Thursday, May 19, 2011

Deixe em meu nome

Porque cada coisa é o que é pelo nome que
tem
porque as vezes não me chamam por um que seja
meu nome forte,
tem no ar flecha
e arcos perfura
a pele, cicatriza
e deixa traços

Porque todo batizado bate na cabeça da alma
e
fura de água, se acaba, nomina e dura
pra sempre,
corrente o rio
o fio do corpo
à alma de
todo ser vivente

crescente é
eu sei
eu sou
de lua

de toda gente é
o que é
e aprende a ser
na sua

na minha alma nua,
na rua por onde
dou aos meus pés os passos
sigo sozinho
caminho que vou
olhando, me guiando por
eu que sou eu mesmo
Marcos.

Thursday, March 17, 2011

Lançando luz sobre as trevas...



2012
Por SAI BABA
(recebido por e-mail)

Ouviu falar de 2012 como um ano em que algo ocorrerá?

Bom, por um lado existem várias profecias que indicam esta data como um momento importante da história da humanidade, mas a mais significativa é o término do calendário Maya, cuja profecia foi interpretada de várias formas. Os mais negativos pensam que nesse ano o mundo termina, mas isto não é real, pois sabemos que neste ano começa a Era de Aquário.

Na verdade este planeta está sempre mudando a sua vibração, e estas mudanças intensificaram-se desde 1898, levando a um período de 20 anos de alterações dos pólos magnéticos que não ocorriam há milhares de anos. Quando ocorre uma mudança do magnetismo da terra, surge também uma mudança consciencial, assim como uma adaptação física à nova vibração. Estas alterações não acontecem apenas no nosso planeta, mas em todo o universo, como a ciência atual tem comprovado.

Informe-se sobre as mudanças das tempestades solares (que são tempestades magnéticas) e perceberá que os cientistas estão a par destes assuntos. Ou pergunte a um piloto aviador sobre o deslocamento dos pólos magnéticos, já que todos os aeroportos foram obrigados a modificar os seus instrumentos nos últimos anos.

Esta alteração magnética se manifesta como um aumento da luz, um aumento da vibração planetária.

Para entender mais facilmente esta questão, é preciso saber que a vibração planetária é afectada e intensificada pela consciência de todos os seres humanos. Cada pensamento, cada emoção, cada ser que desperta para a consciência de Deus, eleva a vibração do planeta. Isto pode parecer um paradoxo, uma vez que vemos muito ódio e miséria ao nosso redor, mas é assim mesmo.

Venho dizendo em mensagens anteriores que cada um escolhe onde colocar a sua atenção. Só vê a escuridão aqueles que estão focados no drama, na dor, e na injustiça. Aquele que não consegue ver o avanço espiritual da humanidade, não tem colocado a sua atenção nesse aspecto.

Porém se liberar sua mente do negativo, abrirá um espaço onde sua essência divina pode manifestar-se, e isto certamente trará o foco para o que ocorre de fato neste momento com o planeta e a humanidade.

"Estamos elevando a nossa consciência como jamais o fizemos".

Como assim?
Não percebe a escuridão?

Vejo-a sim, mas não me identifico com ela, não a temo. Como posso temer a escuridão se vejo a luz tão claramente? Claro que entendo aqueles que a temem, porque também fiquei parado nesse lugar onde apenas via o mal. E por esta razão sinto amor por tudo isso.

A escuridão não é uma força que obriga a viver com mais ruindade ou com mais ódio. Não é uma força que se opõe à luz. É ausência da luz. Não é possível invadir a luz com a escuridão, porque não é assim que o principio da luz funciona. O medo, o drama, a injustiça, o ódio, a infelicidade, só existem em estados de penumbra, porque não podemos ver o contexto total da nossa vida. A única forma de ver a partir da luz é por meio da fé. Assim que aumentamos a nossa frequência vibracional (estado de consciência), podemos olhar para a escuridão e entender plenamente o que vivemos.

Mas como pode afirmar tudo isso, se no mundo existe cada vez mais maldade?

Não há mais maldade, o que há é mais luz, e é sobre isso que falo agora.

Imagine que você tem um quarto, ou uma despensa, onde guarda suas coisas, iluminado por uma lâmpada de 40W. Se trocar para uma lâmpada de 100W, verá muita desordem e um tipo de sujeira que você nem imaginava que tinha naquele local.

A sociedade está mais iluminada. Isto é o que está acontecendo. E isto faz com que muitas pessoas que lêem estas afirmações as considerem loucura.

Percebeu que hoje em dia as mentiras e ilusões são percebidas cada vez mais rapidamente? Bom, também está mais rápido alcançar o entendimento de Deus e compreender a forma como a vida se organiza.

Esta nova vibração do planeta tem tornado as pessoas nervosas, depressivas e doentes. Isto porque, para poder receber mais luz, as pessoas precisam mudar física e mentalmente. Devem organizar seus quartos de despejo, porque sua consciência cada dia receberá mais luz. E por mais que desejem evitar, precisarão arregaçar as mangas e começar a limpeza, ou terão que viver no meio da sujeira.

Esta mudança provoca dores físicas nos ossos, que os médicos não conseguem resolver, já que não provem de uma doença que possa ser diagnosticada.

Dirão que é causado pelo estresse. Porém isto não é real. São apenas emoções negativas acumuladas, medos e angústias, todo o pó e sujeira de anos que agora precisa ser limpo.

Algumas noites as pessoas acordarão e não conseguirão dormir por algum tempo. Não se preocupem. Leiam um livro, meditem, assistam TV. Não imaginem que algo errado ocorre. Você apenas está assimilando a nova vibração planetária. No dia seguinte seu sono ficará normal, e não sentirá falta de dormir.

Se não entender este processo, pode ser que as dores se tornem mais intensas e você acabe com um diagnóstico de fibromialgia, um nome que a medicina deu para o tipo de dores que não tem causa visível.

Para isto não existe tratamento específico - apenas antidepressivos, que farão com que você perca a oportunidade de mudar sua vida.

Uma vez mais, cada um de nós precisa escolher que tipo de realidade deseja experimentar, porém sabendo que desta vez os dramas serão sentidos com mais intensidade, assim como o amor.

Quando aumentamos a intensidade da luz, também aumentamos a intensidade da escuridão, o que explica o aumento de violência irracional nos últimos anos.

Estamos vivendo a melhor época da humanidade desde todos os tempos.
Seremos testemunhas e agentes da maior transformação de consciência jamais imaginada.

Informe-se, desperte sua vontade de conhecer estas questões.
A ciência sabe que algo está acontecendo, você sabe que algo está acontecendo.
Seja um participante ativo.

Que estes acontecimentos não o deixem assustado, por não saber do que se trata.

Friday, December 24, 2010

Mais uma década que se vai...

Fim de ano e cá estamos todos nós meros humanos ocidentais cristãos capitalistas a imergir em reflexões de todas as naturezas.
No momento, e olha que não é fácil conseguir definir alguma coisa desse momento, o sentimento que vem à palavra é o de expressar a gratidão.
Obrigado a Deus em primeiro lugar. Por tudo.
Depois obrigado aos meus amigos e minha família.
Sem vocês eu não seria nada.
Uma década que se passou. Os anos 2000.
Nesses 10 anos passei dos 20 aos 30, praticamente.
E quanta coisa aconteceu comigo e com o mundo de lá pra cá.
Só Deus sabe.
Sobre o mundo, muita gente ainda vai escrever muito sobre essa primeira década do século, que como toda primeira década de século é anunciadora de transformações. E é inegável. Os tempos estão mesmo mudando. E ninguém, na verdade, gosta de mudanças. Todas tem seus custos. Mas costumam mostrar valer a pena - pagando o custo - a longo prazo.
Não será fácil, mas será através da união que atravessaremos a próxima década.
Que Deus nos dê força e fé!
Para que nossos filhos que virão sejam melhores seres humanos em mundo mais natural, harmônico, melódico e rítmico.
Sobre mim? Essa é uma pergunta que está nesse momento em fase de elaboração. Talvez num momento um pouco mais consciente ou intenso. Não é fácil... ninguém, na verdade, gosta de mudanças. Todas tem seus custos. As escolhas tem seus custos. Pra todo 'sim' há muitos 'nãos' implícitos. E pra um 'não' também podem haver muitos "sim", afinal.
Dizem que é o retorno de Saturno. Talvez. Eu acho mais que é o momento da vida. Que a gente segue sendo um pedacinho dessa pequena engrenagem, como eu pude perceber em Machu Picchu em setembro, um pequeno pedacinho dessa grande engrenagem...
Agradeço por todas as conquistas, vitórias, tropeços e derrotas.
E a gente segue assim como um alecrim do campo. Nascendo, crescendo cada um à sua maneira, do jeito como pode. Se reproduzem, ou pelo menos costumam. E, um dia, morrem. Como as estações e as revoadas. Como toda essa ordem das estrelas e grande engrenagem da natureza.

Que cada um consiga ter fé em Deus, em si, no mundo e nas pessoas!
É o que desejo para a próxima década!

Obrigado. Com amor.
Marcos.

The Test of a Man

by O. Lawrence Hawthorne

There's little satisfaction to be
gained from doing things
That hold no difficulties: it's the tough
old task that brings
Keen sense of worth and power to the
man who wins the fight;
His failures test his courage and his
problems prove his might:
Until a man has conquered loss and
overcome defeat,
He cannot fully understand just why
success is sweet

I'm thankful for my disappointments,
for the battles lost,
And for mistakes that seemed to
charge an overwhelming cost;
I'm thankful for the days of doubt
when it was hard to see
That all things work together for the
good that is to be;
I'm glad for all that Life has brought,
because today I know
That men must brave adversities if
they would greater grow.

Feliz Natal!

Wednesday, November 17, 2010

Decisões




Numa fria tarde de novembro de 1961, quatro rapazes caminhavam à beira do rio Mersey. Ares preocupados, o vento batendo em suas franjas, de vez em quando olhavam para os navios que entravam pelo porto de Liverpool.

Eles lembravam-se, quem sabe, do tempo em que tinham que tocar oito horas para ganhar uns cobres num clube de Hamburgo. Tempos difíceis, é verdade, mas pelo menos não havia a tensão de se ter que tomar decisões, como naquela hora. Então um deles resolveu falar:

"Vamos encarar a realidade, rapazes, isso não vai dar certo." Era Pete Best (o terceiro aí da foto), um rapaz alto, forte e bem apessoado, o baterista do grupo. "Estamos na estrada há anos e até agora só estamos perdendo tempo. Agora, trabalhar para um empresário bicha é o fim da linha."

"Pode dar certo", murmurou George sem muito entusiasmo.

"Eu não acho que devamos desistir", completou Paul. "Acho que ainda podemos ganhar dinheiro com isso."

"Quem poderia substituir você?", completou John, sempre mais frio e pragmático que os outros.

Pete esperava algum tipo de adulação. A pergunta de John deixou-o um pouco incomodado. Ainda assim, não perdeu a pose:

"Pode ser aquele narigudo, o Starkey".

Ninguém respondeu nada. Continuaram caminhando com os rostos enfiados nos capotes. Best, ainda mais incomodado com o silêncio, resolveu abrir o jogo. Disse que sua mãe lhe havia proposto tomar conta de um bar em Penny Lane e ele estava disposto a aceitar. Os outros talvez tivessem ficado com alguma inveja daquela estabilidade financeira tão precoce, mas nada disseram.

O que é bom para nós, pode não ser para você", sentenciou George com ares de filósofo oriental.

Pete animou-se com a resposta e, com pena dos amigos, procurou encorajá-los. Disse que o rock'n roll estava no fim, que ninguém poderia substituir Elvis e que eles deveriam investir na música italiana, estara é que seria a música dos anos 60. No fim, despede-se dos amigos com um abraço.

"Boa sorte, Pete", disse John.

"É isso aí", falou George.

"Obrigado pelos conselhos, mas vamos ficar mais um pouco", finalizou Paul. "Talvez a gente ainda ganhe algum dinheiro com isso."

Pete soltou um longo suspiro. Estava com uma sincera pena de seus amigos. "Vocês é que sabem, rapazes, mas não vão dizer que eu não avisei..."


2


No outro lado da cidade, um narigudo, dono de de um arrojado topete e com a barba por fazer, espera sua namorada sair da manicure lendo sobre a apertada vitória do Blackburn sobre o Warrington pela segunda divisão do campeonato inglês.

"Esperou muito, Ringo querido?"

"Já lhe disse, Maureen, não gosto que você me chame de Ringo. A última coisa que me lembro quando olho no espelho é de um pistoleiro mexicano."

"OK Rick. E quanto àquele negócio, já decidiu?"

"Mamãe acha melhor eu aceitar aquele o emprego de fiscal de vigilância sanitária. Ela disse que eu sou um cara de muita sorte por conseguir passar nesse concurso."

"E a música, Ringo."

"Rick."

"Está bem. E a música, Rick?"

"Não vamos discutir isso de novo. Eu entendo tanto de música quanto você entende de corrida de cavalos."

"Mas você está ficando melhor. Ontem, em Mr. Moonlight você manteve o compasso até o final."

"Você está falando para me agradar."

"Não acho certo que você desista de um sonho."

Richard estava em dúvida. Se havia algo que ele detestava era decepcionar alguém. Sua mãe queria o emprego público, sua namorada queria a carreira artística. No entanto, Richard planejava levar Maureen a um drive-in naquela noite. Se a desapontasse, poderia ter que ficar em casa ouvindo um concerto da BBC ao lado de sua mãe.

"Está bem, vou tentar mais um pouco na música. Ano que vem vão abrir outro concurso mesmo."

"Eu te amo, Ringo."

"Não me chame assim, eu detesto apelidos ridículos."

(autor desconhecido ou o simplesmente velho emelho!)

Tuesday, August 31, 2010

A arte de gostar de mulher

(Recebido num e-mail desses...)

Ainda nos meus tempos de graduação em jornalismo na Uerj, fui assistir a uma palestra do fotógrafo André Arruda, que foi do JB, Globo e trabalhava, entre outras coisas, com moda. Em determinado momento da palestra ele relatava a sua experiência em fotografar nu artístico e soltou a seguinte frase: "Para fotografar nu feminino é preciso gostar de mulher". Eu sorri, porque na minha cabeça aquilo parecia meio óbvio, mas antes que qualquer um fizesse algum comentário ele completou. "Não se trata de gostar de mulher no sentido sexual, ter tesão por mulher nua, essas coisas. Isso pode ter também. Mas se trata de gostar de mulher em um sentido mais profundo. Gostar do universo feminino. Observar que cada calcinha é única, tem uma rendinha diferente e ficar entretido com isso" - afirmou.

O fato é que eu concordo com o conceito do Arruda sobre gostar de mulher. Não basta ser heterossexual, o machão latino. Para gostar de verdade de uma mulher são necessários outros requisitos que são raros. Por isso a mulherada anda tão insatisfeita.

Sensibilidade é fundamental. Paciência também. O homem que não tem paciência para escutar a necessidade que a mulher tem de falar, ou sensibilidade para cativá-la a cada dia não gosta de mulher. Pode gostar de sexo com mulher. O que é bem diferente.

Gostar de mulher é algo além, é penetrar em seu universo, se deliciar com o modo com que ela conta todo o seu dia, minuto por minuto, quando chega do trabalho. Ficar admirando seu corpo, ser um verdadeiro devoto do corpo feminino, as curvas, o cabelo, seios. Mas também cultuar a sagacidade feminina, sua intuição, admirar seu sorriso que é muito mais espontâneo que o nosso.

Gostar de mulher é querer fazer a mulher feliz. Levar flores no trabalho sem nenhum motivo a não ser o de ver seu sorriso. É escutar pacientemente todas as queixas da chefa rabugenta, que provavelmente é assim porque seu homem não gosta de mulher.

O homem que gosta de mulher não está preocupado em quantas mulheres ele comeu durante a vida, mas sim com a qualidade do sexo que teve. Quantas mulheres ele realizou sexualmente, fazendo-as se sentirem desejadas, amadas, únicas, deusas, na cama e na vida.

O homem que gosta de mulher não come mulher. Ele penetra não só no corpo, mas na alma, respirando, sentindo, amando cada pedacinho do corpo, e, é claro, da personalidade.
"Para viver um grande amor é necessário ser de sua dama por inteiro", afirmou Vinicius de Morais no poema "Para viver um grande amor". Para amar verdadeiramente uma mulher o homem deve ser totalmente fiel, amá-la até a raiz dos cabelos. Admirá-la, se deixar apaixonar todo dia pelo seu sorriso ao despertar e principalmente conquistá-la, seduzi-la, como se fosse a primeira vez. O homem que não tem paciência, nem tesão, nem competência para lhe seduzir várias e várias vezes, esse, minha amiga, não se iluda, não gosta nem um pouco de mulher.

Conquistar o corpo e a alma de uma mulher é algo tão gratificante que tem que ser tentado várias vezes. Só que alguns homens, os que não gostam de mulher, querem conquistar várias mulheres. Os que gostam de mulher é que conquistam várias vezes a mesma mulher. E isso nos gratifica, nos fortalece e nos dá uma nova dimensão. A dimensão da poesia, do amor e em última instância do impenetrável universo feminino. Mas atenção amigos que gostam de mulher: gostar de mulher e penetrar em seu universo não é torná-las cativas e sim libertá-las, admirá-las em sua insuperável liberdade.

Uma das músicas com que mais me identifico é uma em inglês - por incrível que pareça, para um nacionalista e anti-imperialista convicto. É a Have you really loved a woman? do cantor Bryan Adams. A música foi tema do filme Don Juan de Marco, e em uma tradução livre quer dizer "você já amou realmente uma mulher?". Em toda a música o cantor fala sobre a necessidade de se conhecer os pensamentos femininos, sonhos, dá-la apoio, para amar realmente uma mulher.

Essa música é perfeita. Como se vê, gostar de comer mulher é fácil. Agora gostar de mulher é dificílimo. Precisa ser macho de verdade para isso. Quem se habilita?

Tuesday, August 17, 2010

Olhando pela janela.

"Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Ás vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim."


Cecilia Meirelles

Rifa-se um coração quase novo.

Rifa-se um coração quase novo...
Um coração idealista. Um coração como poucos. Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que, na realidade, está pouco usado, meio calejado, muito machucado e que teima em alimentar sonhos e cultivar ilusões.
Um louco inconseqüente que nunca desiste de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração que acha que Tim Maia estava certo quando escreveu: "...não quero dinheiro, eu quero amor sincero, é isso é que eu espero..."; Um idealista. Um verdadeiro sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende. Que não endurece e mantém sempre viva a esperança de ser feliz, sendo simples e natural. Um coração insensato que comanda o racional sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando relações e emoções verdadeiras.
Rifa-se este coração que insiste em cometer sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe. Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes, revê suas posições arrependido de palavras e gestos. Este coração tantas vezes incompreendido. Tantas vezes provocado. Tantas vezes impulsivo...
Rifa-se este desequilibrado emocional, que abre sorrisos tão largos que quase dá prá engolir as orelhas, mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto. Um coração para ser alugado ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes.
Um orgão abestado, indicado apenas para quem quer viver intensamente e, contra-indicado para os que apenas pretendem passar pela vida matando o tempo, defendendo-se de emoções.
Rifa-se um coração tão inocente que se mostra sem armaduras e deixa louco o seu usuário. Um coração que, quando parar de bater, ouvirá seu usuário dizer para São Pedro, na hora da prestação de contas: "O Senhor pode conferir, eu fiz tudo certo. Só errei quando coloquei sentimento. Só fiz bobagens e me dei mal quando ouvi este louco coração de criança, que insiste em não endurecer se recusa a envelhecer."
Rifa-se um coração, ou até mesmo troca-se por outro que tenha um pouco mais de juízo. Um órgão fiel ao seu usuário. Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga. Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo mas que incomoda um bocado. Um verdadeiro caçador de aventuras que ainda não foi adotado, provavelmente, por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais. Por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree. Um simples coração humano. Um impulsivo membro, de comportamento, até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que, certamente, os mais avançados não mais possuem.
Uma verdadeira raridade que, mesmo estando fora do mercado, faz questão de não se modernizar, mas vez por outra, constrange o corpo que domina.
Um velho coração que convence seu usuário a publicar seus segredos e, a ter a petulância de se aventurar como poeta.


Ricardo Labatt

Tuesday, July 27, 2010

Quero ser bobo...





"O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir tocar no mundo.
O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo, estou pensando."
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem.Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas.
O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver.O bobo parece nunca ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era que o aparelho estava tão estragado que o concerto seria caríssimo: mais vale comprar outro.
Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranquilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado.O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu. Aviso: não confundir bobos com burros.Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"
Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação, os bobos ganham a vida.
Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.
Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas.
É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo."

Clarice Lispector

Monday, March 01, 2010

Coldplay e o tal do roque enrow...



E não é que acabei indo no show do Coldplay ontem?
Na verdade, nem tava tão a fim de ir mesmo. Nunca fui muito fã deles e
o som nunca me animou muito. É como se ali não rolasse esse tal de roque enrow...

Aí, conversando com meu amigo Lau outro dia ele disse que valia a pena ir ver por que é uma superprodução gringa, outro nível técnico e tal...
Fiquei com isso na cabeça, mas achei meio bobagem, complexo de terceiro mundo...
Então ontem, em pleno domingão nublado e frio, às 15h na bucha, meu amigo e parceiro do rock Patinho, vulgo Luiz Henrique, me liga dizendo que tava comprando o ingresso no shopping:
- E aí, man? Vamo nessa?
- Porra, Pato... 300 tá foda... Pago não, rei! Nem sou fã desses xurumelas...
- Rapaz, é banda inglesa... Superprodução... Tem que ver!

E aí... click! Já viu, né? Eu que há alguns minutos atrás estava ouvindo Led Zeppelin e falando sobre como o rock inglês sempre foi muito mais foda que o americano e blá, blá, blá... Que no rock americano só tiro o Red Hot Chili Peppers, Nirvana e Pearl Jam.
- Ta bom, man! Já to fudido mesmo! Compra essa porra aí que eu deposito essa semana!

Aí foi pegar chuva pra andar até o metrô da Cinelândia. E tome fila! E tome olha a capa de chuva é 5 real! E tome ó o ingresso na mão! E tome mão boba pra revistar você! E tome cotovelada também com cerveja a 5 real! Ok, ok... It migh get loud! Muuuuuu!
Tem gente que paga até mais do que eu, 500 contos, pra ser tratado como boi. Que merda.

O show da Vanguart já tinha acabado e estava tocando uma menina da Bat for Lashes que não é bem o que eu chamo do tal de roque enrow... Mas vamos nessa...
Aí Patinho me vem com uma teoria que seria corroborada logo mais, a respeito das bandas de rock inglesas:
- Man, a Inglaterra colonizou, na verdade, todo o mundo ocidental. Sempre foi assim. Dominação pelo comércio, pela língua, pela cultura... Quando a gente ouve o british rock a gente se sente em casa.

E eu acho que ele tem memso razão. Além do que Beatles é Beatles sempre! Os caras inventaram isso tudo que está aí hoje. E o Led Zeppelin, no duro, inventou o rock´n roll – em inglês mesmo. E ponto.

Aí entra o bom mocinho Cris Martin e a sua trupe alada... O figurino deles parecia uma reciclagem do Sargent Peppers? Aquela coisa de casacos militares de prega, coloridos com ombreiras... Um quarteto e coisa e tal... Hum...
E as câmeras (que aliás tinham uma edição pré-programada muito de fuder) pegavam closes na mão do cara tocando o piano. E ele tava cheio de pulseirinhas coloridas, meio Robert Plant demais também...
Aí começou a doideira, né? Sobe a fumaça...
Eles tocam Yellow e, de repente, uma centenas de balões amarelos gigantes estão pulando sobre o enorme público da arena da praça da Apoteose (nem sei quantas pessoas assistiram esse show). E todo mundo fica meio bobo com todo aquele espetáculo de vídeo em telas enormes de alta definição, com imagens hipnóticas. Um monte de crianças querendo meter a mão nos balões e fazer tudo ficar mais high...
As músicas em si não tinham, deveras, lá o peso do som do Led Zeppelin, mas tava bem legal assistir a execução ao vivo. Bons músicos! O baterista batia forte mesmo.
A introdução de “In my place” lembra até a bateria de “When the levee breaks”...
Um outro momento muito foda foi quando o cara pediu que todo mundo sacasse seus celulares, acendendo o painel... Pô! Ficou de fuder....
Aquela platéia toda e todos aqueles recursos visuais... Luzinhas azuis em movimento caótico harmônico... Um negócio meio Avatar. Todo mundo em transe, balançando em volta da grande árvore da vida.
Depois ainda teve, em outra música, uma descarga de toneladas de borboletas de papel coloridas... Ficou bonito mesmo.
Guardei algumas no bolso e comentei com Patinho que se eu fosse uma menina, eu colava no meu diário.

E pra fechar o show de uma maneira que não poderia resumir nem caricaturar melhor o evento, um show pirotécnico, literalmente. Pra fazer frente com o réveillon de Copacabana!
Então, no fim das contas, pra quem nem tava a fim de ir, foi um espetáculo pra inglês ver! Já o tal de roque enrow.... Acho que esse ficou perdido em algum lugar dos anos 70...

Friday, February 05, 2010

follow me!

http://blip.fm/invite/potatoblogmusic

Tuesday, January 05, 2010

O Bêbado e o Equilibrista

Abrindo a porta do último andar, onde se esqueceu em casa quando já ia sair, apressado dá com uma cara assustadora. Assustadora sim, mas não estranha. Conhecida, que de tão conhecida amedrontava.

Fechando para descer ao térreo, o lugar onde lembra no fim todos vão parar, sobressalta-se com o irromper de um olhar apressado, que de repente passa a assustado. Sobressalto sim, mas não susto. Há quanto tempo não via aquele olhar?

Entrando corredor adentro, em seus passos da vida apressada, meio vazio ainda nas suas lembranças, esquece logo o susto. O susto, mas não a cara. Cara lembrada, que de tão estranha não a estranhava.

Saindo elevador abaixo, ali parado na vida espelhada, meio cheio já das suas memórias, lembrando do rosto, que ali mora. Mora, mas não paga. Memória, entre as tantas que o rosto lhe enrugava.

Vivendo a morte mais perto a cada acordar, não dorme no ponto, nem cai mais no conto. É tão pouco mês pra tanta conta que até fica tonto. Tonto, mas não cai.

O equilibrista bêbado, bambeando fora linha, só, a ele mesmo trai.

Morrendo a vida mais longe a cada adormecer, desperto, esperto, sereno pronto para o encontro. É tanta dor pra tão pouco corpo, que já fica pronto. Pronto, mas não sai.
O bêbado equilibrista, floreando seu fim de linha, vai vivendo. Vai...

Rápido é o passo, desvia para não ver. Sem olhar pra trás, ou o pela frente, passa de repente e não volta mais. Ausente, some nesse mar de gente, que nasce, vive e sempre morre crente de que tudo acaba.

Vazios de sentido são os olhos. Na maré baixa, mareiam com vento que sopra o que não volta atrás. Presente, contempla, brilha sem se apressar como toda essa gente, onde todos vão parar.

Tuesday, December 01, 2009

a primeira dose

E lá estava eu. Finalmente eu ia saber de tudo. E ela também estava lá. Eu tinha medo. Eu tomaria a primeira dose. E não sabia qual seria o resultado.
Era cor de terra. Coisa de dois dedos. O cheiro não era bom. Bebi feito quem bebe remédio. Não senti o gosto. Sentei.
Demorei um pouco para sentir alguma coisa. Olhava para a cara daquelas pessoas e tudo me pareceu tão estranho, tão sem sentido...
Mas então uma música de outra dimensão rasgou o ar, apunhalando o mais transcendental e profundo eu. Perfurou.
E eu vi.
Vi arabescos indianos se descortinando na minha frente. Ouvi. Aquela voz dizendo "aí está tudo que você queria ver e saber". E o filme da minha vida começou a passar. Desde antes de eu nascer. Quando meu pai e minha ainda esperavam para saber se eu seria menino ou menina. Vi o amor deles por mim, quando nasci. Senti. Lembrei também de como eu amava aquela professorinha de olhos verdes que me levava para a casa dela depois das aulas, de tarde. Eu era muito pequeno, devia ter uns quatro anos.
Tia Viviane. Fui guarda de honra no casamento dela. Lembrei das minhas brincadeiras, das musiquinhas, dos meus amigos. Reais e imaginários. Vi que os imaginários não eram tão imaginários assim. Lembrei de cada momento. Cada gesto, cada cheiro. Cada sorriso de menino. Cada lágrima. E chorei.
Chorei muito. Chorei alegrias. Chorei tristezas. Chorei minha alma. Aquela era a minha vida, a voz dizia no fundo da minha cabeça. A consciência. Tive medo. Fiquei tonto. Tive medo daquela força estranha.
Levantei da cadeira meio cambaleante e fui até um canto para vomitar. Vomitei minha vida e morri.
Desmaiei por alguns segundos. Pelo tempo de algumas encarnações. O suficiente para olhar nos olhos daquele índio boliviano de cabelos brancos, que me observava de cima com aquela cara de pajé, e, ainda deitado no chão dizer: "Já entedi. É tudo uma coisa só!". Então toda aquela gente se dispersou e ele sorriu. E eu também. Tudo uma coisa só.
Que estranho. Que louco. Que mágico!
Todos aqueles conceitos filosóficos, místicos e religiosos, que antes eram só conceitos vazios de percepção e díspares entre si, se fundiram numa só compreensão. Sim. Eu já sabia.
Lembrei de tudo.
Lembrei do amor de minha mãe. De como tantas vezes eu fui um filho muito difícil. Que lhe causou alguns sofrimentos. E chorei. Como eu amo minha mãe, constatava a voz da minha cabeça. Chorei de alegria por ter uma mãe. Por ter a minha mãe. A minha mãe que eu quero tão bem. Que tem tanto amor. Amor. Mãe.
Lembrei do meu avô. Sempre tão puro de coração. Tão ingênuo e tão carente. Senti que nem sempre tinha sido tão bom com ele quanto ele sempre foi comigo. E chorei. Meu vovô. Te amo meu vovô, eu chorava. De saudades, de tristeza, de alegria, de amor. Minha vó e meu vô.
Meu pai. Meu melhor, meu grande amigo. Meu ídolo. Meu herói. Meu exemplo em muitas coisas daquela vida que eu tinha vivido até então, naquela tarde azul de domingo de lua cheia de abril de 2002.
Te amo meu pai, pensava eu sorrindo feliz.
Meus irmãos. Meus amigos. Minhas namoradas. Meus primos. Meus colegas...
Um amor profundo e incondicional por todos eles. Meu coração fluía sangue e derramava todo o seu amor de cima daquele galpão. E impregnava a terra, subia pelas árvores, exalando nas plantas, nas folhas e frutos. Meu coração fluía todo o AMOR do universo. Um. Universo.
Tudo era tão vivo, tão pedaço desse AMOR, quanto aquela bonita mangueira que eu olhava sentado no chão daquela tarde. Os pássaros cantavam as mais belas melodias do céu.
Ainda era jovem. Com mais uma vida inteira pela frente. Uma tinha ido embora. Tinha mais umas seis novinhas em folha.
E o filme ainda rodava. Tinha um charme de musical dos anos 30. Uma nostalgia de Carlitos. E a cor da atmosfera era azul, quase lilás.
Então ela apareceu para mim pela última vez. Ela, a primeira das que vieram e virão, aparecia na minha frente pra se despedir. Ela me dava um beijo no rosto, saltava do carro e subia as escadas, me dando tchau com aquele sorriso de menina. Sua alma me dizia que estava tudo bem. Cada um de nós seguiria seu caminho. E dizia pela consciência que tínhamos sido gotas do AMOR universal um para o outro.
E por toda vida continuaríamos sendo gotas, rios e marés, até voltarmos a ser mar.
O AMOR. Ela disse adeus. Há Deus. E eu sorria, livre da prisão. Mais leve. Feliz.
E como não sentia mais o peso da saudade no coração perguntei para a rezadeira o que era apagar. Ela pensou, pensou e disse:
- Meu filho, nessa vida a gente nunca apaga nada. Tá tudo escrito no tempo e nas estrelas.
Sim. Eu sabia. E o filme continuava rodando. Agora eu lembrava de uma outra vez que eu tinha morrido.
Naquela vez eu estava deitado em cima de uma mesa, numa casa pequena e humilde do interior. Um lençol cobria meu corpo. E havia velas. E gente. Muita gente.
As pretas velhas, rezadeiras, cantavam encomendando a alma daquele outro preto surrado da vida que ia subindo ao puleiro das almas. E aquela cantoria, que não tinha tempo nem espaço, também estava ali. Naquela tarde tão azul. Em que eu olhava para a mangueira e pensava no que John Lennon tinha feito pela compreensão da paz pelo insconsciente coletivo mundial. A paz. A vida. As vidas. Um amor. Uma vida.
E o filme a la cinema paradiso ia descendo na bobina. Agora eu me via ali. Anos depois.
Numa tarde ensolarada. Um pouco mais velho. Com cabelos grisalhos, de óculos, camisa de manga amerela e um sorriso senhor de uma certa confiança e maturidade. Mais sabido. E me dizia muitas coisas.
Ele. A voz. Eu.
E aquilo tudo era muito mágico.
E a mágica ia se apagando com o pôr-do-sol. Ia ficando mais branda. O mar de AMOR ia se diluindo no oceano do mundo real.
Mas qual seria a realidade? Que nova pessoa era eu? Quem era aquele homem que nascia dentro dos olhos de um menino, recém saído da adolescência? Eu ainda não sabia. E continuo não sabendo. Ele nunca me disse.
Às vezes descubro alguma coisa nova quando não pergunto demais.
A noite caia em cima do sol, manto de AMOR. E a lua, resplandecia toda a prata astral.
As cigarras cantavam ao horizonte de aquarela, que ninguém jamais pintou. E o enxame de estrelas dizia que o dia terminou. A tarde terminou. Aquela vida terminou.
Agora era outra. Eu tive medo.
Mas estava salvo. Pelo menos por enquanto.

Monday, November 30, 2009

Abro pra você a porta de casa. Convidaria-te a entrar na minha vida. Se eu soubesse nela onde fica a porta, a janela, o pé direito e o prumo.
Um capitão pirata, aventureiro sem rumo. Um barco a deriva, um porta-aviões esperando alguém pousar. Um mata borrão sem moscas, muriçocas ou prazo de validade.
Te contaria a história do meu pé esquerdo e de todas as sortes de venturas e ventos que já passaram pela minha cara. De moto, de avião ou caindo de algum lugar de dentro de mim. A montanha e a roleta na Rússia seriam o nosso destino predileto.
Nas estepes daqui a coisa fica preta, mas a gente não passa frio. Somos corações de portas de casas abertas, da gente da nossa terra, da lama e do caos do Brasil.

Wednesday, November 18, 2009

Cuidado comigo

Cuidado comigo
Não sou flor que se cheire
Sou desses botões frágeis e invisíveis
Pequeninos e raros, instáveis no campo depois
Da chuva em poucos instantes abro o peito ao sol
Duro o dourado sorriso de veludo da abelha, murcho e me ponho
contigo na memória das cores, formas e perfume.
Das pequenas flores
e dos amores.

Amor de retrovisor



Na minha cara há lentes oblíquas, por vezes obtusas,
Daqui vendo distorcidos os botões da sua blusa
Abrindo-se aos seios do infinito circular
Mas não voltam atrás os beijos que um dia te dei
Bonitas são agora as nossas sombras passeando
Na rua de mãos dadas sobre os cacos de vidro.

Thursday, March 26, 2009

Palavra (en)cantada

Encantarei com a palavra.
Nem mais, nem menos.
Um tanto. Só.
Cantarei o verbo, plantarei o canto.
Findarei no princípio de tudo. O encanto.

Pelo dito que passeia no ar.
Pelo nome que não há língua que o possa pronunciar.
No sol acende o som antes de se fazer, ser
palavra que a lua mingua no pôr
e a língua lava em pranto na cantiga de entardecer.

Me encantando com a palavra.
Sem mais nem menos, enquanto só.
Cantando o verbo, plantando o canto.
Buscando no princípio de tudo o encanto.
Infinito tempo circular.

Passado o presente do futuro,
imperativo se faz conjugar
o surdo silêncio que retumba dentro do peito.
Fala todo o tempo sem chamar fora,
calado pelo princípio, encantado pelo efeito.

Encantei-me com a palavra.
Já não há mais, nem há menos
Há um tanto. Um só.
Cantei o verbo, plantei o canto.
Encontrei no princípio de tudo o encanto.

Friday, March 20, 2009

All we need is love!

Navegando nessa maré de redes sociais, encontrei uma novidade que parece interessante.
É o http://www.yubliss.com/
A proposta parece ser a de um divã coletivo, onde as pessoas podem usar condinomes e compartilhar suas histórias - reais ou não - relacionando-as a mitos gregos, troianos, velhos ou “mudernos”.
Não sei se a proposta cola, nem quais são os fins comerciais. Mas, como curioso antropológico, dei uma checada.
Achei nos mitos do site uma definição interessante - apropriada para esses dias em que cada vez mais a união entre as pessoas é convocada - do mito romântico pelo filósofo Sam Keen.
Fiquei pensando a respeito do número cada vez maior dessas comunidades (facebooks, orkuts, twitters…) que conclamam as pessoas a uma certa união, quase organicamente necessária nesses tempos de incertezas.
Como se fossemos peixinhos, unidos num cardume que fica mais forte e ágil na fuga contra uma baleia… ou abelhas em redes sociais…
Ou como sociedade agindo contra e a favor de todas essas marcas e organizações.

Enfim…
Como diria John: “all you need is love… love is all you need”.

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O mito do amor romântico - por Sam Keen


Descrição
No mito romântico, o amor é a força misteriosa que surge do nada e nos traz felicidade. A incrível porcentagem de 95% de todas as referências ao amor feitas pela mídia moderna baseia-se na promessa de relacionamentos românticos e nos problemas deles derivados. Na visão de Hollywood, os apaixonados são jovens, lindos e predestinados uns aos outros, apesar de precisarem passar por muitas adversidades antes de conseguirem a feliz realização de seu amor.

Origem
A obsessão moderna pelo amor romântico pode nos levar a crer que as coisas essenciais da vida sempre foram um beijo, um suspiro e um toque da “velha magia chamada amor”. Mas o mundo nem sempre reverenciou dois amantes dessa maneira cinematográfica. O amor romântico tem sido a exceção, e não a regra. Na maioria das sociedades pré-modernas, os casamentos foram “arranjados” por motivos práticos e políticos. Foram os cavaleiros e trovadores da Idade Média que inventaram o código medieval de conduta para namorados e idealizaram o romance, mas exclusivamente para a elite. O romance para as grandes massas surgiu com o nascimento do capitalismo e do individualismo, alcançando um nível febril entre consumidores modernos de novelas e revistas que versam sobre o amor falso e verdadeiro, cheias de receitas rápidas para a intimidade e conselhos para os perdidamente apaixonados. A necessidade de novidades relacionadas ao reino de Afrodite é constante e insaciável. Pesquisas de opinião, questionários e indagações intermináveis sobre nossos hábitos eróticos estimulam a crença questionável que temos de estar aprendendo novas técnicas e progredindo no jogo do amor.

Impacto
Nossa fixação míope por romance e sexo encoraja uma teoria de “atração fatal”, que nos transforma em vítimas que “se apaixonam” e “se desapaixonam” em razão de química ou que não conseguem se apaixonar em virtude de má sorte, abuso sofrido na infância ou famílias desestruturadas. Isso estimula a crença vã de que um relâmpago erótico vai nos atingir diretamente vindo dos céus e, espontaneamente, enriquecer e dar sentido às nossas vidas.
Apesar do profundamente enraizado desejo ardente por romance, quase toda a nossa energia é devotada no sentido de conseguir sucesso, prestígio, dinheiro e poder, e quase nenhuma no de aprender a arte de amar. Quando limitamos nossa busca por amor a uma ligação de somente duas pessoas negligenciamos o âmbito maior no qual precisamos praticar o amor – a família, a vizinhança, o meio-ambiente, a natureza, a comunidade de seres não-humanos sensíveis que incluem pássaros e feras.
O erro das teorias modernas sobre o amor é se dedicar exclusivamente a dois seres individuais solitários que se unem para formar uma ilha em um mar hostil povoado de outros seres anônimos e de vizinhos desconhecidos. A maioria das teorias pré-modernas considera o amor como um elixir que gradualmente dissolve as fronteiras que erigimos entre nosso próprio ser e os outros, progressivamente impulsionando o ego para além do individualismo e do santuário da intimidade, na direção de uma comunidade cada vez mais inclusiva.
A conseqüência mais séria gerada por nossas preocupações com o jogo de achar nossos pares é nos mantermos sempre voltados especificamente para a pergunta errada. Se eu perguntar “como posso encontrar meu amor verdadeiro” antes de perguntar “como posso me tornar uma pessoa carinhosa?” não vou conseguir adquirir as qualificações necessárias para me tornar um ser humano carinhoso – capacidade de ouvir, de ter empatia, de sentir compaixão, de cuidar do próximo, de ter comprometimento, etc. O amor é uma arte que precisa ser desenvolvida e praticada por toda a vida.

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Fiquei achando que faltava uma definição mais precisa sobre a inteligência “amorosa” da união coletiva. Já li em algum lugar que existem teorias de físicos para explicar melhor o funcionamento desse sistema que é chamado de multiagente:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_multiagente

Penso que a relação entre os sistemas multiagentes e o mito do amor romântico é de oposição bem inversa mesmo, como diz o texto do Sam Keen. Na verdade, temos participado na web de uma mudança de paradigma e de convivência. Se já não abrimos as portas das nossas casas como antigamente, estamos abrindo mais as nossas janelas…virtuais!

Então, como os enxames, cardumes e pixels randômicos pré-programados pelo media player, todos nós - enquanto seres humanos interconectados em redes sociais - reagimos a estímulos, ameaças, sons e etc.Reagimos também como consumidores, dando crédito ou descrédito a uma marca…Enfim, interligados, somos multiagentes. Espécie de formação ergonômica que, unida, defende-se melhor. Os generais romanos e suas formações de escudos já dominavam bem essa ciência…Essa idéia é bem diversa do mito do amor romântico um-a-um e nada mais.Passa mais perto de uma compreensão mais universal, de junção quase funcional e, talvez, amorosa da sociedade.Existem teorias funcionalistas e darwinistas de sóciologos como Herbert Spencer e Piotr Kropotkin, que no começo do século já enxergavam que a sobrevivência social depende de uma espécie de mutualismo num organismo coletivo.


Então é por aí…
Posso ter feito uma viagem longa, e penso que esse seja provavelmente o caminho…Uma sociedade digital amorosa e multiagente… hehehhe

E a propósito desse assunto: