom professor Pereira chegou na segunda-feira de noite! Fui buscá-lo no Galeão (ou aeroporto maestro Tom Jobim) com o carro de Rick emprestado. Levei ele pra uma volta pela zona sul também. Acho que ele ficou meio azuado com o excesso de informação, mas já se acostumando. Nos próximos dias ele vai saber onde vai ficar alocado.
Eu também já estou me assentando. Aluguei um bonito apartamento no bairro de Santa Teresa, o último bairro do Rio de Janeiro que ainda tem bondinho. O lugar é muito bonito, arborizado, com casas mais antigas, com eira, beira e rococós. Lá moram muitos artistas e estrangeiros. E, de duas janelas, todo dia de manhã o Cristo vai poder me dar bom-dia. Tô contente! E também no corre-corre para ajeitar essas coisas todas de documentos e etecetera...
Então, quando eu chegar ai em Salvador, quem quiser me dar umas coisas pra a casa nova, tá valendo!
Em breve vou escrever umas coisas aqui. As idéias não param. Mas eu preciso de um tempo pra parar... Pedi pra parar!

Tuesday, September 26, 2006

à palo seco



Se você vier me perguntar por onde andei
No tempo em que você sonhava
De olhos abertos lhe direi
Amigo eu me desesperava

Sei que assim falando pensas
Que esse desespero é moda em 76
Eu ando um pouco descontente
Desesperadamente eu canto em português
Mas ando mesmo descontente
Desesperadamente eu grito em português

Tenho 25 anos de sonho e de sangue
E de América do Sul
Mas por força do meu destino
Um tango argentino
Me cai bem melhor que o blues

Sei que assim falando pensas
Que esse desespero é moda em 76
Eu quero é que esse canto torto feito faca
Corte a carne de vocês
Eu quero é que esse canto torto feito faca
Corte a carne de vocês

ilustração feita por mim, Marcos Siqueira.
música de Belchior.

Monday, September 25, 2006

os pirata...

Visitem o blog do meu broder-irmão Paulinho. Vale a pena!
http://www.ascriacoes.com.br/blog

Sunday, September 24, 2006

palavra quando acesa não queima em vão

Dizem que depois das paixões fica o amor.
Que depois das tempestades, vem a calmaria.
Que quando passa a empolgação, vê-se as coisas com razão.
Às vezes a razão. Às vezes.
É quando a loucura dorme, a agonia descansa, o pensamento aquieta
e a vida acena com outras possibilidades.
A sanidade retorna, a realidade se reapresenta:
lua é lua, noite é noite, gente é gente e palavras são só palavras.
E nem todas elas são boas.

texto escrito por mim, Marcos Siqueira.

Saturday, September 23, 2006

no balanço das horas tudo pode mudar


ao tempo tudo se condensa, em poucos segundos.
como uma tempestade num lago, num aquário. num copo d´água.
todo o tempo da história. da agrafia. dos mouros. do espaço e do
universo. tudo em minhas mãos. meu reino num grão de mostarda.
que flua o tempo. que corra o rio. derretam-se as calotas polares.
abre-te sésamo!
os sinos dobram. os ponteiros giram no ventilador. a vida segue.
e o tempo, o tempo sempre parece parar.

texto escrito por mim, Marcos Siqueira.
"The Persistence of Memory": óleo sobre tela de Salvador Dalí, 1931.


Tuesday, September 19, 2006

o vírus do homem-vírus

virou ao avesso e dobrou a curva da incubação.
fugiu à boa esperança.
pululou no rosto de medo dos índios. não homens?
não vírus. de morte morrida:
aos jovens. de morte matada:
aos velhos, aos fetos e às bestas.

vírus dos tempos de pestes, pragas e guerras.
resistiu. mutou. evoluiu. aculturou. globalizou.
morreu nos cadáveres e transpirou aos céus.
ao ar. e choveu na terceira vida.
em nós, vírus com muitos homens dentro.

espirraremos nas caras.
ejacularemos nos peitos.
disseminaremos o mal.
cuspiremos seu nome.

texto escrito por mim, Marcos Siqueira.

Monday, September 18, 2006

a canção de amor do homem-tocha

Na semana passada estive ouvindo bastante "O Descobrimento do Brasil".
Para mim é o melhor album da Legião dentro de um conceito próprio de album. As músicas, em ordem, giram em torno de uma certa lei. Quase uma ópera, para quem quiser ver.
A crítica às mazelas da política do país estão muito evidentes. E não são berros descabidos. É crítica inteligente, contudente e de classe. Isso além das melodias simples e mais maduras da Legião em 1993, ressaqueada do porre Collor.
As músicas onde isso fica mais claro são "Perfeição" (que tem aquela linda mudança de estação: "venha, meu coração está com pressa, quando a esperança está dispersa...") e "A Fonte".
Vale a pena escutar para pensar um pouco no freak show de todo dia do horário eleitoral.
Fiz essa ilustração pensando em "A Fonte", com aquela melodia de teclados bem marcada na cabeça. Tem a ver principalmente com os últimos versos.
Nem toda canção de amor é para uma só pessoa.
Às vezes é para 170 milhões.

A Fonte
Legião Urbana

O que há de errado comigo? / Não consigo encontrar abrigo / Meu país é campo inimigo e você finge que vê, mas não vê /
Lave suas mãos porque é à sua porta que irão bater / Mas antes você verá seus pequenos filhos trazendo novidades /
Quantas crianças foram mortas dessa vez? / Não faça com os outros o que você não quer que seja feito com você. / Você finge não ver e isso da câncer /
Não sei mais do que sou capaz / Esperança, seus lençóis têm cheiro de doença / e veja que da fonte sou os quilômetros adiante / Celebro todo dia minha vida e meus amigos / Eu acredito em mim e continuo limpo /
Você acha que sabe mas não vê que a maldade é prejuízo / O que há de errado comigo? / Eu não sei nada e continuo limpo /
Do lado do cipreste branco / à esquerda da entrada do inferno, / está a fonte do esquecimento / Vou mais além, não bebo dessa água / Chego ao lago da memória / Que tem água pura e fresca / E digo aos guardiões da entrada, sou filho da Terra e do Céu / Daí-me de beber que tenho uma sede sem fim / Olhe nos meus olhos, sou o homem-tocha /
Me tira essa vergonha, / Me liberta dessa culpa, / Me arranca esse ódio /Me livra desse medo /
Olhe nos meus olhos, sou o homem-tocha / e esta é uma canção de amor / e esta é uma canção de amor / e esta é uma canção de amor.

texto e ilustração feitos por mim, Marcos Siqueira.

o tempo das flores

Você não atende.
Nem entende.
E a chuva nunca para de cantar.

Prende entre os dentes a primavera.
Rolando águas salgadas, sagradas,
debaixo do sonho profundo.

Te brotando,
enraizando,
culminando.

E você não atende.
Ainda é inverno
e toda flor tem seu tempo.

texto escrito por mim, Marcos Siqueira.

Friday, September 15, 2006

Falling, yes I am falling and she keeps calling me back again...



Esse é uma música dos Beatles que entrou no HELP assim, por acaso.
Era 1965 e los cuatro amigos tinham ganhado a América. Isso foi um
pouco antes de John Lennon ter ficado mais famoso que Jesus e de ter
começado a querer parecer com ele. Peace and Love, John! You know
that sometimes, hapiness is a warm gun. E John não chegou a ficar tão
famoso quanto Jesus. Por um pouquinho... John gurudev ohm shanti...
Mas isso é outro assunto... Então, em 1965, os Beatles ganhavam as paradas
dos E.U.A. E adivinhem com que música? HELP me... Não! Drive My Car? Não.
Com uma música country com banjos e falsetes de John, a segunda voz
da dupla sertaneja Jãozinho & Pôu Macarrrrrti. Puro Folk!
Essa foi a manha da Capitol (a gravadora texana dos Beatles nos E.U.A)
para dar um twist and shout.
E os investimentos eram pesados. Era beatlemania na veia.
Foram feitos filmes de cinema, os primeiros videoclipes da história e até
um desenho animado. Por acaso encontrei ele no Youtube.
É uma historinha bem engraçada em que Ringo, todo sequelado,
se apaixona pela própria imagem.
É bem a cara de novas paixões que se aproximam com a primavera
no" trem do meu jovem coração" (veja lá embaixo "esperando o
trem passar"). Então vamo fazer o som da estação!
Hehehehheheh! Quanto rima furada... Beleza de Creuza!
Hoje de manhã peguei uma praia com um sol lindo em Icaraí e
dei uma boa corrida. Aos pouquinhos tô me recuperando da cirurgia.
E não é que andei de novo sentindo as dores de paixão?
Ando sentindo uma saudade... Uma vontade de ver e comprar aquele
fusquinha amarelo mango 1973, com aros brancos nos pneus, pintura
impecável que me contou que o nome dele é FIRE, que nem o da
música de Jimmi Hendrix.
Então um clipe bem legal, com desenho animado dos Beatles e tudo
para essa alegria solar! Falling, yes I am falling and she keeps calling
me back again ...

http://www.youtube.com/watch?v=aC7UFbdRg_0
(assista até o final. Vale a pena!)

I've Just Seen a Face
The Beatles


I've just seen a face I can't forget
The time or place where we just met
She's just the girl for me and I want
All the world to see we've met
Uh uh uh uh uh uh

Had it been another day
I might have looked the other way and
I'd have never been aware
But as it is I'll dream of her tonight
Da da da da da da

Refrão:
Falling yes I am falling and she keeps calling me back again

I have never known the likes of this
I've been alone and I have
Missed things and kept out of sight
For other girls we're never quite like this
Da da da da da da

Falling yes I am falling and she keeps calling me back again
Falling yes I am falling and she keeps calling me back again

I've just seen a face I can't forget
The time or place where we just met
She's just the girl for me and I want
All the world to see we've met
Uh uh uh na na na

Falling yes I am falling and she keeps calling me back again
Falling yes I am falling and she keeps calling me back again
Falling yes I am falling and she keeps calling me back again

texto escrito por mim, Marcos Siqueira.

Thursday, September 14, 2006

continuam apagando estrelas

vejo cada vez mais gente no chão e menos estrelas no céu.
ouço vozes demais numa psicodelia ensurdecedora, daquelas de deixar a gente tonto, fechando e abrindo os ouvidos ao "quá-quá-quá" desesperado. é muito barulho calando o silencioso
som do universo.
é a lei da selva devorando o povo. a lei da demanda e oferta. o mundo do deus mercado. monstro sisti retado, doido pra transar comigo. quanto menos, vale mais.
e a gente vai ficando cada vez mais valendo menos.

texto escrito por mim, Marcos Siqueira.

Tuesday, September 12, 2006

apagando as estrelas


O tema até que serviria pra poesia. Mas já anda passeando no juízo tem tanto tempo, que é melhor arrumar as coisas de outro jeito. Arrumar, pelo menos na minha cabeça. Pra mim.
Porque a ordem natural (nem tão natural) das coisas não permite arrumação. Ah! Isso não!
E já que o mundo não será como eu quero ver, vou tentar mudar meu jeito de ver pra ele então ser. E não to falando em botar lentes cor-de-rosa ou cabelo em casca de ovo. É como eu já ouvi alguém sabido dizer que a realidade é que nem um copo com água pela metade. O otimista vai dizer que é um copo meio cheio. O pessimista que é meio vazio. E o copo não é nem meio cheio nem meio vazio. O copo é copo. Com água pela metade e pronto!
Mas será que existe mesmo um copo? Ou seria só um fenômeno de física quântica no qual a ocorrência do copo só calhou de acontecer porque tinha um observador qualquer querendo ver um copo. Só um copo. Nem meio cheio, nem meio vazio.
Então, vou brincar de Deus e criar a minha realidade. Quântica... mas minha!
E no primeiro dia eu disse faça-se Caetano Veloso. Como diria o próprio catita: há seis mil anos Deus perde tempo fazendo flores e estrelas... E entre o céu e a terra, não nessa ordem necessariamente, eis que em algum momento surge o homem que tem vivido seis mil anos fazendo guerras e asneiras.
Então Caetano, solitário, juntaria as mãozinhas e com todo aquele jeitinho choramingaria: “ó mô pain ... a bahia é linda, o rio de janeiro continua lindo e paulinha ... vixe, paulinha... xô! Ô pain, mande ai uma mulé!” Ai então, eu tiraria um pedaço dos caracóis dos seus cabelos e criaria o sexo feminino. Por falar nisso outro dia me intriguei com uma questão num desses e-mails-de-quem-fica-mandando-trinta-e-mails-de-piada-por-dia ... Dizia: qual é o lugar onde as mulheres têm o cabelo mais enrolado?” Bem, desenrolando as coisas, dizem que o verdadeiro Éden era na África... Hum! DNA retado esse de catita, ou não!? Mas essa mulher “nas duas faces de eva, a bela e a fera, um certo sorriso de quem nada quer”, teria sofrido alterações a partir das clivagens do zigoto caetânico em função de barbitúricos usados com os Mutantes, Gil e Rogério Duprat nas gravações da Tropicália. Então, nosso catita, quase feliz pra sempre, cantaria às merdópoles modernas: “ainda não havia para mim Rita Lee, a tua mais completa tradução...”
Será que quando a primeira roqueira mulher abrisse seu sorriso de quem nada quer, ao nosso meloso catita, também abriria a caixa de pandora? E nosso catita (eva e adão, foneticamente) correria para o violão num lamento numa manhã nascendo azul, depois que a caixa de pandora e outras coisas foram abertas na segunda noite da criação. Ele olharia para as estrelas (afinal, EU, o todo poderoso deste meu mundo autista, já perdi seis mil anos nessa história...) e, choramingando profeticamente, balbuciaria seu medo da feia fumaça que sobe apagando as estrelas. Ê rapaz... parece que esse negócio de fumaça foi Rita Lee quem inventou na terceira noite de criação, deixando catita muito doido.
Essa história é muito doida mesmo. Pense ai! A gente tá apagando as estrelas. E é todo dia. Ninguém nunca soube falar esperanto. And we won´t. Mas olhar estrelas... Isso é desde o Egito, antes até, passando inclusive pelos maias, astecas e nazcas. E esquecemos tudo! E se nós somos deuses quânticos, criadores da nossa realidade, meu Deus! Apagamos as estrelas.
As estrelas agoras são as luzinhas dos morros, placas de botequim de néon, postes de sódio e celebridades da mírdia. Que mírdia... Nossos padrões, criados por observadores quânticos da nossa realidade, por trás de people metters e institutos de pesquisa, fizeram de cada um de nós universos apagados de estrelas. Buracos negros. As estrelas estão lá fora. Mas só vê quem tem elas dentro de si, quem tem a utopia de estrela, pode vê-las. Quem olhou fora da caverna, viu que as estrelas lá fora não são o novo modelo de celular nem a linda barriguinha sarada. As estrelas são muito mais que isso. E nós também somos estrelas. Pelo menos EU (ainda sou o todo poderoso aqui!) fiz o homem para brilhar. E ver estrelas. Da Vinci sabia disso.
Mas não esqueci de catita e nem ele esqueceu Rita Lee. O cara tá devagar demais. “Gente é pra brilhar...” Ih! Emendou “... minha paixão há de brilhar na noite, no céu de uma cidade do interior.”
Como um objeto não identificado. É assim que as pessoas que buscam estrelas lá fora tratam uns aos outros nas grandes cidades. Estão todos esquecendo de ver as estrelas de dentro, e ao lado, em casa, na cara da mãe, do pai, do amigo. É muita gente. É muita cidade. Muita poluição. Muita luz elétrica. E menos estrelas.
Apagaram as estrelas na cidade maravilhosa e lá na cidade luz... Que chato!
Agora, falando sério, já que ainda tenho mais uns quatro dias para criar o universo, vou pegar o MP3 player cheio de MPB e vou à praia, porque daqui a seis mil anos o Pão-de-Açucar e outras montanhas vão dissolver e a Baía de Guanabara vai pegar fogo pra eu comer peixe frito. E, afinal, de dia não tem estrelas. Aliás, não faltam estrelas. É que elas ficam apagadas. Mas isso ai já é culpa do astro-rei.
Não. Sai daí! Que Roberto Carlos que porra nenhuma...

escrito por mim, Marcos Siqueira.

Monday, September 11, 2006

para o alto e avante

"Viver é simpleste um grande balão. Voar no céu azul é a missão."

Gilberto Gil.

Saturday, September 09, 2006

esperando o trem passar


eu aqui sentado em minha mala. numa estação. esperando o trem passar.
eu que sempre pego o bonde andando, tenho que esperar. pra não pegar
o bonde errado. o vapor barato. fumaça sem trem que não tem.

trem não tem mais. tem eu. e minha mala. pequena
pra tantos sonhos e planos. grande
pra um rapaz-latino-americano-vindo-do-interior.

meu interior. eu e meu querer-bem por todas as coisas e criaturas
desse mundo de meu Deus. tantos rostos, tantos nomes e histórias
passadas e mal-passadas, algumas até hoje sangrando, às vezes,
de vez em quando, cada vez menos. cicatrizando comigo e minha ferida
que me fez parar, esperando o trem. meu amor, meu coração.

como quando minha mãe me embalava cantando abacateiro, eu
o significado da palavra temporão
no meu tempo, meu dia, meu momento
de pegar o trem. não andando. na curva da estrada
da vida. eu e meu coração mais maduro, mais seguro,
e ainda jovem. ainda rindo e chorando, pulsando,
comtemplando, ali, sentado na mala, o milagre da vida.

eu e minha mala na estação. a manhã anunciando um dia dourado
desses que acabam numa tarde com um pôr do sol embriagado de lume,
quando toca a ave maria e eu me lembro do meu jovem coração.

fazendo rendas e aprendendo a namorar.
olhando as rodas, as engrenagens, o trem
e as trilhas da vida. sonoras e virgens,
no meio do matagal do mistério.
trilhas e trilhos. encontros no vagão.
vou seguindo a vida, de encontros e depedidas.
uns partem, outros ficam. e eu vou subindo.

eu aqui. sentado na mala da minha história.
eu aqui, com meu abacateiro, em tempo de estio e colheita.
eu aqui, com todo esse horizonte à minha frente, meu Deus, quanta gente,
quanta música, quantos poemas, bichos e mar, quanta floresta
quanta beleza... e eu. eu e meu jovem coração,
aqui, sozinho, esperando na estação.

texto escrito por mim, Marcos Siqueira.


* trilha sonora indicada nas sete cores astrais:

1. "Brandy" - Red Hot Chili Peppers. (ver)
2. "Smile" - Charles Chaplin. (ver)
3. "O passeio da boa vista" - Legião Urbana.
4. "Refazenda" - Gilberto Gil.
5. "Trenzinho caipira" - Heitor Villa-Lobos.
6. "Canto de Ossanha" - Baden Powell e Vinícius de Moraes (int. Elis Regina). (ver)
7. "Bachiana n. 5" - Bydú Sayão.

eu

sou o vento
sou o tempo
o coração ao sorriso e lágrima
da canção, a fé, inspiração
o sopro no barro, o sim e o não
filho do homem, adão, sou você,
seu marido, pai e irmão

sou sangue correndo avenidas
um rosto na turba
que quis chorar escondido
ao gosto amargo, bebeu
e riu de nada e falou ao calar
ouviu sem escutar
errou, começou e ficou por terminar
aprendendo em partir ao pulsar

meu pai é sol e minha mãe água
nasci do gozo, toque do alto,
do amor incendeia, me eleva a alma
balão, brinquedo junino
de nordestino que dança baião
a terra é minha sina
um dia me planto, semente
colho, broto em folha em fruta
e vôo de beija-flor dizendo
bem-te-vi ao amor zen
num beijo à boca cajuína

sou muitos
sou pouco
sou o vento

Friday, September 08, 2006

os escafandristas virão?

"Men are haunted by the vastness of eternity, and so, we ask ourselves: Will our actions echo across the centuries...? Will strangers hear our names long after we are gone... e wonder who we were... how bravely we fought... how fiercely we loved...?"

Homero (tirado do blog de Patinho*)
* com a autorização do supracitado,
não Homero, Patinho.

Thursday, September 07, 2006

minguante

Onde está você? Em que cidade você mora?
Quando você veio? Ou já foi embora?
Ou virá? Assim, entardecendo... virá

chegando, dissolvendo e ajuntando tudo,
revolvendo tudo embaixo do leito, do peito,
com as águas barrentas do rio caudaloso
que vai desaguar no mar, desaguar o mar.

Amar as estrelas num som... bom... ohm
nós na sua órbita comigo sem abrigo, correndo
da fera. Venha amigo, te ouvi dizer, vamos
derreter a atmosfera e seremos, no fim, um.

Onde está você? Em que luar você se esconde?
Em que quarto você está? Sob o mesmo sol apagar?
Como vou te encontrar? A luz dos olhos a minguar...

Mingua, Ana, tua natureza divina
que em sua língua eu te chamava.
Se veio, não soube, nem hei,
do anjo que me deu um copo d´água.
Paciência...

texto escrito por mim, Marcos Siqueira.

céu de Maria

lá de cima dava pra ver
quando eu lembrava
quando eu sabia

lá de cima era dia
que eu sabia todo dia
que de tarde eu havia

de saber não ser
ou ter que morrer um dia,
como não sabia

e o vento ia, o azul
fluia e a ave maria
voando eu ouvia

mãezinha do céu,
lá de cima, a poesia
há poesia quando eu sabia

sabia rezar
o azul do teu manto
branco o teu véu

sabia dizer
que quero te amar
dizer te amar

mãezinha, eu quero te ver
lá no céu
te ver lá no céu

texto escrito por mim, Marcos Siqueira.